6 de março de 2015

Soneto LXXXVIII

William-Adolphe Bouguereau
O MÊS de março volta com sua luz escondida
e deslizam peixes imensos pelo céu,
vago vapor terrestre progride sigiloso,
uma por uma caem ao silêncio as coisas.

Por sorte nesta crise de atmosfera errante
reuniste as vidas do mar com as do fogo,
o movimento cinza da nave de inverno,
a forma que o amor imprimiu à guitarra.

Oh amor, rosa molhada por sereias e espumas,
fogo que dança e sobe a invisível escada
e desperta no túnel da insônia ao sangue

para que se consumam as ondas no céu,
esqueça o mar seus bens e leões
e caia o mundo dentro das redes escuras.

Pablo Neruda (1904-1973)

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