30 de setembro de 2014

Regresso

Winslow Homer
Regressamos sempre aos velhos lugares
onde amamos a vida.
E só então compreendemos
que não voltarão jamais todas as coisas
que nos foram queridas.
O amor é simples,
e o tempo devora as coisas simples.

José Eduardo Agualusa
(poeta angolano)

Covardia

Sir Edward John Poynter
Eis o veneno, eis o punhal, que esperas?
O horror à terra, de repente,
o passo atrás,
o apego ao quadro, ao livro,
que sei mais!
O apego à própria miséria...

Há que buscar a solidão
entrar no reino do silêncio,
à espera,
à espera...

Mas ainda aí a nossa própria voz ecoa.
Não queremos confissão,
eu vos digo, porém,
em verdade vos digo:
existir, embora surdo,
olhos abertos, apenas, para a vida; embora cego,
ouvidos atentos aos ruídos misteriosos;
embora mudo,
mãos ávidas em reconhecimento;
ainda que imóvel,
boca e narina percebendo
o gosto e o cheiro do mundo!

Existir...
Em que pese o absurdo!

Sérgio Milliet (1898-1966)

29 de setembro de 2014

Pré-História

As três fases da Pré-História’ (antecede a invenção da escrita)
A Pré-História corresponde a um longo período de 3,6 milhões de anos. Termina com o surgimento da escrita, há 4 mil anos. É importante conhecer a fundo este período histórico, pois foi naquele tempo que as mudanças tecnológicas transformaram a forma com que o ser humano se relacionava com a natureza. Esta lista ajuda a conhecer um pouco mais desta trajetória.
‘Paleolítico’
O Paleolítico é também denominado Idade da Pedra Lascada, e abrange um período que vai de 4 milhões a 10 mil anos, aproximadamente. Neste período, os seres humanos eram nômades, ou seja, deslocavam-se de um lugar para outro em busca de alimentos. Viviam da caça e da coleta. Alimentavam-se basicamente de frutos, raízes, peixes e pequenos animais. À medida que os utensílios foram se aperfeiçoando, passaram a caçar grandes animais.
O Período Paleolítico Inferior (do grego paleos = antigo + lithos = pedra) é o período mais longo da Pré-História. Ele abrange a fase das glaciações, quando baixas prolongadas da temperatura provocaram a expansão da calota polar, alterando profundamente o clima do Hemisfério Norte. A América do Sul também sofreu glaciações, mas antes que o homem nela se fixasse.
Os geólogos identificam quatro glaciações no Hemisfério Norte. Elas começaram cerca de 600000 anos atrás e se prolongaram, intercaladas com longos períodos mais cálidos, até perto de 10000 a.C. Durante as épocas glaciais, os ancestrais do homem atual abrigavam-se em cavernas e viviam basicamente da caça. As vezes, a escassez de alimento os obrigava ao nomadismo. Para abater os grandes mamíferos dessas fases de baixas temperaturas (mamutes, rinocerontes lanudos, bisões e alces), os homens começaram a organizar-se em grupos e a estabelecer laços de cooperação e solidariedade, pois disso dependia a própria sobrevivência da espécie. O maior passo dado pelo homem no Paleolítico Inferior foi a utilização do fogo, que lhe permitiu aquecer-se, obter iluminação à noite, afastar animais ferozes e cozer alimentos. Esse grande avanço deveu-se ao Homo erectus. Inicialmente, os homens procuravam conservar o fogo provocado por causas naturais (queda de um raio sobre uma árvore ou um incêndio florestal); depois, por volta de 500 000 a.C., passaram a desenvolver técnicas para produzir fogo.
Os primeiros utensílios de pedra eram muito simples (daí o nome de Idade da Pedra Lascada, dado ao Período Paleolítico). Com o decorrer do tempo, esse instrumental tomou-se mais elaborado, inclusive com a adição de componentes de madeira. As amas evoluíram, surgindo as lanças, facas e machadinhas. E, como a expansão dos grupos humanos começou a gerar conflitos, os artefatos de caça foram adaptados para a guerra.
No final do Paleolítico Inferior, os homens de Neanderthal começaram a sepultar os mortos, nas cavernas ou em suas proximidades. Alimentos e armas eram enterrados com os corpos, denotando algum tipo de crença ligada ao sobrenatural.
O Período Paleolítico Superior coincide aproximadamente com a última glaciação. O homem de Cro-Magnon, que surgiu por volta de 40000 a.C., é o representante característico do período. Essa subespécie do Homo sapiens dividiu-se em várias culturas locais, distribuídas pela Espanha, Sul da França e Europa Centro-Oriental.
Os Cro-Magnon ainda eram coletores, caçadores e pescadores. Seus instrumentos, porém, passaram por transformações. Como o gelo dificultava a obtenção de pedras, diversos utensílios começaram a ser confeccionados com ossos e marfim; o arco e a flecha surgiram nesse período, bem como arpões e agulhas.
