18 de dezembro de 2015

O poema como instável

Morteza Katouzian
Estado, ou matéria, que questiona
através do poema,
vivemos
uma vida que nos pertence,
ou ela é que nos vive,
dependentes
do que e como ela
dedilha e tange em nós?
E entendendo
que o singular, quase nosso
único meio de nos reconhecer,
fica no que transcorre
entre o nascer e o crescer, sermos
sãos e doentes, morrermos,
não será vital, igualmente,
o ilusório do fixo, nos movermos
em continuidade com o fixo, o poema
como veículo, fechado e concluído,
para entesourar um presente
sem atrás nem além,
o poema, finjamo-lo,
acossador do inapreensível,
obsessivo registro
de quando a rosa se abre,
quando
uma estrela cai pulverizada,
quando
a relva que pisamos
torna a se endireitar?

Ao compreender isso
o fazedor de poemas o é, torna-se
uma fazedor de poemas,
e compreendendo-o
apoia seu afirmar-se
pelos poemas que faz,
e o vislumbre
de que se não fosse assim seus cantos
expressariam dele só o discorde,
e nenhuma unidade, nem sequer
mostrando-o como o gozoso, cintilante
predicado de seus cantos.

Alberto Girri (1919-1991)
Tradução: Sérgio Alcides

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