31 de dezembro de 2014

Todos os dias

Nicholas Roerich
Todos os dias nascem pequeninas nuvens,
róseas umas, aniladas outras,
nacaradas espumas...
Todos os dias nascem rosas,
também róseas ou cor de chá,
de veludo...
Todos os dias nascem violetas,
as eleitas dos pobres corações...
Todos os dias nascem risos, canções...
Todos os dias os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs...
Todos os dias nascem novos dias,
nascem novas manhãs...

Saúl Dias (1902-1983)

O homem que outrora fui

Edmund Dulac
O homem que outrora fui, o mesmo ainda serei:
leviano, ardente. Em vão, amigos meus, eu sei,
de mim se espere que eu possa contemplar o belo
sem um tremor secreto, um ansioso anelo.
O amor não me traiu ou torturou bastante?
Nas citereias redes qual falcão aflante
não me debati já, tantas vezes cativo?
Relapso, porém, a tudo eu sobrevivo,
e à nova estátua trago a mesma antiga oferenda...

Alexander Pushkin (1799-1837)
Tradução: Jorge de Sena.

30 de dezembro de 2014

A Era do Eixo

Donato Bramante - Heráclito chorando e Demócrito rindo.
A Era do Eixo é um termo cunhado pelo filósofo alemão Karl Jaspers (1883-1969) para descrever o período de 800-200 a.C., mais concretamente durante o primeiro milénio antes de Cristo, durante o qual, houve uma transformação essencial na consciência humana em áreas geográficas distantes e aparentemente sem interferência: índia, China, Pérsia, Grécia.
China
Índia
Pérsia
Grécia
Confúcio
Sidarta Gautama
Ciro
Sócrates
(551-478 aC.)
(560-480 aC.)
(558-528 aC.)
(470-399 aC.)
O homem passou de uma consciência predominantemente cósmica a uma consciência reflexiva, de uma consciência submersa no grupo e na coletividade a uma consciência de identidade individual e pessoal. Foi também nesse quadro que emergiu uma decisiva transformação religiosa, com a necessidade e a procura da salvação pessoal, com o aparecimento das religiões universais e uma mudança na concepção do divino, com três orientações fundamentais:
o monismo
¹,
o monoteísmo,
a exigência crítica racional na sua representação.
É dessas correntes que ainda hoje vivemos. Estas bases foram estabelecidas por pensadores individuais dentro de um quadro de um ambiente de mudança social.
As mudanças incluem a ascensão do platonismo, que mais tarde se tornaria uma grande influência sobre o mundo ocidental, tanto através do cristianismo e do pensamento secular ao longo da Idade Média e no Renascimento.
O Budismo, também da tradição da Índia, foi outra das filosofias mais influentes do mundo, fundada por Sidarta Gautama, ou Buda, que viveu durante este período.
Na China, o confucionismo surgiu durante esta época, onde permanece sendo uma profunda influência sobre a vida social e religiosa.
O Zoroastrismo é crucial para o desenvolvimento do monoteísmo, que na verdade surge com a unificação de Ciro, o Grande da Pérsia.
Jaspers também incluiu os autores dos Upanishads, Lao Tzu, Homero, Sócrates, Parmênides, Heráclito, Tucídides, Arquimedes, Elias, Isaías, Jeremias como figuras dessa era.
Sócrates, Confúcio e Sidarta Gautama foram especialmente elevados.
Além de Jaspers, o filósofo Eric Voegelin se referiu a esta idade, como O Grande Salto do Ser, constituindo um novo despertar espiritual e uma mudança de percepção da sociedade para os valores individuais.
Características da Era do Eixo:
deu à luz a filosofia como uma disciplina.
uma pausa para a liberdade,
✓ uma respiração profunda trazendo a consciência mais lúcida.
A historiadora religiosa Karen Armstrong explora o período de grandes transformações e formação de teorias como foco de suas conferências acadêmicas, argumenta que o Iluminismo foi uma "Segunda Era do Eixo", incluindo pensadores como Isaac Newton, Sigmund Freud e Albert Einstein, e que a religião hoje precisa voltar para as ideias transformadoras do eixo.

