3 de novembro de 2015

A Ventura

Jean-Baptiste Greuze
Olha, meu anjo, esta vida,
Que passa despercebida,
É de gozos tão despida,
Que nos não custa morrer;
Mas já que a sorte persiste,
E que a existência resiste
Aos baldões da triste sorte,
Não nos lembremos da morte,
Vamos buscar o prazer.

Mas este, bela inocente,
Não consiste no luzente
Doirado metal que a gente
Anda tanto a procurar;
Não consiste na grandeza,
Que para muitos é riqueza;
Não consiste nas vaidosas
Honrarias mentirosas,
Que te possam tributar.

Muito embora a fantasia,
Cada noite, e cada dia,
Em mil sonhos se sorria
De mentiroso prazer;
Embora tenhas alfaias,
Escudeiros, muitas aias,
Ricos trens, muitos enfeites,
São tudo falsos deleites
D’um fantástico viver.

A ventura, virgem bela,
É formosa, viva estrela,
Que cá na terra à donzela
Lhe conquista o sumo bem;
A ventura é ser amada
Ser no mundo idolatrada,
Mais que lá no oriente,
Sendo amadas loucamente,
O são as belas no harém.

A ventura é ter um seio,
A que o nosso sem receio,
A pender por doce enleio,
Revele as mágoas e a dor;
A ventura é ter desejos
E matá-los com mil beijos,
A ventura é ter a vida
Ao doce afeto rendida;
A ventura é ter amor.

Corre pois, dá-me os teus braços,
Apertemos nossos laços,
Porque os dias são escassos
Para quem sabe viver,
E se a dita é ser amada,
Se sem amor não há nada
Que te faça venturosa,
Ninguém neste mundo goza,
Mais ventura ou mais prazer.

A. X. R. Cordeiro (1819-1896)

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