Em parte devido ao longo tempo que passavam dentro das cavernas, mas graças sobretudo ao desenvolvimento da própria inteligência, os homens do Paleolítico Superior deram início à produção artística, pintando animais e cenas de caça nas paredes das grutas. Essa arte rupestre (isto é, pintada ou gravada na rocha), além de sua concepção realista, possuía uma função mágica porque, ao executá-la, o homem acreditava estar garantindo caça abundante para seu grupo.
Na mesma época do Período Paleolítico, começaram a ser esculpidas estatuetas femininas em marfim, com alguns centímetros de altura, que os especialistas hoje chamam de Vênus (do nome da deusa greco-romana do amor e da beleza feminina). Essas figuras eram dotadas de seios fartos e quadris exagerados, o que certamente as vinculava à ideia de fertilidade.
Neolítico’ (após a escrita)
O Neolítico é também denominado Idade da Pedra Polida, e abrange um período que vai de 10 mil a 5 mil anos, aproximadamente. Neste período, a relação com o meio-ambiente mudou. O homem já não vivia só da caça, pesca e coleta. Passou a semear as terras férteis e a aguardar a época das colheitas. Surgiu, portanto, a agricultura e a criação de animais. Os seres humanos passaram a morar permanentemente num só lugar, tornando-se sedentário.
Uma das mais importantes conquistas na formação das primeiras civilizações humanas estabelece-se em um novo período da Pré-História. Durante o Neolítico ou Idade da Pedra Polida ocorreram grandes transformações no clima e na vegetação. O continente europeu passou a contar com temperaturas mais amenas e observamos a formação do Deserto do Saara, na África. A prática da caça e da coleta se tornaram opções cada vez mais difíceis. A agricultura e o consequente processo de sedentarização do homem se estabeleceram gradualmente. Além disso, a domesticação animal se tornou uma prática usual entre os grupos humanos que se formavam nesse período. A estabilidade obtida por essas novas técnicas de domínio da natureza e dos animais também possibilitou a formação de grandes aglomerados populacionais.
Novas formas de organização social surgiam e, assim, as primeiras instituições políticas do homem podem ter sido formadas nessa mesma época. A criação e o abandono de formas coletivas de organização socioeconômicas podem ser vislumbrados no Neolítico. Conforme alguns pesquisadores, as primeiras sociedades complexas, criadas em torno da emergência de líderes tribais ou a organização de um Estado, são frutos dessas transformações.
No fim do período Neolítico também ocorreu a chamada Idade dos Metais. Nessa época, o desenvolvimento de armas e utensílios criados a partir do cobre, do bronze e, posteriormente, de ferro se tornaram usuais. Com o desenvolvimento dos primeiros Estados e o aparecimento da escrita, o período Neolítico finalizou o recorte de tempo da Pré-História e abriu portas para o estudo das primeiras civilizações da Antiguidade.
Idade dos Metais’ (6000 a.C. a 4000 a.C.)
Este período se refere ao momento em que o ser humano adquiriu seus primeiros conhecimentos sobre a técnica de fundir, ou derreter, metais. Este processo se denomina metalurgia. O primeiro metal utilizado foi o cobre. Mais tarde, o homem descobriu a liga do cobre com o estanho, obtendo o bronze. Com o uso de forjas e foles, a metalurgia melhorou, atingindo o ferro.
Podemos frisar é que a utilização dos metais foi de fundamental importância para algumas das sociedades que surgiram durante a Antiguidade.
Através do domínio de técnicas de fundição, o homem teve condições de criar instrumentos mais eficazes para o cultivo agrícola, derrubada de florestas e a prática da caça. Além disso, o domínio sobre os metais teve influência nas disputas entre as comunidades que competiam pelo controle das melhores pastagens e áreas férteis. Dessa maneira, as primeiras guerras e o processo de dominação de uma comunidade sobre outra contou com o desenvolvimento de armas de metal.
O primeiro tipo de metal utilizado foi o cobre. Com o passar dos anos o estanho também foi utilizado como outro recurso na fabricação de armas e utensílios. Com a junção desses dois metais, por volta de 3000 a.C., tivemos o aparecimento do bronze. Só mais tarde é que se tem notícia da descoberta do ferro. Manipulado por comunidades da Ásia Menor, cerca de 1500 a.C., o ferro teve um lento processo de propagação. Isso se deu porque as técnicas de manipulação da liga de ferro eram de difícil aprendizado.
Contando com sua utilização, observamos que a maior resistência dos produtos e materiais metálicos teve grande importância na consolidação das primeiras grandes civilizações do Mundo Antigo. Assim, o uso do metal pôde influenciar tanto na expansão, como no desaparecimento de determinadas civilizações.