¹ Monismo = Sistema que pretende reduzir o Universo a um único domínio, o da substância cujos atributos inseparáveis são a matéria e a energia. Na linguagem informal, significa ter uma visão única e definí-la como completa para alguma coisa.

29 de dezembro de 2014

Gaivotas

Susan Stallman
Não sei onde as gaivotas fazem ninho,
onde encontram a paz.
Sou como elas,
em perpétuo voo.
Raso a vida
como elas rasam a água
em busca de alimento.
E amo, talvez como elas, o sossego,
o grande sossego marinho,
mas o meu destino é viver
faiscando na tempestade.

Vincenzo Cardarelli (1887-1959)
Tradução: Albano Martins

Reflexão

John William Waterhouse - A bola de cristal
“Ah! Zeus! Por que deu às criaturas humanas recursos para conhecer se o ouro é falso, e não depositou no corpo dos homens marcas que nos deixassem distinguir os bons dos maus?”
Eurípedes (480-406 a.C.)

Soneto XLIII

Alphonse Mucha
Um sinal teu busco em todas as outras,
no brusco, ondulante rio das mulheres,
tranças, olhos apenas submergidos,
pés claros que resvalam navegando na espuma.

De repente me parece que diviso tuas unhas
oblongas, fugitivas, sobrinhas de uma cerejeira,
e outra vez é teu pelo que passa e me parece
ver arder na água teu retrato de fogueira.

Olhei, mas nenhuma levava teu latejo,
tua luz, a greda escura que trouxeste do bosque,
nenhuma teve tuas mínimas orelhas.
Tu és total e breve, de todas és uma,
e assim contigo vou percorrendo e amando
um amplo Mississipi de estuário feminino.

Pablo Neruda (1904-1973)
Tradução: Carlos Nejar

28 de dezembro de 2014

Meu coração canta

Edgar Maxence
Meu coração faz cantar esta noite
os anjos que se rememoram…
Uma voz, tão próxima da minha,
por tanto silêncio tentada,

ascende e decide
nunca mais voltar;
terna e ousada,
a quem se vai ela juntar?

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Zetho Cunha Gonçalves

A Tempestade

Joseph Mallord William
Na escuridão,
abria cada flor a sua boca
aos úberes da chuva fecunda.

Carregados de água,
os exércitos das negras nuvens,
majestosamente,
desfilavam, armados
com os dourados sabres dos relâmpagos.

Ibn Suhayd (992 -1035)
Poeta hispano-árabe de linhagem aristocrática. Nasceu e morreu em Córdoba durante a ocupação árabe na Península Ibérica.
Tradução: do árabe para o espanhol por Emilio Garcia Gómez, e do espanhol para o português por Fernando Couto.

27 de dezembro de 2014

Soneto

Abraham Bloemaert
Já lá vão sete lustros, que este monte
Berço me foi: Já da vital jornada
Mais de meia carreira está passada;
E cedo iremos ver outro horizonte:

A mão já treme, já se enruga a fronte,
Já branqueja a cabeça, e com a pesada
Considração da vida mal gastada,
Vai-se apagando a luz, secando a fonte.

Pouco nos resta, que passar já agora;
E para as derradeiras agonias
De tantos anos, aproveite hum’hora.

Esperanças, temores, vãs porfias,
Paixões, desejos, ide-vos embora;
Favor, que me fareis por poucos dias.

João Xavier de Matos (1730-1789)


O poema refere-se ao envelhecimento, a dureza que é envelhecer.
Tanto o poema como a imagem mostra um ser esgotado pelo tempo.
Foi escrito no século XVIII quando o português era bem arcaico.


A Flor e a Fonte

William-Adolphe Bouguereau
Deixa-me, fonte! Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.

Deixa-me, deixa-me, fonte!
Dizia a flor a chorar:
Eu fui nascida no monte...
Não me leves para o mar.

