23 de abril de 2015

O romance de um rapaz pobre

Francois Boucher - Sátiro surpreendendo a ninfa do sono
Chamava-se Pacífico,
Pacífico Ricaport,
de Santa Rita em Pampanga,
no centro de Luzón,

e ainda lhe restava
leve sotaque pampanguense
quando se impacientava
e nos momentos ternos,

precisamente ao recordar,
compadecido de si mesmo,
nos seus anos da capital,
sua infância camponesa,

nas noites de trabalho
— para cá do bem, do mal —
de tantos balcões de bares
da rua de Isaac Peral,

porque era pobre e tão sensível,
e bonito também, o que é pior,
sobretudo nestes países
sem industrialização,

e eram vagos seus recursos
tanto como as suas histórias,
e suas ditas e desditas
e suas chamadas telefónicas.

Quantas noites a suspirar
num local já tão vazio,
veio sentar-se junto a mim
e lhe ofereci um cigarrito.

Nessas horas miseráveis
em que nos fazem companhia
até as nódoas do nosso fato,
conversávamos da vida

e o pobre lamentava-se
do que faziam já com ele:
«Têm-me corrido a pontapés
de tantos quartos de hotel...»

Onde terás ido parar,
Pacífico, meu velho amigo,
hoje três anos mais velho?
Deves ter vinte e cinco.

Jaime Gil de Biedma (1929-990)
Tradução: José Bento

Nenhum comentário: