26 de julho de 2015

O Banquete

Platão e Xenofonte

Xenofonte (430-355 a.C.) Historiador, Soldado e discípulo de Sócrates.
Platão (428-347 a.C.) O mais famoso discípulo de Sócrates.

1 – O Banquete de Platão:
Anton Petter - Sócrates e Alcibíades
O Banquete está entre os diálogos mais lidos de Platão e foi escrito aproximadamente antes de 384 a.C. É constituído por sete discursos em louvor a Eros, antecedidos pela apresentação dos personagens e finalizados pelo discurso de Sócrates, que conclui o simpósio.
Platão narra, através de uma conversa entre Apolodoro e um companheiro, um banquete ocorrido na casa de Agatão, poeta ateniense. Tal jantar ocorrera muitos anos antes da narração de Apolodoro, que tomou conhecimento de tal fato através de Aristodemo, um dos presentes. Em O Banquete Platão expõe o que para si era o Amor, quais eram suas benevolências na vida de um homem e quais os cuidados deviam ser tomados quando se fosse atingido por uma das “flechas de Eros”. Embora o filósofo utilize-se de diversos personagens componentes do circuito social de Atenas, como o médico Erixímaco, o comediógrafo Aristófanes e o poeta Agatão, é somente no final da obra que Platão, através de Sócrates, elucida seu pensamento sobre a temática amorosa.
Mas isso não se faz de forma direta: ainda que Sócrates tome a palavra, não discursa atribuindo a si a melhor definição sobre Eros, mas fazendo uso da fala da sacerdotisa Diotima de Mantinéia. Esse método garante ao diálogo um caráter pedagógico, pois sendo Sócrates um filósofo, de acordo com a doutrina platônica, tinha como papel resgatar a verdade na alma dos homens.
A finalização do diálogo ocorre quando Alcibíades, general de Atenas, adentra o recinto fingindo estar embriagado e faz uma declaração de amor a Sócrates.
1 – O Banquete de Xenofonte:
O Banquete de Xenofonte, escrito aproximadamente em 380 a.C, relata um jantar ocorrido anos antes que fora oferecido por Cálias em honra ao jovem Autólico, seu eromeno˚ , por sua vitória no pancrácio no ano de 422 a.C em ocasião das Grandes Panatenéias˚ . Cálias, em companhia de Nicerato, convida Sócrates e seus amigos, Critóbulo, Hermógenes, Antístenes, Cármides para participarem deste evento.
A obra é composta por nove livros e está dividida em três partes principais:
1. Na primeira há a apresentação dos personagens;
2. na segunda versa-se sobre variados temas, dentre os quais estão a natureza feminina, a dança, o vinho e a bebedeira, a Filosofia e os esportes, sempre pautados na importância do equilíbrio e da temperança;
3. na terceira e última parte, especificamente no livro VIII, Sócrates assinala suas principais ideias acerca do Amor, sobretudo do amor pederástico
˚ .
O mestre aponta os diversos tipos de amor existentes, expressando sua dúvida acerca da existência de duas deusas Afrodite - a Pandemia e a Urânia, como também aparece no diálogo platônico. Para Sócrates em Xenofonte, é possível que a deusa seja apenas uma e que se manifeste de formas distintas, ora amor como sensual, ora como amor da alma.

(XENOFONTE, O Banquete, VIII, 10).
Sócrates segue afirmando que o amor da alma é superior àquele amor que visa apenas o corpo. Para o mestre, a amizade (philia) deve ser a base de qualquer relação digna de consideração e, enquanto a beleza do corpo não dura, a da alma vai aumentando à medida em que o tempo passa.

(XENOFONTE, O Banquete, VIII, 13-14).
Terminado o discurso de Sócrates, Autólico levanta-se para dar um passeio. Os demais permanecem para contemplar uma representação de Dioniso e Ariadne e ao vê-los um nos braços do outro, decidem os solteiros fazer promessas de casamento e os casados conduzir-se em direção às suas esposas. Sócrates e os que ficaram saem com Cálias para passear cm Lícon e seu filho.