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

Ai, balanços do meu galho,
Balanços do berço meu;
Ai, claras gotas de orvalho
Caídas do azul do céu!...

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

Adeus, sombra das ramadas,
Cantigas do rouxinol;
Ai, festa das madrugadas,
Doçuras do pôr do sol;

Carícia das brisas leves
Que abrem rasgões de luar...
Fonte, fonte, não me leves,
Não me leves para o mar!...
Vicente de Carvalho (1866-1924)

26 de dezembro de 2014

Ovídio

Três Poetas Canônicos da Literatura Latina:
  1. Virgílio (70-19 a.C.)
  2. Horácio (65-8 a.C.)
  3. Ovídio (43 a.C.-17)
1. Virgílio (70-19 a.C.)
Tem três obras básicas:
Bucólicas, dez églogas em que descreve a natureza como refúgio de paz e sossego;
Geórgicas, poema didático em quatro partes (agricultura, árvores frutíferas, rebanhos e abelhas); e
Eneida, poema épico inspirado em Homero, no qual apresenta o imperador Augusto como descendente de Enéias, herói da Guerra de Tróia.

2. Horácio (65-8 a.C.)
É o poeta da reflexão. Escreveu:
Sátiras,
Odes e
Epístolas. Predominam o equilíbrio e a harmonia de suas imagens. Em seus últimos anos de vida preferiu as epístolas, nas quais tratou de assuntos morais e literários.

3. Ovídio (43 a.C.-17)
Na obra do mais jovem poeta da época de Augusto destacam-se:
A Arte de Amar e
Metamorfoses, em que relata as transformações míticas de deuses, homens e heróis. Seu estilo é fácil, elegante e harmonioso.

Ovídio foi condenado ao exílio por motivação política pelo imperador Augusto, onde permaneceu até sua morte.
Exílio terrível foi o de Ovídio. O maior poeta da língua latina passou os últimos anos de vida confinado numa das mais remotas províncias do vasto império romano, longe da mulher e dos amigos. Por motivos desconhecidos, o imperador Augusto condenou-o a viver o resto de seus dias em Tomis, nos confins do Mar Negro, onde Roma terminava e começava a barbárie.
Tudo era selvagem naquele canto deserto do mundo. A água de beber era salobra, não havia pomares, nem vinhedos, nem árvores de folhas verdes – apenas estepes nuas, sem vida, cobertas até o horizonte por uma macega raquítica. O frio era terrível; o solo ficava congelado a maior parte do ano, e o gélido vento do norte vinha derrubar as telhas das moradias. O vinho solidificava e tinha de ser cortado em blocos com uma machadinha. O mar às vezes congelava; os golfinhos deixavam de saltar e peixes vivos podiam ser encontrados em blocos de gelo.
A população provinha de tribos rudes, de nomes vários e impronunciáveis. Vestiam-se como mendigos, tapados de peles até a cabeça, armados de porretes ou arco-e-flecha. O cabelo descia-lhes até o peito e jamais aparavam a barba. Alguns falavam um grego arrevesado, mas Ovídio não encontrou quem conhecesse as palavras mais simples do Latim. Tinham a voz áspera e o olhar truculento, e por quase nada viviam se apunhalando uns aos outros. Como se não bastasse, havia as tribos inimigas: no inverno, quando o rio Danúbio congelava, guerreiros a cavalo caíam sobre as aldeias indefesas como bandos de aves de rapina. Esses sinistros predadores rondavam incessantemente os muros baixos da cidade, tornando os telhados das casas verdadeiros agulheiros de flechas envenenadas.
Ovídio, que aos poucos tinha perdido a esperança de voltar a Roma, expressou em seus poemas toda a tristeza que sentia. Quando ficou doente, lamentou não ter alguém a seu lado para consolá-lo ou ajudá-lo a suportar o sofrimento; antes de morrer, passou-lhe pela mente a ideia terrível de que ia ser enterrado lá mesmo, naquela solidão, ficando seu espírito condenado a vagar para sempre naquela terra tão inóspita.
Abaixo os concelhos de Ovídio que, no fragmento de Arte de Amar, mostra já saber da existência do ponto G, expectativa e angústia do seu fruir nos nossos dias.
Louis-Jean-François Lagrenée
Acredita no que te digo:
não deve apressar-se o prazer de Vênus,
mas sim, discretamente,
fazer por retardá-lo e demorá-lo.
Quando descobrires o ponto
onde a mulher se excita ao ser tocada,
não seja o pudor a impedir-te de o tocar;
verás os seus olhos a brilhar de fogo cintilante,
como tantas vezes o sol reflete
a luz na superfície da água;
far-se-ão ouvir queixumes,
far-se-á ouvir um encantador sussurro
e doces gemidos e palavras apropriadas ao prazer.
Mas não deixes para trás a tua parceira,
desfraldando mais largas velas,
nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu;
avançai para a meta ao mesmo tempo;
então, será pleno o prazer,
quando par a par, jazerem,
vencidos, a mulher e o homem.

