28 de janeiro de 2015

Poema XXXIII

Caesar Boëtius van Everdingen - Nymphs Offering Bacchus Wine and Fruit
A noite passada
à hora em que a Ursa,
mais perto discursa
da mão do Boieiro,
e o sono profundo
no grémio fagueiro
por todo esse mundo
restaura os mortais,
em meio era a noite;
o exemplo dos mais
no leito eu seguia;
sereno dormia…
À porta imprevisto
Cupido me bate!
À pressa me visto;
redobra o rebate;
acudo a correr.
“Sou eu — diz de fora —
não tens que temer;
sou um pequenino
que vaga, a tal hora,
molhado e sem tino,
perdido no escuro,
pois lua não há!”
Ouvi-lo gemendo
de mágoa me corta;
a lâmpada acendo,
franqueio-lhe a porta…
em casa me está!
Descubro (em verdade mentido não tinha)
gentil criancinha
com arco e carcaz.
Remexo nas brasas
da minha lareira;
restauro a fogueira;
as mãos, que são gelo,
lhe aqueço nas minhas,
lhe espremo o cabelo,
lhe enxugo as azinhas;
já frio não faz.
— “Vejamos se a chuva
(dizia e sorria)
a corda do arco
me não danaria!”
Levanta-o do chão;
recurva-o, dispara
no meu coração.
A frecha que o vara
parece um tavão.
Eu, dores danadas,
e o doudo às risadas
de gosto a pular!
— “Meu caro hospedeiro,
(me diz prazenteiro)
agora é folgar.
Permite me ausente;
meu arco está são…
Quem fica doente
é teu coração!”
Anacreonte (563-478 a.C.)
Tradução: António Feliciano de Castilho

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