31 de julho de 2014

Razão e Coração

Zhang Lijun
Um livro pequeno:
não levei comigo
mais do que um livrinho fino,
assim como uma folha,
assim como uma vida humana.

Pensei que me fosse doer a espinha,
que me doesse o nome
que irá carregá-lo.

Marin Sorescu (1936-1996)

Para ter alegrias

André Savy
Eu vou espantar os automóveis da minha janela.
e vou instalar uma tomada direto no Sol.
Vou ligar as torneiras no bojo das nuvens,
Vou me carregar de arrepios
Vou ligar o botão da arvore fazedora de sombras,
construir paredes de ventos e cortinais de cachoeiras...
Depois, vou cobrir tudo isso com um telhado
de estrelas azuis, vou reger uma grande
orquestra de passarinhos, e dar corda nos beija-flores.
Para que me despertem quando tudo estiver terminado...

Hélio Ribeiro (1935-2000)

30 de julho de 2014

Tudo vive

Nicaise de Keyser : O Filósofo
Parece que tudo passa para que recomece
desde o princípio, como se fosse novo, ou se observe
sem levar em conta algo que já existiu
e tampouco aquilo que virá, infindável.
Uma grande destruição, como se tudo se apagasse atrás de nós
a história, as lembranças, os valores existentes
e as imagens que nos governavam.
Alguém nos confidencia: rápido o passado se afasta de nós,
você vê como ele se transmuda, depois põe-se além do horizonte
e talvez nem mais exista, renuncia a tudo que é inútil,
se ainda recordações você preserva.
Mas, se a história passa
(ela própria é narrativa sobre a transitoriedade), algo permanece:
de cada conceito antigo uma ou outra raiz
e os rituais do culto de outrora límpidos em nós,
o diálogo entre nós e os filosofemas anteriores é possível.
No meio da charada contemporânea emerge o algarismo original.
Nada se repete no tempo, além dos velhos problemas,
e palavras que o homem olvidou ao ser criado,
para redescobri-los quando
acima dele trovejam bobinas desenroladas de antigas ordens.
A meditação que Descartes nos legou
sobre a mesa sempre recomeça, e também o método
que vincula o autodespertar do entendimento àquilo que se
pensava outrora.
Era o que desejava Leibniz antes que a sabedoria alcançasse
o ponto crítico em que o sofista reapareceu.
O artista concebe assim seu ponto de partida,
quando se revolta ou destrói; pisca um olho
e afirma: nada me surpreende, nem a deusa de argila,
que o homem neolítico portava durante a semeadura,
nem aquilo que o criador refinado do templo da caverna e da
caça selvagem rabiscou no castelo subterrâneo.
Toda a família espiritual contém um antídoto
contra a aniquilação, e a república espiritual está povoada
de uma espécie de conhecedores de ervas medicinais e outros
opositores dos que envenenam, e ela se defende
onde ninguém a ataca, pois nem a enxerga nem a ouve,
defende-se dos que acendem fogueiras e dos fanáticos do
novo jogo
que se encanta com a explosão, assim como outrora
acontecia com o delírio de brincar com o fogo e considerar
sagrado o sofrimento do bode expiatório nas mãos do
carrasco coletivo.
Seremos capazes de devolver ao espírito cada centelha,
se agora testemunharmos que “tudo vive”:
o passado dentro do futuro, a sabedoria na loucura,
o conhecimento nas trevas,
e que tudo aquilo que na vida é rubro, vermelho escuro,
branco raiado de paixão, jamais se acinzente.

