30 de novembro de 2014

Caminho Interior

Duy Huynh
“Quem descobre o caminho interior,
quem na mais fervorosa introspecção
vislumbra o cerne da sabedoria,
passa a sentir Deus e o mundo
à sua imagem e semelhança:
para ele, cada ação ou pensamento
será um diálogo com a própria alma,
que a Deus e ao mundo em si mesma contém”.

Hermann Hesse (1877-1962)

Recusa

Laurent de La Hyre
Agrada-me bem mais
olhar estrelas
do que assinar sentenças
de morte.

Agrada-me bem mais
ouvir a voz das flores
que, murmurando é ele
meneiam as corolas
quando eu cruzo o jardim
do que ver os escuros
fuzis da guarda
matarem quantos querem
matar-me –

por isso eu não serei
– jamais – um governante.

Vielimir Khlébnikov (1885-1922)
Tradução: Augusto de Campos

29 de novembro de 2014

A um amigo cuja obra deu em nada

Pieter Codde
Agora que se sabe toda a verdade,
Seja reservado e aceite a derrota
Enunciada por qualquer insolente garganta,
Pois como pode você competir,
Sendo instruído na honra, com alguém
Que, a despeito da prova de sua mentira,
Não sentiria vergonha nem aos seus olhos
Tampouco aos olhos dos vizinhos?
Habilitado para tarefas mais árduas
Que o Triunfo, afaste-se,
E qual corda prazenteira
Tangida por desatinados dedos
Em meio a um lugar de pedra,
Seja comedido e exulte,
Porque de todas as coisas conhecidas
Essa é a mais difícil.

William Butler Yeats (1865 -1939)

Chromo

José Marques Campão
Amanhecera. O tropeiro
Passa, cantando na estrada;
No seu casebre o roceiro
Prepara as foices e a enxada.

Ao rumor a luz casada
Enche de vida o terreiro;
Parecem bruma cerrada
As flores, lá! do espinheiro…

Aspira-se o olor suave
Do bom café… Alto e grave
Bate o pilão nas cozinhas.

Há junto à horta uns barrancos
Onde a mulher de tamancos,
Distribui milho às galinhas.

Bernardino Lopes (1859-1916)

28 de novembro de 2014

Vivemos sem sentir

Samy Charnine
Vivemos sem sentir a Rússia embaixo,
não se ouvem nossas vozes a dez passos.
Mas onde houver meia conversa – sempre
se há de lembrar o montanhês do Kremlin.
Seus grossos dedos são vermes obesos;
e as palavras – precisas como pesos.
Sorri – largos bigodes de barata;
e as longas botas brilham engraxadas.
Rodeiam-no cascudos mandachuvas;
seu jogo: os meio-homens que subjuga.
Um assobia, um rosna, um outro mia,
só ele é quem açoita, quem atiça.
E prega-lhes decretos-ferraduras
na testa ou no olho, na virilha ou nuca.
Degusta execuções como quem prova
uma framboesa, o osseta de amplo tórax.

Ossip Mandelstam (1891-1938)

Este poema foi a causa principal da prisão de Ossip Mandelstam em 1934, o início de um calvário, que incluiria residência forçada em Vorôniej durante três anos, em condições de miséria, cerca de um ano em liberdade, mas sem poder residir em Moscou, nova prisão e permanência num campo de trabalho na Sibéria, onde morreu.
Depois de elaborado o poema, ele foi lido a alguns amigos – o suficiente para causar a perdição de seu autor.

Mim

Agnes-Cecile
O tempo transcorre em mim
Celeremente. Tão afoito que finda.
Acho que sei, afinal, a que vim.
E já me vou. Uma pena.
Não há tempo mais pra mim.
Volto à silente matéria cósmica
Que em mim, um dia, se organizou
Para me ser. Uma vez, uma vez somente.

Darcy Ribeiro (1922-1997)

Sobre a Fé

Jacques Alice Wagrez
“Os cristãos creem que sua fé faz bem, mas outras fés fazem mal. De todo modo, pensam isso sobre a fé comunista. O que eu afirmo é que todas as fés fazem mal. Podemos definir a 'fé' como uma firme crença em algo para o qual não há prova. Quando não há prova, fala-se de 'fé'. Não falamos de ter fé de que dois mais dois sejam quatro ou de que a terra seja redonda. Falamos de fé somente quando queremos substituir a evidência pela emoção”.
Bertrand Russell (1872-1970)

27 de novembro de 2014

Sua Ansiedade

Gustave Courbet
A terra revestida em beleza
Aguarda o retorno da primavera.
Todo amor verdadeiro há de morrer,
Converter-se no melhor
Por meio de algo menor.
Provem que minto.