Ovídio (43 a.C.-17)
Tradução: Carlos Ascensões André

Tarde de Amores

Pierre Auguste Renoir – Almoço de domingo à beira do rio Sena
Era intenso o calor. Do meio-dia passava.
Deitei-me sobre a cama a ver se repousava…
Na cerrada janela apenas uma fresta
permitia filtrar-se uma luz de floresta;
ou, antes, uma luz que mais parecia irmã
da que antecede a noite ou precede a manhã…
É a luz que convém à jovem reservada,
para que em seu pudor não fique perturbada.

Eis que chega Corina, a túnica cingida,
sobre o pescoço branco uma trança caída…
(Semirámis? Laís? Dir-se-ia uma delas…
Só pode comparar-se às que foram mais belas!)
A túnica lhe arranco, embora de tão leve
nem sequer me constranja o tecido que a veste.
Tenta ainda lutar a fim de se cobrir,
mas o que mais deseja é deixar-se despir…
E quando fica, enfim, de pé, sem nenhum véu,
nem um defeito só vejo no corpo seu!
Oh, que ombros divinais! Oh, que braços divinos!
Que ventre tão perfeito! E que peitos erguidos!
Coxas tão juvenis! Ancas? Bem mais maduras…
Pra quê enumerar, se toda é formosura?
E aperto-a contra mim… Que sucedeu depois?
Fatigados, por fim, repousamos os dois…

Que sempre se repita, em todos os meus dias,
um meio-dia igual a este meio-dia!

Públio Ovídio Naso (43 a.C.-17)
Tradução: David Mourão-Ferreira

25 de dezembro de 2014

Revisitado

Paul Gauguin
Quem disse que o Natal é só mercado?
Por trás do panetone ou da castanha
está um publicitário, uma campanha,
o lucro, as estatísticas, o Estado.

É certo. Mas o espírito arraigado
mais dura que o presente que se ganha,
mais lembra que um peru, que uma champanha
a alguém com mais futuro que passado.

Pois ela, a criancinha, é quem segura
o tempo, em seu efêmero momento,
salvando algo de júbilo ou ternura.

Esqueça-se o comércio! Ainda tento
rever cada Natal, cada gravura
em meio a tanto adulto rabugento...

