18 de setembro de 2015

Metamorfoses, Livro XII, 393-428.

Gagik Maoukian
“… Nem a tua formosura, Cílaro, te salvaguardou do combate (se na verdade, admitimos que tal natureza tem formosura). A barba despontava e era da cor do ouro, e da cor do ouro os seus cabelos caíam dos ombros até meio das omoplatas; no rosto, um vigor encantador; a nuca, os ombros, as mãos, o peito e tudo aquilo que nele humano era, assemelhava-se às estátuas aplaudidas de um escultor. A sua parte equina era irrepreensível, não inferior à humana: dá-lhe pescoço e cabeça, e seria digno de Castor. Tão apropriado à sela é o seu dorso, tão robusto e musculoso é o peito. É todo negro, mais negro que negro pez, mas alva é a cauda, e de cor alva as patas. Muitas da sua raça suspiraram por ele, mas só Hilomene o arrebatou: fêmea mais deslumbrante entre aqueles seres meio amimais jamais habitou nas profundezas das florestas. Foi a única que conquistou Cílaro, com carícias, com amor e declarações de amor. E procura também arranjar-se, tanto quanto o corpo o permite: ora alisa os cabelos com o pente, ora se atavia com grinaldas de rosmaninho, ora de violetas e de rosas, outras vezes trazendo brancos lírios; duas vezes ao dia lava o rosto no ribeiro que desliza do cimo da floresta de Págasas, duas vezes mergulha o corpo no rio. E, pendentes do ombro ou do flanco esquerdo, não usa peles, senão as que lhe assentam bem, e de animais selecionados. O amor neles era igual. Deambulavam pelas serranias juntos, juntos entravam nas grutas. Também então entraram juntos no palácio do Lapita, e juntos enfrentaram a feroz batalha.
Quem lançou não se sabe, mas eis que um dardo é disparado da esquerda e crava-se em ti, Cílaro, pouco abaixo onde o peito sucede ao pescoço. Ao extraírem o dardo, o coração, atingido por pequena ferida, vai-se esfriando junto com o corpo todo. De imediato, Hilomene toma nos braços o corpo moribundo, e, pressionando com a mão, tenta acalmar a ferida, e encosta os lábios aos lábios dele, e procura travar a alma que foge. Mas quando o vê morto, com palavras que o clamor impediu de chegar aos meus ouvidos, deixou-se cair sobre o dardo que nele estava cravado, e morreu abraçada ao marido.”...
Públio Ovídio Naso (43 a.C.-17)
Tradução: Paulo Farmhouse Alberto

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