Miodrag Pávlovitch (1928-2014)
Tradução: Aleksandar Jovanovié

A Exata Glória é a Póstuma

Anna e Elena Balbusso
“A exata glória é a póstuma, a que nenhum dente rói, e que só desce sobre um nome depois da ressurreição intemporal do seu possuidor. Todos sabemos que a imortalidade do poeta lhe nasce das cinzas. Mas o artista enquanto vive é homem. Rege-o tanto uma lei de cima como uma lei de baixo. E por isso, pela transitória fama entre meia dúzia de condicionados contemporâneos, é capaz de matar um irmão. Velhos e novos aprestam nesta triste luta as mesmas armas e as mesmas unhas. Os velhos querem guardar os loiros; os novos querem tirar-lhes das mãos. E sem haver a menor esperança de paz entre as duas forças. É da própria natureza dos contendores que nenhum ceda. A sofreguidão é tanto da fisiologia senil, como da infantil... ”.
Miguel Torga (1907-1995)

29 de julho de 2014

Arte poética

Chaim Goldberg
A dicção não implica estar alegre ou triste
Mas dar minha voz à veemência das coisa
E fazer do mundo exterior substância da minha mente
Como quem devora o coração do leão

Olha fita escuta
Atenta para a caçada no quarto penumbroso.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Tatuagem

Otto Muller
Eu não sou um veículo eletrônico,
Eu sou uma golfada de sangue,
Sou um assomo de ciúme,
Uma explosão de ira.
Eu não sou uma película transmissora,
Nem um écran, um zoom de aproximação,
Nem sequer um microscópio.
Eu sou um sono tumultuado,
Sou um sonho que me tatua.
A pela da minha alma tem árvores fantásticas
E saudades maternas, e monstros inconclusos,
Abismos, ligações mais estabelecidas,
Terrores que perfumam a máscara encoberta.

Eu não sou um instrumento.
Sou a mão que e o gesto
Que consuma.

Walmir Ayala (1933-1991)

28 de julho de 2014

Ser Longe

Lee Sin Bee
Aconteceram-me dias
nos cabelos
total e agudamente nua
lua na ferida do côncavo
cortado pelo som do soluço roto

Eis a angústia que é
o estado sensual do solo

Medusas na paisagem
do sonho a resolução é cicatriz dos loucos

Desguarneceram-me de paz
e os bosques ansiaram
ter como lábios
a ira dos lagos
nos olhos do homem onde o amor
é uma doença de saudade persistente

Esquinas de ansiedade
voltem e envolvam
as estátuas

Este é o caminho da angústia
a hera do hálito
o ser longe.

Maria Teresa Horta

Sobre amor e justiça

Charles Louis Müller
“Porque é que se sobrestima o amor em detrimento da justiça e se diz dele as coisas mais lindas, como se ele fosse uma entidade muito superior àquela? Pois não é ele visivelmente mais estúpido que aquela? Por certo, mas, precisamente por isso, tanto mais agradável para todos. Ele é estúpido e possui uma rica cornucópia; tira desta os seus presentes e distribui-os a qualquer pessoa, mesmo que esta não os mereça e até nem sequer lhe agradeça por isso. É imparcial como a chuva, a qual, segundo a Bíblia e a experiência, não só encharca o injusto até aos ossos, mas também, em determinadas circunstâncias, o justo”.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)
Humano, Demasiado Humano

27 de julho de 2014

Um pouco de estrela e de arco-íris

“O mundo interior de cada homem é um lugar único,
onde ele pode sentir o amor e pode provar a compaixão”.
George Elgar Hicks
“Se a pessoa der ouvidos às sutis mas constantes sugestões do seu espírito, sem dúvida autênticas, não vê a que extremos, e até loucura, ele pode levá-la; contudo, por aí envereda o seu caminho à medida que cresce em resolução e fé. A mais leve objeção segura que um homem sadio fizer, com o tempo prevalecerá sobre os argumentos e costumes da humanidade. Nenhum homem jamais seguiu a sua índole a ponto de esta o extraviar. Embora o resultado fosse fraqueza física, ainda assim talvez ninguém pudesse dizer que as consequências eram lamentáveis, já que representariam a vida em conformidade com princípios mais elevados. Se o dia e a noite são de tal natureza que vós os saudais com alegria, se a vida emite uma fragrância de flores e ervas aromáticas e se torna mais elástica, mais cintilante e mais imortal - aí está o vosso êxito.
A natureza inteira é a vossa congratulação e tendes motivos terrenos para bendizer-vos. Os maiores lucros e valores estão ainda mais longe de serem apreciados. Chegamos facilmente a duvidar de que existam. Logo os esquecemos. Constituem, entretanto, a realidade mais elevada.
Talvez os fatos mais estarrecedores e verdadeiros nunca sejam comunicados de homem a homem. A verdadeira colheita do meu dia a dia é algo de tão intangível e indescritível como os matizes da aurora e do crepúsculo. O que tenho nas mãos é um pouco de poeira das estrelas e um fragmento do arco-íris.”
Henry David Thoreau (1817-1862)

