29 de janeiro de 2015

Num vergel mui deleitoso

William-Adolphe Bouguereau
Num vergel¹ mui deleitoso
entrei por minha ventura,
onde achei toda a doçura
e prazer muito gostoso;
a entrada foi escura
e causado por natura,
de morar mui perigoso.

Em muito espessa montanha
este vergel foi plantado,
por toda a parte cercado
por ribeira muito estranha:
quem alguma vez se banha
em sua fonte perenal
²,
pelo curso natural,
tanta doçura o engana.

Maçãs e muitas romãs
o cercam por toda a parte;
não há homem que se farte
de suas frutas temporãs;
mas, amigos, não são sãs
para quem delas muito usa,
pois gozando-as não se escusa
a que não faltem maçãs.

Calhandras
³ e ruisenhores*
nele cantam noite e dia,
fazendo alta melodia
além variações multicolores;
e outras aves melhores
papagaios, filomelas;
cantam sereias serenas
que fazem dormir de amores.

A entrada do vergel
a mim foi sempre defesa,
mas, amigos, não me pesa
por bem saber o que há nele;
é mais doce do que o mel
o orvalho que dele mana,
que toda a tristeza sana
o prazer que mana dele.
Frei Diego de Valência (1350-1412)
Tradução: José Bento

1. Vergel = pomar
2. Perenal = Perpétuo, Eterno.
3. Calhandras = nome comum dado a certas aves europeias.
* Ruisenhores = o mesmo que rouxinol.

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