28 de setembro de 2014

A Ladeira

Gustav Klimt
Junto a mim vives tu, igual a mim:
como uma pedra
na face caída da noite.

Oh, amada, esta ladeira,
onde rolamos sem parar,
nós pedras,
de regato em regato.
E cada vez mais redondas.
Mais iguais. Mais estranhas.

Oh, este olho embriagado,
que por aqui vagueia como nós
e que às vezes
com espanto nos vê unidos.

Paul Celan (1920-1970)
Tradução: João Barrento

Aos Chorões

Claude Monet
Chorões da praia de Belas
Molhando as folhas no rio
sois pescadores de estrelas
ao crepúsculo tardio.

O mais velhinho, já torto
ao peso de tantas mágoas
lembra um pensamento absorto
debruçado sobre as águas.

Salgueiros trêmulos, belos,
meus camaradas tão bons,
diz o poeta, violoncelos
onde o vento acorda os sons.

Sois, à beira da enseada,
um bando de poetas boêmios,
e fitais na água espelhada
vossos companheiros gêmeos…

Mas se alguma brisa agita
a copa descabelada,
ondula, salta, palpita
vossa imagem assustada…

Augusto Meyer (1902-1970)

27 de setembro de 2014

E se...

Vincent Van Gohg
Se você não tivesse nome,
Se você não tivesse história,
Se você não tivesse livros,
Se você não tivesse família

Se você fosse somente você,
Nu na grama, o que você seria então?
Isso é o que ele perguntou e eu respondi
Que não tinha muita certeza, mas.
Provavelmente seria frio e agora
Estou gelando. Gelando

Philip Glass

Sabedoria

Felix Mas
“O sábio autêntico vive em plena alegria, contente, tranquilo, imperturbável; vive em pé de igualdade com os deuses.
Analisa-te então a ti próprio: se nunca te sentes triste, se nenhuma esperança te aflige o ânimo na expectativa do futuro,... se dia e noite a tua alma se mantém igual a si mesma, isto é, plena de elevação e contente de si própria, então conseguiste atingir o máximo bem possível ao homem!
Mas se, em toda a parte e sob todas as formas, não buscas senão o prazer, fica sabendo que tão longe estás da sabedoria como da alegria verdadeira.
Pretendes obter a alegria, mas falharás o alvo se pensas vir a alcançá-la por meio das riquezas ou das honras, pois isso será o mesmo que tentar encontrar a alegria no meio da angústia; riquezas e honras, que buscas como se fossem fontes de satisfação e prazer, são apenas motivos para futuras dores”.
Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.)

26 de setembro de 2014

Pode-se viver muito bem...

Nickolai Komarov
Pode-se viver muito bem
sem nada mais do que estes privilégios cotidianos:
• uma carta na caixa do correio,
• o barulho de uma vaga,
• o azul sobre a planície,
• as palavras de um poema.
• O universo reduzido a poucos vínculos
• ao trajeto habitual
• da sua própria morte.

Pode-se muito bem não ser mais do que uma
aventura de átomos e de questões insignificantes.

Hélène Dorion poeta canadense

O Sonho dos Sonhos

Ludwig Knaus
Quanto mais lanço as vistas ao passado,
Mais sinto ter passado distraído,
Por tanto bem – tão mal compreendido,
Por tanto mal – tão bem recompensado!...

Em vão relanço o meu olhar cansado
Pelo sombrio espaço percorrido:
Andei tanto – em tão pouco... e já perdido
Vejo tudo o que vi, sem ter olhado.

E assim prossigo, sempre audaz e errante,
Vendo o que mais procuro mais distante,
Sem ter nada – de tudo que já tive...

Quanto mais lanço as vistas ao passado,
Mais julgo a vida – o sonho mal sonhado
De quem nem sonha que a sonhar se vive!...

