4 de outubro de 2015

Soneto

Mihály von Zichy
Eu vi Narcina um dia que folgava
Na fresca borda de uma fonte clara:
Os peitos, em que Amor brinca e se ampara,
Com aljofaradas* gotas borrifava.

O colo de alabastro nu mostrava
A meu desejo ardente a incauta avara.
Com pontiagudas setas que ela hervara**,
Bando de Cupidinhos revoava.

Parte da linda coxa, regaçado,
O cândido vestido descobria;
Mas o templo de amor ficou cerrado.

Assim eu vi Narcina.—Outra não cria
O poder da Natura, já cansado;
E se a pode fazer, que a faça um dia.

Américo Elysio (1763-1838)
Pseudônimo de José Bonifácio de Andrade e Silva

*Aljofar — pérola menos graúda; gotas de água peroladas.
**Hervar — untar com sumos de ervas venenosas.

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