11 de outubro de 2015

O Esquecimento é a minha Pátria Vigiada

Edmond Dulac
O esquecimento é a minha pátria vigiada e ainda tive um país mais vasto
e desconhecido.

Regressei no meio de um silêncio de pálpebras àqueles bosques em
que fui perseguido por pressentimentos e propostas de homens enfermos.

É aqui onde o medo vê a força do teu rosto: a tua realidade no
desaparecimento

(que se estendia como chuva no fundo da noite; mais lenta que a
tristeza, mais húmida que lábios sobre o meu corpo).

Eram os dias grandes da traição.

Alimentava-me a fosforescência . tu criaste a mentira entre as pernas
da minha mãe; não existia a dor e tua criaste a compaixão.

Tu voltavas às hortênsias

e soluçaste debaixo da lente dos comissários.

Eu vi a luz da inutilidade.

A minha boca é fria nas preces. Este relato incompreensível é o que
resta de nós. A traição prospera em corações invioláveis.

Profundidade da mentira: todos os meus atos no espelho da morte.
E os carvões resplandecem sobre a pele de heróis ainda
despertos no umbral da imbecilidade.

E esse alarido entre cristais, essas feridas que não são visíveis senão
no instante do amor…

Que hora é esta, que erva cresce na nossa juventude?

Antonio Gamoneda
Tradução: Vasco Gato

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