Mucio Teixeira (1858-1926)

25 de setembro de 2014

O homem que tem muitas respostas

Johannes Vermeer - A lição de música
O homem que tem muitas respostas
é muitas vezes encontrado
nos teatros da informação
a oferecer, amavelmente,
as suas muito profundas descobertas.

Enquanto que o homem que só tem perguntas,
para se confortar a si mesmo, faz música.

Mary Oliver poeta estadunidense

Falta de reza

Charles Burton Barber
Por insuficiência de reza,
por falsidade de crença
meu anjo me culpou
e vaticinou eterna penitência.

Mas não ajoelho
nem peço desculpa.
Não quero um deus
que vigie os vivos
e peça contas aos mortos.

Um deus amigo
que me chame por tu
e que espere por mim
para um copo de riso e abraços:
esse é o deus que eu quero ter.

Um deus
que nem precise de existir.

Mia Couto

24 de setembro de 2014

Estarei diante de ti face a face?

Heide Presse
Dias a fio, ó senhor da minha vida,
estarei diante de ti face a face?
De mãos postas, ó senhor de todos os mundos,
estarei diante de ti face a face?
Sob o teu imenso firmamento, na solidão
e no silêncio e de coração humilde,
estarei diante de ti face a face?

Neste mundo laborioso que é teu, turbulento de
lidas e lutas, entre atropeladas multidões,
estarei diante de ti face a face?
E quando a minha missão findar neste mundo,
ó Rei dos reis, sozinho e mudo,
estarei diante de ti face a face?

Rabindranath Tagore (1861-1941)

Quatro estágios de erotismo através dos Mitos

Lucas Cranach - Eva
Primeiro estágio. Afinidade puramente instintiva, puramente biológica, a mulher equiparada à mãe e só representa algo a ser fertilizado, a terra.
Evelyn De Morgan - Helena
Segundo estágio . A figura da anima. Eros sexual. Nível estático e romântico, onde a mulher já tem adquirido algum valor como indivíduo.
Guido Reni – Maria
Terceiro estágio . A personificação do céu, o "eterno feminino". Elevação de Eros às maiores alturas da devoção religiosa, espiritualizada. Maternidade espiritual. A espiritualização de Eva.
Sophia – Na Biblioteca de Celso, em Éfeso, Turquia.
Quarto estágio. Além do quase-insuperável terceiro estágio - Sabedoria. A sabedoria que transcende o mais santo e puro. A virtude da verdade. A espiritualização de Helena.
Sophia (em grego: é aquilo que detém o “sábio”). Na tradição gnóstica, Sophia é uma figura feminina, análoga à alma humana e simultaneamente um dos aspectos femininos de Deus.
Ela é considerada como a responsável pela criação do mundo material, ou uma das responsáveis, dependendo da tradição gnóstica.
Fragmentos de Carl Gustav Jung (1875-1961) - Psicologia da Transferência

23 de setembro de 2014

Soneto 98

Maximilian Lenz
De ti me afastei na primavera,
Quando o orgulhoso abril, todo aprumado,
Em tudo pôs um sopro de juventude,
Que o plúmbeo Saturno se riu e com ele saltou.
Embora nem os bandos de pássaros, nem o doce perfume
De diferentes flores em cor e odor
Poderiam me fazer contar uma história de verão,
Ou tirá-las do farto regaço onde vicejam;
Não me surpreendi com a brancura do lírio,
Nem elogiei o carmim intenso da rosa;
Eram apenas doces, apenas figuras de encanto,
A imitarem a ti, tu, modelo de todas elas.
Embora ainda parecesse inverno, e tu, à distância,
Como com tua sombra, eu, com elas, brinquei.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta

A Primavera chegou

Jardim da Lembrança
Alfred Augustus Glendening
No jardim da lembrança,
Onde cultivo as flores
Da perpétua e alada primavera,
Nem a terra se cansa,
Nem desmaiam as flores,
Nem o pólen dos sonhos desespera.

Tudo ali permanece
Fiel ao devotado jardineiro,
Que na distância tece
O halo que merece
Cada rosa acordada no canteiro,
Quando o dia das rosas amanhece.

Horto da infância entre areais adultos,
Há nele ainda a sombra de dois vultos
Que debruam de amor a pequena extensão
Desse mundo florido
Onde sempre feliz tenho vivido,
Graças à graça da imaginação.

