30 de julho de 2015

Entreacto

Piero di Cosimo
Não acaba aqui a história.
Isto é só
uma pequena pausa para que descansemos.
A tensão é tão grande,
a emoção que a trama desprende é tão
intensa,
que todos,
bailarinos e atores, acrobatas
e o distinto público,
agradecemos
a trégua convencional do entreacto
¹,
e comprovamos
alegremente que tudo era mentira,
enquanto os músicos afinam os violinos.
Até agora, vimos
várias cenas rápidas que preludiavam a morte,
conhecemos o rosto de certos personagens
e sabemos
algo que inclusivamente muitos deles ignoram:
o móbil
da traição e o nome
de quem a praticou.
Não ocorreu ainda nada de definitivo
mas
o desespero e os intérpretes
tentam evitar o rigor do destino
pondo demasiado calor nos seus exuberantes
ademanes
²,
demasiado colorido nos seus sorrisos
falsos,
com que — é evidente — dissimulam
a sua covardia, o terror
que dirige
os seus movimentos no cenário.
Aqueles
ineficazes e tortuosos diálogos
com referências a ontem, a um tempo
ido,
completam, no entanto,
o panorama esfarrapado que ante nós
se depara, e talvez
então expliquem muitas coisas, sejam
a chave que no final justifique
tudo.
Não esqueçamos também
as palavras de amor junto ao tanque
o gesto demudado, a violência
com que alguém disse:
“não”
olhando o céu,
e a surpresa que produz
o torvo jardineiro quando anuncia:
“chove, senhores, chove
ainda”.
Mas talvez seja cedo para conjecturas:
deixemos
que a tramoia se prepare,
que os que hão de morrer recuperem o alento,
e pensemos,
quando o drama prosseguir e a dor
fingida
se torne verdadeira em nossos corações,
que nada se pode fazer, que está próximo
o fim que tememos de antemão,
que a aventura acabará, sem dúvida,
como deve acabar, como está escrito,
como é inevitável que suceda.

Ángel González (1925-2008)
Tradução: Egito Gonçalves


¹ Discussão, debate.
² Gestos amaneirados; trejeito.

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