Os amantes têm esse corpo,
Essa exigente respiração,
Que eles tocam ou suspiram.
A cada toque que eles dão,
O amor se aproxima da morte.
Provem que minto.

William Butler Yeats (1865 -1939)
Tradução: J. A. Rodrigues

Infinito

Georgina de Albuquerque
Um delicioso anseio me atordoa,
Netas lindas manhãs de primavera;
Em mim não me contenho, pois quisera
ter asas para voar sem rumo, à toa!

Os olhos pondo na azulada esfera,
Toda ave invejo que, liberta, voa:
Como seria, sendo livre, boa
A vida que me prende e desespera!

Nestas manhãs de luz maravilhosas
Em que sorrindo, desabrocham rosas,
Quem me dera dispor de duas asas, –

Para, contente, voar do vale à serra;
Para, louvando o que existir na terra,
A um tempo além pairar das coisas rasas!

Renato Travassos

26 de novembro de 2014

Eu ouço Música ...

John Melhuish Strudwick
Eu ouço música como quem apanha chuva:
► resignado
► e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo...

Eu ouço música como quem está morto
e sente já
um profundo desconforto
de me verem ainda neste mundo de cá...

Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!

Eu ouço música como um anjo doente
que não pode voar.

Mario Quintana (1906 - 1994)

Um Poema que se Perdeu

Avery Tillmon
Hoje o dia é um dia chuvoso e triste
amortalhado
Naquela monotonia doente dos grandes dias.

Hoje o dia...
(a pena caiu-me das mãos)

Acabou-se o poema no papel.
Cá por dentro
Continua...

Oh! este marulhar das almas no silêncio!

Fernando Namora (1919-1989)

25 de novembro de 2014

Delírio Puro

Herbert Arnould Olivier
Quanto mais louco
lúcido estou

no fundo do poço que me banho
tem uma claridade que me namora
toda vez que eu vou ao fundo

me confundo quando boio
me conformo quando nado
me convenço quando afundo

no fim do fundo
eu te amo.

Chacal
(pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte)

Vidas Secas

Candido Portinari - Os Retirantes
“O pequeno sentou-se, acomodou-se nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, e Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender”.
(Graciliano Ramos. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 57.)
Da leitura desse trecho, podemos concluir que o narrador tem êxito na construção da alteridade, ao se colocar no lugar do menino e de Baleia e permitir a relação entre essas duas personagens.
Em Vidas Secas, o narrador tipicamente emprega o estilo de misturar o seu próprio discurso com aqueles das personagens, assim misturando o que ele mesmo narra com os diálogos das personagens, o que acontece na passagem citada. Com isso, percebemos como o menino se relaciona com a cadela: apenas com gestos fáceis de entender . Além disso, o menino, com um vocabulário escasso como o de um papagaio, aproxima-o de um animal como a cadela.

24 de novembro de 2014

Conselho

Charles Rupert Coelho Wulsten
“Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento
que a mereça”.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

Terra

Eduard Veith
Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os Rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as águas dum rio.

Fernando Namora (1919-1989)

Interpretação

Giovanni Auriemma
“Se me explico, me implico:
Não posso a mim mesmo interpretar.
Mas quem seguir sempre seu próprio caminho
Minha imagem a uma luz mais clara também levará”.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
in "A Gaia Ciência".

23 de novembro de 2014

O Papel do Historiador

Charles Meynier - Clio (Musa da História
“Os seres humanos (humanoides) vivem na Terra há, pelo menos, 3 milhões de anos. Se comparássemos 3 milhões de anos com um único dia, o tempo seria distribuído assim: Jesus Cristo teria nascido há apenas 57 segundos. A história escrita teria nascido a menos de 3 minutos. E tudo o que se passou antes das 23h57m pertenceria à Pré-História.
O papel do historiador é descobrir o que aconteceu nesse mundo fascinante, antes de começar a história escrita.”
Robert Braidwood (1907-2003)

Crítica da Razão Impura

Nikolay Bogdanov-Belsky
Impura razão a que sustenta os medos
e os torna enleantes e perversos
a invadirem o redil do sono
com as suas sombras bicéfalas

impura razão a que usa o verso regular
para fingir-se operosa e criadora,
a que usa uma cortina negra
para dissimular-se e tomar-se de enganos

impura razão a que se perfuma
de crisântemo ou de jasmim
e se eterniza num livro ou numa lua
e mata de assombro os caminhantes.

José Jorge Letria

22 de novembro de 2014

Passaporte

Agostinho Batista de Freitas
Dava adeus a si mesmo
na ponte sobre o cais.
A cada hora, partia-se
para não voltar mais.

Mauro Mota (1911-1984)

Domingo na Praça

Barbara Rochlitz
Na praça, este domingo
não é de hoje: é antigo.

