23 de dezembro de 2015

Árvore de Natal

Georgina de Albuquerque
Tarde! Estou muito triste, triste, assim
De uma tristeza imóvel e varia...
E uma ronda de crianças esfuzia
Na aquarela chinesa do jardim...

Aos poucos a farândola leviana,
Chega-se a mim, cerca-me ousadamente:
Inquietas larvazinhas de alma humana,
Misteriosos destinos em semente
Vêm parar a meus pés depois – meigas violetas,
Sob a sombra de uma árvore doente.

Não tenho nada para dar-lhes, sou
Como um pinheiro contemplativo,
Cujos ramos dolentes não têm frutos
Que há muito um vento cruel os arrancou...

Mas elas pedem qualquer coisa e eu me comovo.
Eu tenho tanta pena das crianças!
Elas são todo o mundo a começar de novo
Para as mesmas incertas caminhadas,
Para o mistério das encruzilhadas;
São toda a Humanidade que renasce,
Ingênua, simples e maravilhada,
Como a primeira vez que apareceu.

E, então (isso é dos santos e dos sábios),
Penduro na tristeza dos meus lábios
Coisas alegres que não são minhas:
Fábulas mansas, contos de fadas,
Histórias de anjos e rainhas
E uma porção de coisas encantadas,
Que vou distribuindo pelo bando...

E à tarde que se vai lentamente apagando,
Na aquarela chinesa do jardim,
Semeando alegrias e esperanças –
Minha tristeza é assim uma piedosa e linda
Árvore de Natal entre as crianças...

Raul de Leoni (1895-1926)

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