15 de julho de 2015

Jesuítas (Século XVIII)

Num poema cujo tema diz respeito aos jesuítas, Castro Alves instila todo o seu ‘veneno’ contra os sacerdotes da Companhia de Jesus. Chama-os ‘atilas da fé’, equiparando-os ao rei dos hunos, a varrer o mundo, impondo-lhe o cristianismo.
Johann Christoph Handke-O Governo da Igreja Militante
“Ó mês frères, je viens vous apporter mon Dieu,
Je viens vous apporter ma tête! (*)
(Les Châtiments)”

Victor Hugo
Quando o vento da Fé soprava Europa.
Como o tufão que impele ao ar a troça
Das águias, que pousavam no alcantil
˚;
Do zimbório
˚ de Roma – a ventania
O bando dos Apóstolos sacudia
Aos cerros
˚ do Brasil.

Tempos idos! Extintos luzimentos!
O pó da catequese aos quatro ventos
Revoava nos céus...
Floria após na Índia ou na Tartária,
No Mississipi, no Peru, na Arábia
Uma palmeira – Deus!

O navio maltês
˚, do Látio˚ a vela,
A Lusa nau, as quinas de Castela
˚,
Do Holandês a galé
˚
Lavavam sem saber ao mundo inteiro
Os vândalos sublimes do cordeiro,
Os atilas da fé.

Onde ia aquela nau? – Ao Oriente.
A outra? – Ao Polo. A outra? – Ao Ocidente.
Outra? – Ao Norte. Outra? – Ao Sul.
E o que buscava? A foca além do polo;
O âmbar, o cravo no indiano solo.
Mulheres em Istambul.

Ouro – na Austrália; pedras – em Misora
˚!...
“Mentira! respondia em voz canora
O filho de Jesus...
“Pescadores!... nós vamos no mar fundo
Pescar almas para o Cristo em todo mundo,
Com um anzol – a cruz!”

Homens de ferro! Mal na vaga fria
Colombo ou Gama um trilho descobria
Do mar nos escarcéus,
Um padre atravessava os equadores,
Dizendo: “Gênios!... sois os batedores
Da matilha de Deus”.

Depois as solidões surpresas viam
Esses homens inermes, que surgiam
Pela primeira vez.
E a onça recuando se esgueirava
Julgando o crucifixo... alguma clava
Invencível talvez!

O martírio, o deserto, o cardo, o espinho
A pedra, a serpe do sertão manino
˚,
A fome, o frio, a dor,
Os insetos, os rios, as lianas
˚,
Chuvas, miasmas, setas e savanas,
Horror e mais horror...

Nada turbava aquelas frontes calmas,
Nada curvava aquelas grandes almas
Voltadas para amplidão...
No entanto eles só tinham na jornada
Por couraça – a sotaina
˚ esfarrapada...
E uma cruz – por bordão.

Um dia a taba do Tupi selvagem
Tocava alarma... embaixo da folhagem
Rangera estranho pé...
O caboclo da rede ao chão saltava,
A seta ervada o arco recurvava...
Estrugia
˚ o boré˚.

E o tacape brandindo, a tribo fera
De um tigre ou de um jaguar ficava à espera
Com gesto ameaçador...
Surgia então no meio do terreiro
O padre calmo, santo, sobranceiro,
O Piaga
˚ do amor.

Quantas vezes então sobre a fogueira,
Aos estalos sombrios da madeira,
Entre o fumo e a luz...
A voz do mártir murmurava ungida:
“Irmãos! Eu vim trazer-vos – minha vida...
Vim trazer-vos – Jesus!

Grandes homens! Apóstolos heroicos!...
Eles diziam mais do que os estoicos:
“Dor – tu és um prazer!
Grelha – és um leito! Brasa – és uma gema!
Cravo – és um cetro! Chama – um diadema!
Ó morte – és o viver!”

Outras vezes no eterno itinerário
O sol, que vira um dia no Calvário
Do Cristo a santa cruz;
Enfiava de vir achar nos Andes
A mesma cruz, abrindo os braços grandes
Aos índios rubros, nus.

Eram eles que o verbo do Messias
Pregavam desde o vale às serranias,
Do Polo ao Equador...
E o Niágara ia contar aos mares...
E o Chimborazo
˚ arremessava aos ares
O nome do Senhor!...

Castro Alves (1847-1871)
Elucidário:↓ ˚
(*) Ó meus irmãos, trago-vos meu Deus, / Trago-vos minha cabeça! (Os Castigos).
Alcantil – Despenhadeiro.
Zimbório – Parte externa e superior da cúpula de grandes igrejas, como a de São Pedro, em Roma.
Maltês – Originário da Ilha de Malta.
Cerro – Colina pouco elevada, outeiro.
Látio – Referência à Itália.
Castela – Referência à Espanha.
Estrugia - vibrar fortemente.
Galé – Galera; forma de embarcação antiga.
Misora – Cidade e estado da Índia meridional.
Liana – Grande trepadeira, cipoal.
Sotaina - Veste usada pelos padres.
Manino – Estéril, infecundo.
Boré – Trombeta de taquara empregada pelos indígenas em suas danças.
Piaga – Pajé.
Chimborazo – Vulcão atualmente inativo localizado no Equador.

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