9 de fevereiro de 2015

Deus sabe que ninguém tem …

Anna Rosina Lisiewska - Alegoria do ouvir
Deus sabe que ninguém tem
instrumento igual ao meu:
venham medi-lo e hão-de ver
o tesouro que El’me deu.
Tomai-o – isso! – na mão:
é meu timbre de valor.
Quem o gosto lhe descobre
sucumbe ao terno ardor.
Tão alto como um pilar
(como um pilar não encolhe)
visto ao longe na distância
de qualquer lado que se olhe.
Venham pegar, e apertá-lo
com força na vossa mão.
E levai-o à vossa tenda,
entre onde os montes estão.
Sêde vós a lá guardá-lo
com vossa mão cuidadosa
Vêde quanto ergue a cabeça
como bandeira orgulhosa!
Nem dareis pela entrada,
tão corajoso ele avança!
Jamais pende como a vela
quando o vento se descansa.
Que el’ seja asa da panela
entre as pernas escondida,
tão vazia desde o fundo
até à borda cingida.
Venham ver a maravilha
que logo se ergue tão pronta!
Tão rara e tão portentosa,
tão rica de bens sem conta!
E vejam como endurece
tão forte e tão magistral:
É coluna dura e longa
de uma força sem igual.
Se quereis pega segura,
ou colher que bem remexa,
outra melhor não tereis
para panelas sem queixa.
Pegai nesta – que ela esteja
na vossa panela ardente,
lá onde só um instrumento
haverá que vos contente!
Nem sonhais – amores – o gosto
que vos dará tal espada,
mesmo em panela de cobre
ou de prata chapeada.

Abū Nuwās (756-814)
Tradução: Jorge de Sena

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