27 de janeiro de 2015

Tempo e Olfato

Rudolf Ernst
Que me quer este perfume?
Nem sequer lhe sei o nome.
Sei que me invade a narina
como incenso de novena.
Que me passeia no corpo
como os dedos tangem harpa.

E me devolve ao pretérito
e a um ser de lava, quimérico,
ser que todo se esvaía
pela porta dos sentidos,
e do mundo em que saltava,
qual dum espelho lascivo,
retirava a própria imagem
na pura graça da origem...

Cheiro de boca? de casa?
de maresia? de rosa?
Todo o universo: hipocampo
no mar celeste do Tempo.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Nenhum comentário: