3 de maio de 2015

Fragmento de Rei Édipo

Jean-Auguste Dominique Ingres
Ó gerações dos mortais,
como a vossa vida ao nada
se iguala!
Que homem, sim, que homem
da ventura mais possui
do que a aparência de a ter,
e, uma vez tida, de cair no ocaso?
Sim, com o teu exemplo — o teu!…
ó desditoso Édipo, os mortais
em nada vejo afortunados.

Tu, que ao mais alto
apontaste e dominaste
em tudo próspera a riqueza
— ó Zeus! — que derrubaste,
fatídica, a virgem
de recurvas presas e contra a morte
tua muralha nos ergueste!
Desde então meu rei
tu és chamado e as maiores
honras te são dadas,
da poderosa Te as
senhor!

Agora, quem poderá contar maior desdita?
Quem, no sofrimento, quem na ruína cruel
se lhe aproxima na derrocada da vida?
Aí, gloriosa figura de Édipo
a ti, imenso, o mesmo
porto foi bastante
para o filho e o pai
nas núpcias receber.
Como pôde, como pôde o seio fecundado
por teu pai consentir-te,
desditoso, no silêncio até agora?

Descobriu-te, mau grado teu, o tempo que tudo vê;
condena esta união monstruosa, em que há muito
genitor é gerado são um só.
Ai, filho de Laio,
nunca, nunca eu
te conhecesse!
Choro como se um grito
de horrores dos meus lábios
escapasse. E para falar
com justiça, por ti tomei alento,
e por ti, agora, a treva me cobre os olhos!

Sófocles (497-405 a.C.)
Tradução: Agostinho da Silva

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