13 de dezembro de 2015

A Luva

Pierre-Auguste Renoir
Frente ao seu parque dos leões,
Aguardando o combate,
Sentado estava o rei Francisco.
E a seu lado os grandes da coroa,
E ainda, em redor, na alta galeria,
As damas, em magnífica grinalda.

E como faz sinal a mão do soberano,
Logo se abre a grande jaula,
E avança um leão
A passo ponderado.
Silencioso,
Lança à volta um olhar,
Com um bocejo prolongado,
E sacode a juba,
E distende os membros,
E na arena se deita.

E novamente faz sinal o rei.
Então se abre ligeira
Uma segunda porta.
De súbito,
Com um salto selvagem
Surge, correndo, um tigre.
Como descobre o leão
Ruge ruidosamente;
Bate com a cauda,
Descrevendo um círculo terrível.
E estende a língua,
E vai, em volta, receoso,
Rodeando o leão,
Rosnando, furioso.
Depois estende-se, resmungando,
Ao seu lado, no chão.

E novamente faz sinal o rei.
Eis que da jaula se abrem duas portas:
Dois leopardos saem, simultâneos,
Que sobre o tigre se lançam,
Com bravo ardor de combate.
A fera os prende em suas garras ferozes.
Endireita-se o leão, com um rugido,
— Faz-se um silêncio —
E à sua volta,
Ardendo em sede de sangue,
Estendem-se os terríficos felinos.
Do varandim da galeria,
Eis que uma luva de mão formosa
Cai, entre o leão e o tigre,
A igual distância, entre um e outro.

E voltando-se para o cavaleiro Delorges,
A jovem Cunegunda diz-lhe em troça:
«Senhor cavaleiro, se é tão ardente
O vosso amor por mim, como jurais
A cada instante, ide buscar a minha luva.»

E o cavaleiro, prontamente,
À arena assustadora desce
Em passos firmes.
E, do local monstruoso,
Com a mão audaciosa apanha a luva.

E com espanto, e com temor, olham para ele
Os cavaleiros e as nobres damas.
De espírito sereno, a luva traz de volta.
Nascem em cada boca palavras de louvor.
Porém, com terno olhar de amor,
(Promessa de uma próxima felicidade),
Recebe-o a jovem Cunegunda.
E ele atira a luva ao rosto feminino:
«A vossa gratidão, não a pretendo.»
E no próprio momento se retira.

Johann Kaspar Schiller (1723-1796)

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