Glauco Mattoso

24 de dezembro de 2014

"Teúdas e Manteúdas" no Brasil Império

[...] até o período em que se deu a Independência, vivia-se na América portuguesa num cenário com algumas características invariáveis: a família patriarcal era o padrão dominante entre as elites agrárias, enquanto, nas camadas populares rurais e urbanas, os concubinatos, uniões informais e não legalizadas e os filhos ilegítimos eram a marca registrada. A importância das cidades variava de acordo com sua função econômica, política, administrativa e cultural. Alguns números ilustram os contingentes demográficos: São Paulo contava com cerca de 20 mil habitantes, Recife, com 30 mil, Salvador, com 100 mil, e o Rio de Janeiro, graças à vinda de portugueses seguindo d. João VI em seu exílio tropical, era a única a contar com mais de 100 mil residentes. A população urbana, contudo, crescia, alimentando uma forte migração interna (campo-cidade) e externa (tráfico negreiro). Apesar dos problemas de abastecimento, higiene e habitação, as cidades atraíam pela enorme oportunidade que ofereciam de mobilidade social e econômica.
Almeida Junior - Depois da festa
Com todas essas transformações, é bom não perder de vista que, de acordo com vários viajantes estrangeiros que aqui estiveram na primeira metade do século XIX (Saint-Hilaire, Tollenare, Debret, Rugendas, Koster, Luccock, Maria Graham), a paisagem urbana brasileira ainda era bem modesta. Com exceção da capital, Rio de Janeiro, e de alguns centros onde a agricultura exportadora e o ouro tinham deixado marcas – caso de Salvador, São Luís e Ouro Preto -, a maior parte das vilas e cidades não passava de pequenos burgos isolados com casario baixo e discreto, como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.
Mesmo na chamada corte, o Rio de Janeiro, as mudanças eram mais de forma do que de fundo. A requintada presença da Missão Francesa pode ter deixado marcas na pintura, ornamentação e arquitetura. Mas as notícias dos jornais Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822) e Idade de ouro do Brasil (1811-1823), órgãos da imprensa oficial, ou mesmo a inauguração do Real Teatro de São João, onde se exibiam companhias estrangeiras e onde soltavam seus trinados artistas como a graciosa Baratinha ou as madames Sabini e Toussaint, não eram suficientes para quebrar a monotonia intelectual. Além do popular entrudo e dos saraus familiares, o evento social mais importante continuava a ser a missa dominical.
Os viajantes que por aqui passaram na primeira metade do século XIX concordavam num ponto: "a moralidade reinante no Rio de Janeiro se apresenta bem precária", como dizia o mineralogista inglês Alexander Caldcleugh. Já o francês Freycinet queixava-se dos vícios de libertinagem. Afinal, tratava-se de um país onde "não e difícil encontrar-se todo tipo de excessos". E seu conterrâneo Arago cravava: "o Rio era uma cidade onde os vícios da Europa abundavam". Eles tomavam como vícios os concubinatos e adultérios, correntes sobretudo nas camadas mais pobres da população, em que se multiplicavam as "teúdas e manteúdas". Para a chamada "poligamia tropical" não faltaram explicações associadas ao clima quente, como a dada por J. K. Tuckey:
"Entre as mulheres do Brasil, bem como as de outros países de zona tórrida, não há intervalo entre os períodos de perfeição e decadência; como os delicados frutos do solo, o poderoso calor do sol amadurece-as prematuramente e, após um florescimento rápido, deixam-nas apodrecer; aos quatorze anos tornam-se mães, aos dezesseis desabrochou toda a sua beleza, e, aos vinte, estão murchas como as rosas desfolhadas no outono. Assim a vida das três destas filhas do sol difere muito da de uma europeia; naquela, o período de perfeição precede muito o de perfeição mental, e nesta, uma perfeição acompanha a outra. Sem dúvida, esses princípios influenciam os legisladores do Oriente em sua permissão da poligamia; pois na zona tórrida, se o homem ficar circunscrito a uma mulher precisará passar quase dois terços de seus dias unido a uma múmia repugnante e inútil para a sociedade, a não ser que a depravação da natureza humana, ligada à irritação das paixões insatisfeitas os conduzisse a livrar-se do empecilho por meios clandestinos. Essa limitação a uma única mulher, nas povoações europeias da Ásia e das Américas, é uma das principais causas de licenciosidade ilimitada dos homens e do espírito intrigante das mulheres. No Brasil, as relações sexuais licenciosas talvez igualem o que sabemos que predominou no período mais degenerado do Império Romano".
Almeida Junior - Depois do banho
Outra explicação, dessa vez dada pelo conde de Suzanet, em 1825, afirmava que as mulheres brasileiras gozavam de menos privilégio do que as do Oriente. Casavam-se cedo, logo se transformando pelos primeiros partos, perdendo assim os poucos atrativos que podiam ter tido. Os maridos apressavam-se em substituí-las por escravas negras ou mulatas. "O casamento é apenas um jogo de interesses. Causa espanto ver uma moça, ainda jovem, rodeada de oito ou dez crianças; uma ou duas, apenas, são dela, outras são do marido; os filhos naturais são em grande número e recebem a mesma educação dos legítimos. A imoralidade dos brasileiros é favorecida pela escravidão e o casamento é repelido pela maioria, como um laço incômodo e um encargo inútil. Disseram-me que há distritos inteiros em que só se encontram dois ou três lares constituídos. O resto dos habitantes vive em concubinato com mulheres brancas ou mulatas".“Nascer do outro lado dos lençóis" era o eufemismo empregado para designar bastardia. E não foram poucas as famílias assim constituídas. João Simões Lopes, o visconde da Graça, estancieiro, comerciante e chefe do partido conservador em Rio Grande, tinha uma vida nada convencional na segunda metade do século XIX. Casado, mantinha na mesma rua em que morava, três casas abaixo, sua amante. Quando sua esposa deu à luz um filho, quase na mesma semana nascia-lhe outra da "teúda e manteúda" Vicência Ferreira Lira. Teve, com cada uma delas, dez filhos, sendo pai de doze de um primeiro casamento do qual ficou viúvo. O arranjo não causava discórdia. Nas missas de domingo, a legítima esposa ficava de um lado da igreja e a concubina, do outro. Todos muito devotos!”.
Mary Del Priore
Historiadora