Miguel Torga (1907-1995)

22 de setembro de 2014

Reflexão:

“A luz tem idade. A noite não”.
(René Char)
Kenyon Cox

“A fé não é uma noção, mas uma fome essencial poderosa, um desejo magnético atrativo de Cristo, uma vez que, procede de uma semente da natureza divina em nós, por isso atrai e se une com isso”.
William Law (1686-1761)

“Não há lugar para a Verdade no sentimento;
nem nos prazeres, nem nos sofrimentos.
Tampouco há lugar para a verdade na razão”.

Catharose de Petri (1902-1990)

Suave caminho

Edward Hopper
Assim... Ambos assim, no mesmo passo,
iremos percorrendo a mesma estrada;
tu - no meu braço trêmulo amparada,
eu - amparado no teu lindo braço.

Ligados neste arrimo, embora escasso,
venceremos as urzes da jornada.
E tu - te sentirás menos cansada,
e eu - menos sentirei o meu cansaço.

E, assim, ligados pelos bens supremos,
que para mim o teu carinho trouxe,
placidamente pela vida iremos,

calcando mágoas, afastando espinhos,
como se a escarpa desta vida fosse
o mais suave de todos os caminhos.

Mário Pederneiras (1867-1915)

21 de setembro de 2014

O mar

Vincent Van Gohg
O mar é uma coisa... A espuma, outra.
Esqueça a espuma e contemple o mar, noite e dia!
Você vem olhando para a ondulação
da espuma e não para o poderoso mar;
Como barcos, somos jogados daqui para ali,
Somos cegos, embora estejamos no brilhante oceano.

Ah! Você que dorme no barco do corpo,
Veja a água; contemple a Água das águas!
Sob a água que você vê, há outra água que a move,
Dentro do espírito há um espírito que o chama.

Jalaludin Rumi (1207-1273)

Eu era parte da noite...

Dmitriy Kalyuzhny
Eu era parte da noite e caminhava
Adusta e austera
Sem luz nem aventurança.
Tu eras praia e dia
Um fogo branco
O rosto da montanha sobre a terra.

E juntamos a treva
Ao mar do meio-dia
Cristas aguadas, pontas
Trilhas fosflorescentes
Na vastidão das sombras

Mas um instante apenas.
Por isso é que caminho como antes
Adulta e austera.
Acrescida de véus me mostro aos viajantes:
Vês a mulher, aquela?
Dizem que a cara é de caliça e pedra.
Que a luz das ilusões passou por ela.

Hilda Hilst (1930-2004)

Desiludido

Arcângelo Ianelli
Por que te hás de aquecer ao sol dessa esperança
nova, que despontou na tua alma ingênua e crente?
Se ela é como sorriso em lábio de criança,
que se há de transformar em pranto, de repente…

A ventura completa, é céu que não se alcança,
mas que a gente vislumbra, além, perpetuamente:
esse céu mentiroso, é um céu que foge e avança,
se é maior ou menor a aspiração da gente.

Sê simples e sê bom, mas não julgues que um dia,
hás de o teu coração, repleto de alegria,
para sempre fechar, como quem fecha um cofre!

Crê que a desilusão é o sonho pelo avesso,
e que só se é feliz, dando-se o mesmo apreço
ao gozo que se goza, e à mágoa que se sofre!

Alceu Wamosy (1895-1923)

20 de setembro de 2014

Matéria

Edoardo Ettore Fort
Parece que os séculos
cuidam dos castelos
que no alto das montanhas
são o sonho das pedras
ou o desejo das nuvens.
Escrever é uma pedreira.
Se me atirasse daqui
de uma de suas torres de marfim
cairia, talvez
inteiro
em corpo reduzido
na página de qualquer jornal.
Escrever é uma pedraria.

Armando Freitas Filho

Escritório irritante

Edward Hopper
Não acho nada, nem o que não
procuro, nenhum livro se abre
e os que se abrem, raivosos
não prestam para o momento.

Se apertam nas estantes, se
embaralham, fora de ordem
se precipitam, suicidas
mortos, amarrotados, muitos.

Não os lerei mais, morri
com eles, minhas marcas
no pó das passadas páginas

se desbotam, os personagens
idem, a flor no papel de poema
se fecha, furada por traças.

Armando Freitas Filho

19 de setembro de 2014

Roda da criação

Leonardo da Vinci
“Nesta vasta Roda da criação onde vivem e morrem todas as coisas, vagueia a alma humana como um cisne voando sem sossego, e ela pensa que Deus está longe. Mas quando o amor de Deus desce até ela, então encontra a sua vida imortal”.
Upanishad

Soneto de Fidelidade

Victor Schtember
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Moraes (1913-1980)