26 de julho de 2014

Escolhas da Alma

“A vida é breve, a arte é longa,
a ocasião é fugitiva, a experiência é falaz,
o julgamento é difícil.”

Hipócrates
Vladimir Volegov
“Um espírito vivente é um espírito pacífico,
um espírito vivente é um espírito
que não possui um ponto central,
e portanto nem espaço nem tempo
Esse espírito não possui fronteiras e é a realidade única”.

Jiddu Krishnamurti (1895-1986)

Os justos

Emma Alvarez
Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sur jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acaricia um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo.

Jorge Luis Borges (1899-1986)

25 de julho de 2014

Adolescência

Tela Mónica Fernández
Era uma alameda branca,
atapetada de papel de seda.
Não tinha sombras,
cantos escuros, não tinha muros.
Permanecia.
Até que um dia,
um anjo descuidado
deixou pingar-lhe
uma gota de carmim.
Calou-se o branco
que fora imaculado,
numa aquiescência casta e comovida.
Recolheu-se manso.
... e foi assim que começou a vida.

Flora Figueiredo

Estudo de nu

Childe Hassam
Essa linha que nasce nos teus ombros,
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.
Essas duas parábolas que te apertam.
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias cicloides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.
Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho e selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.

José Saramago (1922-2010)

24 de julho de 2014

Brinde

Adolphe Philippe Millot
Ergo este respingo de água,
à vossa saúde.
Ergo esta escama de peixe
e bebo-lhe a lágrima.

Marin Sorescu (1936-1996)

Celebração de S. Pedro

Calmon Barreto de Sá Carvalho - Tropeiros
“Nosso local de descanso seria a importante cidade de Campinas …, a mais de cem milhas no interior. Quando nos aproximávamos dessa cidade, fui surpreendido pela beleza e fertilidade da região circundante. As grandes e antigas montanhas haviam sido deixadas muito para trás de nós, e em redor, até onde pude ver, estendiam-se extensas planícies, ou antes, prados ondulosos, com quase todos os acres ocupados. Havia muitas plantações de café superiormente cultivadas, entre cujo verde-escuro podia-se avistar aqui e ali as grandes residências caiadas de branco dos proprietários das terras. Foi na tarde de 28 de junho que chegamos aos arredores de Campinas. A radiosa beleza da noite tropical tornava-se ainda maior pela iluminação da cidade, pelas imensas fogueiras espalhadas pela planície, e brilhantes fogos de artifício lançados de todas as ruas e todas as plantações circundantes. Os clarões e o barulho eram tais, que sem qualquer esforço de imaginação, ter-se-ia acreditado estar perto de alguma cidade sitiada, durante um violento bombardeio. Era a “véspera de S. Pedro”; e todo homem que tinha um Pedro ligado a seu nome, sentia-se na obrigação de acender uma imensa fogueira diante de sua porta, e soltar uma porção de foguetes, além de descarregar inúmeras pistolas, mosquetes, e morteiros. Sob semelhante tormenta, entramos em Campinas.”
Texto de James C. Fletcher e de Daniel P. Kidder, de sua viagem ao Brasil em 1855
James Cooley Fletcher e Daniel Parrish Kidder. foram missionários metodistas estadunidenses que percorreram extensamente o território brasileiro fazendo anotações de viagem para o livro "O Brasil e os Brasileiros".
O livro informa os norte-americanos sobre as riquezas e belezas naturais do Brasil, mostrando-o como um país de grandes oportunidades, no qual poderão comercializar seus produtos e extrair riquezas naturais.