23 de dezembro de 2014

Haikai

Eliseu Visconti
“És ou não és
o sonho que esqueci
antes da aurora ?”

Jorge Luis Borges (1899-1986)

A Dança

Paul Gauguin
“A Dança é, na minha opinião, muito mais do que um exercício, um divertimento, um ornamento, um passatempo social; na verdade, é uma coisa até séria e, sob certo aspecto, mesmo, uma coisa sagrada. Cada era que compreendeu a importância do corpo humano, ou que, pelo menos, teve a noção sensorial de sua estrutura, de seus requisitos, de suas limitações e da combinação de genialidade que lhe são inerentes, cultivou, venerou a Dança”.
Paul Valéry (1871-1945)

22 de dezembro de 2014

Libelo

Marc Chagall
Não mais trarei justificações
Aos olhos do mundo.
Serei incluído - pormenor esboçado -
Na grande Bruma.
Não serei batizado,
Não estarei doutorado,
Não serei domesticado
Pelos rebanhos
Da terra.
Morrerei inocente
Sem nunca ter
Descoberto
O que há de bem e mal
De falso ou certo
No que vi.

Roberto Piva

Amor, Felicidade

Oleg Tchoubakov
Infeliz de quem passa pelo mundo
procurando no amor felicidade:
a mais linda ilusão dura um segundo,
e dura a vida inteira uma saudade.

Taça repleta, o amor, no mais profundo
íntimo, esconde a joia da verdade:
só depois de vazia mostra o fundo,
só depois de embriagar a mocidade...

Ah! quanto namorado descontente,
escutando a palavra confidente
que o coração murmura e a voz não diz,

percebe que, afinal, por seu pecado,
tanto lhe falta para ser amado,
quanto lhe basta para ser feliz!

Guilherme de Almeida (1860-1969)

21 de dezembro de 2014

Palavra a um General

Franz Xaver Wolf
O vosso tanque, General, esmaga cem homens
Mas tem um defeito:
- Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, General
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito:
- Precisa de um piloto.

O homem, General, é muito útil
Sabe voar e sabe matar
Mas tem um defeito:
- Sabe pensar.