(XENOFONTE, O Banquete, IX, 1-7).
A Pederastia no Banquete de Platão e Xenofonte.
Notamos nos dois Banquetes muitas semelhanças, a começar pela presença de Sócrates. Além do tipo de escrita, a temática amorosa e as reflexões acerca das consequências do Amor na vida dos seres humanos são comuns às duas obras. Em ambas a relação entre erastas˚ e eromenos aparece pautada na temperança e no amor voltado mais para a beleza da alma que da beleza física. Embora os atenienses valorizassem muito o corpo, também prezavam a beleza da alma, conforme descrevem Platão e Xenofonte.
“E é mau aquele amante popular, que ama o corpo mais que a alma; pois não é ele constante, por amar um objeto que também não é constante. (...) Ao contrário, o amante do caráter, que é bom, é constante por toda a vida, porque se fundiu com o que constante” (PLATÃO, O Banquete, 183 d – e).
“Mostrarei agora o quanto é indigno de um homem livre ter relações com aquele que prefere os corpos ao invés da alma. Aquele que ensina a seu amigo a falar e agir como convém, poderia ser honrado por Aquiles, como Quíron e Fênix; mas aquele cujo desejo dirige-se aos corpos, merece ser tratado como mendigo (XENOFONTE, O Banquete, VIII, 23).
Ao analisarmos os trechos acima percebemos que embora valorizada, a beleza do corpo era preterida em relação à beleza da alma, pois é inconstante e passageira, enquanto a beleza da alma é estável. Um homem virtuoso seria aquele que conseguisse unir a beleza do corpo, adquirida através de atividades físicas, à beleza da alma, por intermédio de sua conduta e reflexões filosófica. Sócrates, no livro II do Banquete de Xenofonte, mostra-se imensamente interessado pela prática da dança, e afirma que o jovem bailarino presente no encontro torna-se ainda mais belo enquanto movimenta-se. Discursando positivamente sobre os benefícios que a dança e as atividades físicas em geral trariam àqueles que a praticavam, Sócrates consegue convencer Cálias, que pede para ser convidado pelo mestre quando este fosse aprender a dançar para que pudessem aprender juntos (XENOFONTE, O Banquete, II, 15 - 20). Nesta passagem, Sócrates age como um bom exemplo de erasta e influencia positivamente Cálias, mesmo este já sendo homem formado e não participante do processo destinado à sua formação social.
Nos dois diálogos existem vários “conselhos” de como deveriam agir os praticantes da pederastia. Durante o século V a.C, Atenas enfrentava uma crise política, sobretudo em consequência de seu envolvimento na Guerra do Peloponeso. Na cidade surgiam vários hetairiai, que segundo Donald Kagan eram “clubes” de eupátridas que se consideravam inimigos da Democracia (KAGAN, 2006: 414). Além do campo político, a Guerra do Peloponeso atingia também o equilíbrio moral da sociedade ateniense, e diante do caos proveniente da guerra, parte da juventude descontrolou-se em relação a seus desejos sexuais.
Sabemos que a opinião de Platão não pode ser estendida a toda sociedade, já este era um filósofo e que possuía uma visão idealizada da pederastia. Se em o Banquete há tanta preocupação no que diz respeito ao autocontrole de erastas e erômenos é por que certamente havia aqueles que transgrediam as normas. Platão era um sábio e diante da corrosão dos valores morais em que a juventude estava submetida, sente-se no papel de orientá-los, seguindo o exemplo de seu mestre Sócrates, o “Parteiro das Almas”. Xenofonte compartilha das preocupações de Platão. Em todo seu diálogo existem noções morais que para ele deveriam ser respeitadas no relacionamento pederasta. Na passagem a seguir, Sócrates elogia Cálias por estar enamorado de Autólico, um jovem cheio de virtudes:
“Quanto a ti, Cálias, toda a cidade sabe que tu estás enamorado de Autólico, e muitos estrangeiros também, imagino. A razão disso, de ambos serem pais célebres, tu mostrarás a eles. De minha parte, sempre admirei sua natural felicidade, mas agora muito mais, por que vejo que tu amas um rapaz que não se prostitui por causa da elegância, nem se torna efeminado por causa da delicadeza, mas que faz brilhar no entender de toda sua força, sua resistência, sua coragem e sua temperança. Estar apaixonado por qualidades parecidas demonstra a excelente natureza do amante”.