23 de julho de 2014

Eu desvesti todas as diferenças

Charles Edward Perugini
O que pode ser feito, ó irmãos?
Não sei quem sou!
Não sou Cristão, nem Judeu, nem Mago, nem Muçulmano.
Não sou do Ocidente, nem do Oriente, da terra ou do mar.
Não fui formado pela natureza, nem pelas esferas celestes;
Nem pela terra, água, ar ou fogo.
Não sou rei nem mendigo;
Nem feito de substância ou de forma.
Nem sou da Índia, China, nem de um país fronteiriço;
Nem da Pérsia, nem das terras de Korasan.
Não sou deste mundo e nem do próximo;
Nem do céu, nem do inferno.
Não vim de Adão nem de Eva;
Não moro no Éden nem nos jardins do paraíso;
Meu lugar é um não lugar, minhas pegadas não deixam marca.
Nada é meu, nem corpo nem alma -
Tudo pertence ao coração do meu Amado.
Eu desvesti todas as diferenças,
e agora vejo os dois mundos como um..

Jalaludin Rumi (1207-1273)

22 de julho de 2014

O que é a felicidade?

Goyo Dominguez
“Procuremos compreender agora – uma vez que todo o saber e toda a intenção têm um bem por que anseiam – (...) qual será o mais extremo dos bens susceptível de ser obtido pela ação humana. Quanto ao nome desse bem, parece haver acordo entre a maioria dos homens. Tanto emagrecer a maioria como os mais sofisticados dizem ser a felicidade, porque supõem que ser feliz é o mesmo que viver bem e passar bem. Contudo, acerca do que possa ser a felicidade estão em desacordo e a maioria não compreende o seu sentido do mesmo modo que o compreendem os sábios.”
Aristóteles (384-322 a.C.)

21 de julho de 2014

Ciúmes...um desvario

Chaim Goldberg
“Como ciumento sofro quatro vezes:
porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo,
porque temo que meu ciúme machuque o outro,
porque me deixo dominar por uma banalidade:
sofro por ser excluído,
por ser agressivo,
por ser louco e
por ser comum”.
Roland Barthes (1915-1980)

20 de julho de 2014

Coração

Hazel Soan
No lugar secreto do coração
é onde verdadeiramente está o grande sustentáculo.
Nele está centrado tudo que se move,
que respira, que abre e fecha os olhos.
Conhece-o como ser, como não ser,
como o supremo objetivo a ser atingido,
o mais elevado, além do alcance do entendimento humano.

Upanishad

Especulações em torno da palavra homem

Thomas Cole
Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?
Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?

Como se fazer
a si mesmo, antes
de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?

Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?
Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?

Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

19 de julho de 2014

Soneto 91

Ikahl Beckford
A uns, o berço dá a glória, a outros, o talento,
A uns, a riqueza, a outros, a força,
A uns, as vestes, mesmo espaventosas,
A uns, suas águias e cães, a outros, seus cavalos,
E todo humor provê o seu próprio prazer,
Vendo alegria acima de tudo o mais;
Mas essas questões de nada me servem;
Supero tudo isso com um único trunfo.
Teu amor é mais que um berço de ouro,
Mais rico que a riqueza, mais caro do que roupas,
Mais prazeroso que águias e cavalos;
E tendo a ti, desdenho de todo o humano orgulho –
Apenas triste por um motivo: que possas privar-me
De tudo, tornando-me o mais infeliz.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Thereza Christina Motta

