8 de abril de 2015

Em que pensam os Historiadores?

Auguste Rodin - O Pensador
Em que pensam os historiadores? É a pergunta colocada na obra de Jean Boutier e Dominique Julia. Segundo esses autores, nos últimos anos – mais precisamente desde a década de 1960 – surgiu urgência de uma retomada da reflexão sobre a profissão do historiador, ainda que não lhes fosse esperado que elaborassem complexas arquiteturas teóricas. A aceleração das mudanças nos últimos anos levou certos historiadores a falar de crises, dúvidas, e incertezas – e isso não somente na França.
dentro dessa perspectiva, tais questionamentos foram, provavelmente, resultado de três séries de fenômenos:
1. Primeiramente as rápidas transformações do ensino secundário, tornado ensino de massa. Os historiadores tiveram de lutar para manter a história nos programas diante da invasão das ciências exatas, consideradas mais úteis.
2. Em segundo lugar ocorreu uma separação entre a história acadêmica e a história vulgar, praticada – mediocremente – por amadores. Surge aqui uma crescente demanda por livros destinados ao grande público instruído, e um novo diálogo nasce– entre pesquisa de ponta e o mercado editorial. Tenta-se ocupar o vazio entre o jornalismo histórico e as teses dificilmente acessíveis. “A própria escrita da história sentiu os efeitos dessa abertura” . A terceira e última série de fenômenos foi, sem dúvida, a mais importante: A história é levada a redefinir métodos, objetivos, e problemáticas em face às ciências sociais e humanas. O que fazemos, perguntam-se os historiadores.
A grande questão que permanece então é: Porque certos historiadores insistem em falar de crise em meio a um panorama tão rico e abundante? O que ocorre, segundo Boutier e Julia é uma transformação dos grandes modelos de inteligibilidade que, por muitos anos, foram usados pelos historiadores no exercício de sua profissão. Além disso, trata-se dos desafios impostos por outras disciplinas à história. O próprio estatuto da disciplina é colocado em jogo. A história tornar-se-ia simples gênero literário, perdendo, consequentemente, toda a pretensão de discurso verdadeiro. Uma das fontes do problema está justamente no fato da história tornar-se patrimônio comum. Assim como a pintura e a música de amadores, qualquer um pode fazer história, diferente do que acontece com disciplinas como a antropologia, a biologia ou a matemática. Haja vista tal discussão – que é muito antiga na historiografia, remontando a Bloch – é no método, nas operações técnicas e nos procedimentos que os historiadores vão se apegar para legitimar seu ofício.
Os grandes paradigmas dão lugar então a um arsenal diversificado de instrumentos e de abordagens teóricas tomadas de empréstimo das outras ciências sociais.
Como disciplina, a história não para de reformular seus próprios problemas, pois, afinal, a percepção das realidades humanas que nos cercam também não para de se modificar. O presente não deixa de interrogar o passado, obrigando o historiador a retomar suas pesquisas, reformular questões, e mudar métodos. “Como qualquer outra disciplina científica, a história possui suas dinâmicas internas: ela conhece os entusiasmos e os desânimos dos pesquisadores, as submissões e as rebeldias, ela possui suas enquetes ‘normais’ e suas ‘revoluções científicas’”.
Referência: BOUTIER, Jean e JULIA, Dominique. Passados recompostos: campos e canteiros da história. Rio de Janeiro: UFRJ e Fundação Getúlio Vargas, 1998, pp. 21-53.

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