3 de outubro de 2015

A Criação da Mulher

François Boucher - Vênus e Amor com pombas
Já tinha o Mundo
Jovem formado,
E rei de tudo
O Homem criado.

Mas solitário
Este se achava:
Brusca tristeza
O dominava.

Com mão profusa
A natureza
Em vão mostrava
Tanta beleza!

Cantavam aves,
Bulia o vento:
Tudo infundia
Contentamento.

Florido o vale
Reverdecia:
De aromas mil
O ar se enchia.

Manhã serena
Leda brilhava:
Manto de estrelas
A noite ornava.

E todavia,
Qual duro tronco,
O Homem jazia
Sisudo e bronco.

Covas escuras,
Mata enredada,
Nelas fazia
Sua morada.

No solio eterno
Jovem sentado,
Então aos Deuses
Fala pousado:

“Mortal soberbo
Com o entendimento
Sondar pretende
Mistérios cento:

“Só, pensativo
Se desalenta;
Do mundo inteiro
Nada o contenta.

“Eu distraí-lo
Quero piedoso;
Beba sua alma
Néctar gostoso.”

Forma então Jove
Nova criatura;
De Vênus bela
Fiel pintura.

Esbelto talhe,
Meneo brando,
Mil amorinhos
Vão rebanhando!

De oiro madeixas,
Ao vento soltas,
Ameigam feras,
Que andam revoltas.

Os Cupidinhos
Dos verdes olhos
Duros despedem
Setas a molhos.

Covas da face
Branca e rosada,
Vós sois das Graças
Gentil morada!

Vozes suaves,
Que as almas prendem ,
De fio em fio
Dos beiços pendem.

Ah! são seus beiços
Fontes de vida!
Em neve pura
Romã partida!

As alvas tetas
De marfim puro
Ah! são mais rijas
Que cristal duro!

Carne mimosa
Que a vista enleva,
Onde o desejo
Em vão se ceva!

Ao vê-la o homem
Pasma, estremece!
Quer abraçá-la,
Corre, enlanguece!

“Quem és? és Deusa?
(O homem lhe grita)
Ah! se pudesses
Trazer-me dita!”

Ela responde:
“Sou tua esposa;
Deixa a tristeza,
Ama-me, e goza.”
Americo Elysio (1763-1838)
Pseudônimo de José Bonifácio de Andrade e Silva

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