(XENOFONTE, O Banquete, VIII, 7–8).
Através do discurso de Sócrates apresentado no trecho acima, compreendemos o que para Xenofonte eram atributos de um bom eromeno: um jovem másculo, incorruptível, corajoso e temperante. Em outra passagem, Sócrates enumera as qualidades do bom erasta:
“Uma alma ama fazendo o amado crescer em sua beleza, digna de um homem livre; em sua modéstia e sua generosidade, e ao mesmo tempo, uma alma que imediatamente, se mostra autoritária e benevolente entre os jovens, não tem necessidade de discurso, por que é natural que tal apaixonado seja correspondido em seu amor pelo jovem, e eu demonstrarei isso.”

(XENOFONTE, O Banquete, VIII, 15-17 ).
Outro aspecto que favorece a figura de Cálias enquanto bom erasta é o fato de convidar Líncon, o pai de Autólico, para as reuniões (XENOFONTE, O Banquete, VIII, 11).
Compreendemos que para Xenofonte, se a relação entre erastas e eromenos era realizada dentro dos limites moralmente aceitos, não teria motivo para que fosse escondida do pai do jovem, muito pelo contrário: deveria servir de modelo para outros jovens e seus mestres.
Platão também aponta em seu diálogo os modelos que erastas e eromenos deveriam seguir. De acordo com as regras da pederastia, Alcibíades aparece em O Banquete como um mau exemplo. Embora em sua juventude tenha recebido a mais refinada educação de Atenas, ao atingir a idade adulta, rendeu-se ao descontrole sexual, a bebedeira e aos mais diversos tipos de escândalos. Werner Jaeger ratifica que Alcibíades é o tipo que Platão melhor utiliza para ilustrar o que segundo ele seria um bom eromeno: jovem de aspirações geniais, que tomava para si os assuntos políticos de Atenas. Contudo, Alcibíades peca no fato de trabalhar para a Edificação do Estado antes ainda de edificar o “Estado em si mesmo”.

(JAEGER, 1986: 515)
e torna-se exemplo do modelo a não ser seguido por não possuir autocontrole.
Dois papéis fundamentais eram pré-determinados na relação pederástica: erastas– que tinham como função ensinar ao amado a maneira pela qual triunfar sobre seu desejo e tornar-se um bom eupátrida; e erômenos– aceitar os ensinamentos de seu erasta, reconhecer sua grandeza, não ceder facilmente a seu cortejo e prestar-lhe favores. Entretanto, Michel Foucault afirma que Platão em O Banquete modifica a ordem na relação pederástica através da figura de Sócrates: o mestre é aquele que transforma os papéis, modifica o sentido do jogo, renuncia os afrodisia e passa a ser dos jovens objeto de desejo.

(FOUCAULT, 2003: 211). Não é de fácil percepção que nas últimas páginas de O Banquete os papéis entre amante e amado desempenhados por Sócrates e Alcibíades estão invertidos; todavia, assim como deveriam se comportar os eromenos dignos de sua futura cidadania, Sócrates renuncia às tentações, e por isso mesmo, torna-se mais amado pelos jovens.
Platão utiliza-se do exemplo de Alcibíades para apresentar a seus leitores o modo como um eromeno não deveria se comportar. No entanto, Sócrates aparece como exemplo, ora de um hábil erasta, ora de um bom eromeno.
Ao final da análise desses dois diálogos, infere-se que Platão e Xenofonte tinha grande preocupação em delimitar que relações eram dignas de serem denominadas “amorosas” e qual a conduta daqueles que se diziam amantes e amados. A relação entre Eros e Logos– Amor e Sabedoria – é amplamente compreendida, contribuindo para o esclarecimento de como se davam o convívio amoroso e a pedagogia entre erastas e eromenos. Apesar de se tratar de escritos filosóficos, O Banquete de Platão e Xenofonte servem de base para a compreensão do imaginário aristocrático do período abrangido, e complementam outras fontes, sejam literárias ou artísticas, acerca da pederastia em Atenas, nos período clássico.

Vocabulário:
Eromeno = Era um adolescente do sexo masculino envolvido em uma relação amorosa com um homem adulto.
Erastes = Era um homem aristocrata envolvido em um relacionamento com um adolescente do sexo masculino denominado eromenos.
Panateneias = Eram festas realizadas em homenagem à deusa grega Atena.
Alcibíades = Foi um general e político ateniense. Tendo ficado órfão, foi educado por Péricles, de quem era sobrinho e tornou-se amante de Sócrates.
Pederastia = Prática sexual entre um homem e um rapaz mais jovem.

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