O banco, o lago, a relva
para onde é que me levam?
Ai, dezembro de acácias,
esta praça não passa.
E essa gente depressa
(a moça e a bicicleta)

passa para deixar-se
um pouco nesta tarde.
Ai, dezembro de acácias,
este cheiro, esta música...

Sou, domingo na praça,
um momento o que fui.

Mauro Mota (1911-1984)

21 de novembro de 2014

Trem da Modernidade

Tarsila do Amaral
“Em 1924, uma caravana formada por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e o poeta franco-suíço Blaise Cendrars, entre outros, percorreu as cidades históricas mineiras e acabou entrando para os anais do Modernismo.
O movimento deflagrado em 1922 estava se reconfigurando”.
(Ivan Marques. 'Trem da modernidade'. Revista de História
da Biblioteca Nacional, fevereiro de 2012. Adaptado.)
Entre as características da "reconfiguração" do Modernismo, citada no texto, podemos incluir:
► maior nacionalização do movimento,
► o declínio da influência futurista e
► o aumento da preocupação primitivista.

O Azulão e os Tico-Ticos

Do começo ao fim do dia,
um belo azulão cantava,
e o pomar que atento ouvia
os seus trilos de harmonia
cada vez mais se enflorava.

Se um tico-tico e outros bobos
vaiavam sua canção,
mais doce ainda se ouvia
a flauta desse azulão.

Um papagaio, surpreso
de ver o grande desprezo
do azulão, que os desprezava,
um dia em que ele cantava
e um bando de tico-ticos
numa algazarra o vaiava,
lhe perguntou: " Azulão,
olha, diz-me a razão
por que, quando estás cantando
e recebes uma vaia
desses garotos joviais,
tu continuas gorgeando,
e cada vez cantas mais?!"

Numas volatas sonoras,
o azulão lhe respondeu:
"meu amigo, eu prezo muito
esta garganta sublime,
este dom que Deus me deu!

Quando há pouco, eu descantava,
pensando não ser ouvido
nestes matos, por ninguém,
um sabiá
que me escutava,
num capoeirão, escondido,
gritou de lá: "meu colega,
bravo!....Bravo!...Muito bem!"

Queira agora me dizer: -
quem foi um dia aplaudido
por um dos mestres do canto,
um dos cantores mais ricos
que caso pode fazer
das vaias dos tico-ticos?!"
Catulo da Paixão Cearense (1863-1946)

Nota: Simbolicamente, Rui Barbosa está representado neste Sabiá, pois foi a “Águia de Haia” um dos maiores admiradores de Catulo e prefaciador do seu livro Poemas bravios.

20 de novembro de 2014

Dia Mundial da Filosofia

“Mais do que lutar pelas etiquetas
ou pelas aparências,
há que lutar pelo renascimento interior do Homem”.

Jorge Angel Livraga
No dia 20 de Novembro comemora-se o Dia Mundial da Filosofia, instituído pela UNESCO.
O Dia Mundial da Filosofia é o momento propício para se compreender os acontecimentos além de sua simples aparência.
A Filosofia não só faz parte da sua vida, como pode ser o meio de transformá-la e como disse Merlau-Ponty: “A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo”.

Dia da Consciência Negra

A década de 1970, um grupo de quilombolas no Rio Grande do Sul cunhou o dia 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra: uma data para lembrar e homenagear o líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, assassinado nesse dia pelas tropas coloniais brasileiras, em 1695. A representação do dia ganhou força a partir de 1978, quando surgiu o Movimento Negro Unificado no País, que transformou a data em comemoração nacional.
Segundo a historiadora da Fundação Cultural Palmares, Martha Rosa Queiroz, a data é uma forma encontrada pela população negra para homenagear o líder na época dos quilombos, fortalecendo assim mitos e referências históricas da cultura e trajetória negra no Brasil e também reforçando as lideranças atuais.
"É o dia de lembrar o triste assassinato de Zumbi, que é considerado herói nacional por lei, e de combate ao racismo", afirma. A lei federal de 2011 (12.519) institui o 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra. A adoção dos feriados fica por conta de leis municipais.

19 de novembro de 2014

Trecho do livro - Ensaio Sobre a Cegueira

Paul Klee
“O cego e a cega descansavam agora, já separados, um ao lado do outro, mas continuavam de mãos dadas, eram novos, talvez fossem namorados, tinham ido ao cinema e ali cegaram, ou um acaso milagroso os juntou ali, e, sendo assim, como foi que se reconheceram, ora essa, pelas vozes, claro está. Não é só a voz do sangue que não precisa de olhos, o amor, que dizem ser cego, também tem sua palavra a dizer.”
José Saramago (1922-2010)