Bertolt Brecht(1898-1956)

Como era Bom

Paul Signac (1863-1935)
O tempo em que Marx explicava
que tudo era luta de classes
como era simples

O tempo em que Freud explicava
que édipo tudo explicava
tudo clarinho limpinho explicadinho
tudo muito mais asséptico
do que era quando nasci.

Hoje rodado sambado pirado
descobri que é preciso aprender
a nascer todo dia.

Chacal
(pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, poeta do Rio de Janeiro)

20 de dezembro de 2014

Ao Anoitecer

Alfred Gockel
E ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia.

Al Berto (1948-1997)

Trecho do livro n "Morte em Veneza"

Alphonse Mucha
“Não existe nada mais estranho e espinhoso do que a relação entre pessoas que só se conhecem de vista - que diariamente, mesmo hora a hora, se encontram, se observam e que têm assim de manter, sem cumprimentos e sem palavras, a aparência de desconhecimento indiferente, devido ao rigor dos costumes ou a caprichos pessoais. Entre elas existe inquietação e curiosidade exacerbada, a histeria da necessidade insatisfeita, anormalmente recalcada, de conhecimento e comunicação e, sobretudo também uma forma de consideração tensa. Pois o ser humano ama e respeita o outro ser humano enquanto não está em posição de julgá-lo e o desejo é produto de um conhecimento insuficiente”.
Thomas Mann (1875-1955),
Tradução: Maria Deling

19 de dezembro de 2014

Quem eu sou?

Edmund Dulac
“Não me pergunte quem sou
e não me diga para permanecer o mesmo:
é uma moral de estado civil;
ela rege nossos papéis.
Que ela nos deixe livres
quando se trata de escrever”.

Michel Foucault (1926-1984)

Somos algo e não tudo ...

Frederic Edwin Church
“Somos algo e não tudo; o que temos que ser priva-nos do conhecimento dos primeiros princípios que nascem do nada; e o pouco que somos nos impede a visão do infinito. Nossa inteligência, entre as coisas inteligíveis, ocupa o mesmo lugar que o nosso corpo na magnitude da natureza.
Limitados em tudo, esse termo médio entre dois extremos encontra-se em todas as nossas forças. Nossos sentidos não percebem os extremos: um ruído demasiado forte nos ensurdece, demasiada luz nos deslumbra, demasiada distância ou demasiada proximidade impede-nos de ver, demasiada longitude ou demasiada concisão do discurso o obscurece, demasiada verdade nos assombrosa (sei de alguém que não pode compreender que quem de zero tira quatro fica zero); os primeiros princípios tem demasiada evidência para nós outros, demasiado prazer incomoda, demasiada consonância aborrece na música, e demasiado benefício irrita, pois queremos ter com que pagar a dívida.
Eis o nosso estado verdadeiro; é o que nos torna incapazes de saber com segurança e de ignorar totalmente”.
Blaise Pascal (1623-1662)

18 de dezembro de 2014

Soneto do amor como um rio

Edmund Blair Leighton
Este infinito amor de um ano faz
Que é maior que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno, interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

Vinícius de Moraes
(1913-1980)

A Fronteira entre a Juventude e a Velhice

Jules Bastien-Lepage
“Creio que se pode traçar uma fronteira muito precisa entre a juventude e a velhice. A juventude acaba quando termina o egoísmo, a velhice começa com a vida para os outros. Ou seja: os jovens têm muito prazer e muita dor com as suas vidas, porque eles a vivem só para eles. Por isso todos os desejos e quedas são importantes, todas as alegrias e dores são vividas plenamente, e alguns, quando não veem os seus desejos cumpridos, desperdiçam toda uma vida. Isso é a juventude. Mas para a maior parte das pessoas vem o tempo em que tudo se modifica, em que vivem mais para os outros, não por virtude, mas porque é assim. A maior parte constitui família. Pensa-se menos em nós próprios e nos nossos desejos quando se tem filhos. Outros perdem o egoísmo num escritório, na política, na arte ou na ciência. A juventude quer brincar, os adultos trabalhar”.
Hermann Hesse (1877-1962)
em "Gertrud"