30 de outubro de 2015

E. G. de la S.

René Burri - Che Guevara
Durante uns tempos milhares usaram o seu pequeno boné
e multidões desfilaram com retratos seus
em grande formato, gritando bem alto o seu nome.
Agora, aqueles cortejos pela City quase parecem irreais,
como o país e a classe que o viram nascer.
Longe dos matadouros e das barracas e dos bordéis
ia-se desfazendo a casa do pai, junto ao rio.
O dinheiro fora-se, mas a piscina ficou. Um rapazinho tímido,
alérgico, muitas vezes quase a sufocar. Em luta com o seu corpo,
fumando charutos, fez-se homem.

(o que isso seja, não é história para aqui).

Debaixo do travesseiro: Júlio Verne. O seu primeiro ataque,
a sua primeira fuga para a realidade: “Tristes Trópicos”.
Mas os leprosos, debaixo da varanda podre no Amazonas,
não entendiam o que ele dizia, e continuavam a morrer. Só então
ele descobriu o inimigo que lhe seria fiel até ao fim,

e o inimigo do inimigo. Depois das primeiras vitórias, começou a ver
como coisa muito nova o Novo Homem, uma velha ideia. A economia, porém,
não dava ouvidos aos seus discursos. O spaghetti continuava a faltar.
A pasta dentífrica também tinha acabado — e de que é feita a pasta dentífrica?
As notas de banco que assinava não tinham valor.

O açúcar pegava-se à camisa. Máquinas, pagas a peso de ouro,
enferrujavam nos cais. La Rampa andava cheia de boatos.
Lambidela de botas em Moscovo, novos créditos. O povo ia para a fila,
não oferecia segurança, contava anedotas esfomeadas. Por toda a parte bufos,
intrigas que nunca conseguiu entender. Um eterno estrangeiro.

Quis pregar moral aos Russos. O amigo dos homens
clamava pelo ódio que há de transformar o homem
numa máquina de morte, violenta, certeira e fria.
No fundo, uma mimosa: a sua leitura preferida eram poemas
(sabia Baudelaire de cor).
Fraco e delicado, os serviços secretos chamavam-lhe um figo.

E assim se refugiou nas armas, para ficar onde tudo era claro
e inequívoco, o inimigo e a traição: na selva.
Mas ele próprio parecia estar perto do fim.
Rosto cheio, sem barba, as fontes grisalhas,
óculos de lentes grossas, como um caixeiro-viajante, de “canadiana“, assim
disfarçado, em Nancahuazú, saiu para a sua última missão.

Não falava Quechua nem Guarani. O silêncio dos índios
era absoluto, como se viéssemos de um outro mundo. Insetos
lianas, mato rasteiro. Os camponeses como pedras. Cólicas,
ataques de tosse, edemas. Doses maciças de cortisona, adrenalina.
A última injeção, já ofegante: Ave Maria puríssima!

E logo a lenda se espalhou como espuma. Somos já super-homens, invencíveis.

(Sempre esta fatal ironia, de que os camaradas se não apercebem.)

Um farrapo humano, um ídolo.
Nós ter-lhe-íamos dado um lugar, anunciavam os mais progressistas
de entre os seus inimigos mortais. Em vez disso, puseram
em exposição o seu cadáver com as mãos decepadas. Uma aventura mística, e
uma paixão que lembra irresistivelmente a imagem de Cristo:
isto escreveram os seus adeptos. Ele: Les honneurs, ça m’emmerde.
Não foi há muito tempo, e já esquecido. Só os historiadores
se instalam como as traças no pano do seu uniforme.

Buracos na guerra popular. De resto, na metrópole, só já
uma boutique fala dele, com o nome que lhe roubou.
Na Kensington High Street acende-se o brilho dos pauzinhos de incenso;
sentados junto da caixa registradora, os últimos hippies, entediados,
irreais, como fósseis, e abúlicos, e quase imortais.

O texto interrompe-se, e tranquilamente continuam a afluir as respostas.

Hans Magnus Enzensberger
Tradução: João Barrento

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