Liberdade? Sofisma dos saudáveis

Tristram Paul Hillier
“Mesmo que possa lutar contra um ataque de depressão, em nome de que vitalidade me obstinaria contra uma obsessão que me pertence, que me precede? Quando estou bem de saúde, escolho o caminho que me agrada; ‘doente’, já não sou eu quem decide: é meu mal. Para os obcecados não existe opção: sua obsessão já optou por eles. Uma pessoa se escolhe quando dispõe de virtudes indiferentes; mas a nitidez de um mal é superior à diversidade dos caminhos a escolher. Perguntar-se se se é livre ou não: futilidade aos olhos de um espírito a quem arrastam as calorias de seus delírios. Para ele, exaltar a liberdade é dar provas de uma saúde indecente.
A liberdade? Sofisma dos saudáveis.”
Emil Michel Cioran (1911-1995),
in Silogismos da amargura

18 de julho de 2014

Há em toda a beleza uma amargura

Amedeo Modigliani
Há em toda a beleza uma amargura
secreta e confundida que é latente
ambígua indecifrável duplamente
oculta a si e a quem na olhar obscura

Não fica igual aos vivos no que dura
e a não pode entender qualquer vivente
qual no cabelo orvalho ou brisa rente
quanto mais perto mais se desfigura

Ficando como Helena à luz do ocaso
a língua dos dois reinos não lhe é az
senão de apartar tranças ofuscante

Mas à tua beleza não foi dado
qual morte a abrir teu juvenil estado
crescer e nomear-se em cada instante?

Walter Benjamin (1892-1940)
Tradução: Vasco Graça Moura

Sobre Pranto e Riso

Franz Marc
“Se o Pranto e o Riso aparecessem neste grande teatro no traje da verdade (sempre nua), sem dúvida seria a vitória do Pranto. Mas vestido, ornado e armado de uma tão superior eloquência, que o Riso se ria do Pranto, não é merecimento, foi sorte. De tudo quanto ri saiu vestido, ornado e armado o Riso: riem-se os prados e saiu vestido de flores: ri-se a Aurora, e saiu ornado de luzes; e se aos relâmpagos e raios chamou a Antiguidade Risus Vestae, et Vulcani, entre tantos relâmpagos, trovões e raios de eloquência, quem não julgará ao miserável Pranto cego, atónito e fulminado? Tal é a fortuna, ou a natureza, destes dois contrários. Por isso nasce o Riso na boca, como eloquente, e o Pranto nos olhos, como mudo.”
Padre Antônio Vieira (1608-1697)

17 de julho de 2014

Os iluminados e os tenebrosos

Louis Marie de Schryver
“Sois vós um daqueles a quem se chama feliz? Pois bem, vós estais tristes todos os dias. Cada dia tem uma grande amargura e um pequeno cuidado. Ontem tremíeis pela saúde de alguém que vos é caro, hoje receais pela vossa; amanhã será uma inquietação de dinheiro, depois a diatribe de um caluniador ou a infelicidade de um amigo, mais tarde o mau tempo que faz, qualquer coisa que se quebrou ou se perdeu, uma vez um prazer que a vossa consciência e a coluna vertebral reprovam, outra vez a marcha dos negócios públicos. Isto sem contar as penas de coração. E assim sucessivamente. Uma nuvem que se dissipa e outra que se forma logo. Apenas um dia em cem de plena felicidade e cheio de sol. E sois desse pequeno número que é feliz! Quanto aos outros homens, envolve-os a noite estagnante.
Os espíritos refletidos usam pouco desta locução: os felizes e os infelizes. Neste mundo, evidentemente vestíbulo de outro, não há felizes. A verdadeira divisão humana é esta: os iluminados e os tenebrosos.
Diminuir o número dos tenebrosos e aumentar o dos iluminados, eis o fim. É por isso que nós gritamos: ensino, ciência! Aprender a ler, é alumiar com fogo; toda a sílaba soletrada cintila. De resto, quem diz luz não diz, necessariamente, alegria. Também se sofre com a luz; em demasia queima. A chama é inimiga da asa. Queimar-se sem deixar de voar, é o prodígio do gênio.
Quando conhecerdes e quando amardes, sofrereis ainda. O dia nasce em lágrimas. Os iluminados choram quando mais não seja sobre os tenebrosos”.
Victor Hugo (1802-1885), in 'Os Miseráveis'