2 de fevereiro de 2015

Elogio do Homem

As Riquíssimas Horas do Duque de Berry

Inúmeras são do mundo as maravilhas,
mas nenhuma que ao homem se compare:

é vê-lo sobre as ondas, entre as ilhas,
as águas percorrer do branco mar;
ou é vê-lo, diante da mãe-Terra,
sem pausa revolvê-la com seus potros,
fazendo que dos grãos que a terra encerra
em frutos se desdobrem todos, todos!

Ele, só, captura com seus laços,
ou com redes que faz entrelaçadas,
os pássaros ligeiros dos espaços,
os peixes que se ocultam entre as vagas…
E consegue os cavalos ir domando,
adrede utilizando suas manhas;
ao bicho mais feroz torná-lo manso,
como acontece ao touro das montanhas.

Sob tetos, se abriga da friagem;
sob tetos, das chuvas inclementes…
E vede: o pensamento, a linguagem
sua conquista são exclusivamente.
É o Ser dos recursos infindáveis:
até contra o futuro se faz forte;
e cura-se de males incuráveis…
Aquilo que o detém? Somente a Morte.

Sófocles (497-405 a.C.)
Antígona vv. 332-62
Tradução: David Mourão-Ferreira

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