29 de março de 2015

A Biblioteca

John Watkins Chapman
Morto, a biblioteca
projeta a sua imagem,
um livro fechado,
para sempre encerrado,
sem novos títulos ou capítulos,
mas com mensagens
a seus discípulos.

Já é outra a biblioteca,
sem vida interior,
na orfandade
de seu amor.

Obras a pouco e pouco coligidas,
gota a gota de amorosa escolha,
a existência toda resumida
em amareladas folhas
e, num instante,
a pena da saudade em cada estante.

Sobre a mesa um volume
com páginas marcadas,
feridas abertas,
sinais de não aproveitadas
descobertas.

Neste livro
com espanto
via-se um dia:
um poema pequenino
por encanto
descobria-se.

Neste outro, de sua lavra,
sentia o peso da palavra:
uma palavra a mais
uma palavra a menos
e outro teria sido o seu destino.

Mas não mais terá a dor
que o atormentava tanto,
remorso do não lido
ou treslido,
sem igual amor.

Madrugadas e noites lidas,
linha a linha,
linhas das palmas da mão
dirigidas para o incerto,
a partir da solidão.

Na sombra se oculta o exército
de cupins, traças e baratas,
roendo indiferentemente
livros de ciência e de filosofia,
de arte e de atas,
rendilhando todo um poema
sem poesia...

– Ar! Luz!
grita o sol vibrando na vidraça
mas é tarde, é muito tarde,
quase noite na biblioteca
que cheira a mofo e naftalina,
não tem cheiro de criança,
não tem cheiro de menina.
Dentro dela sós lembranças.

Passa o tempo e o livro fica
em fila, de pé,
como soldado montando guarda
ao que não é.

A biblioteca remanesce
soberana ao tempo que passa
e tudo que perece,
indiferente ao sol,
aqueça ou não a vidraça.

Chega a noite à biblioteca
e alça igual seu voo
o pássaro de Minerva.

Miguel Reale (1910-2006)

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