30 de junho de 2014

Pôr-do-sol

Egidio Antonaccio
- Um dia eu vi o sol se pôr quarenta e três vezes!
E um pouco mais tarde acrescentaste:
- Quando a gente está triste demais, gosta do pôr-do-sol...
- Estavas tão triste assim no dia dos quarenta e três?
Mas o principezinho não respondeu.


Antoine de Saint-Exupèry (1900-1944),
in " O pequeno Príncipe"

Respingos

Alex Alemany
E quando a chuva caía
eu ia com a enxurrada
ia beirando a calçada
descia junto com a flor
e ria a risada d'água
aquela alegria d'água
brincava que era a flor
mas depois sentia frio
lembrava-me então do rio
da flor que o rio levou
e os meus olhos choviam
eu era como a enxurrada
fui ficando poça d'água
que o tempo choveu
chorou...

Líria Porto

29 de junho de 2014

Amor Líquido

Dorina Costras
As pessoas garantem que seu desejo, paixão objetivo sonho é “relacionar-se”. Mas será que na verdade não estão preocupados principalmente em evitar que suas relações acabem congeladas e coaguladas?
Afinal, que tipo de conselho eles querem de verdade: como estabelecer um relacionamento ou – só por precaução – como rompê-lo sem dor e com a consciência limpa?
Zygmunt Bauman
Amor Líquido sobre a "Fragilidade dos Laços Humanos"

O Apóstolo Paulo e sua Condescendência com a Escravidão

Chen Yongle
“Escravos, obedecei em tudo a vossos senhores terrenos, não servindo só na presença, como quem busca agradar a homens, mas com sinceridade de coração, temendo a Deus. Tudo o que fizerdes, fazei-o do bom coração, como para o Senhor e não para os homens. Sabeis que recebereis como recompensa, a herança das mãos do Senhor. Servi ao senhor Jesus Cristo. Quem fizer injustiça receberá o pagamento do que fez injustamente, porque em Deus não há distinção de pessoas”
(Epístola de Paulo aos Colossenses, 3: 22-5).
Assim se conclui que Paulo, autor desta epístola, tal como a cultura vigente na época, aceitava e apoiava a escravidão. Em momento nenhum lhe parece ser uma prática indigna e injusta.
Agora, que deus é este que é condescendente com a escravidão e castiga o escravo desobediente?!

28 de junho de 2014

Onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus?

Vincent Van Gogh
“Agora, que mais idoso me vejo, e quanto mais remoto aquilo reside, a lembrança demuda de valor – se transforma, se compõe, em uma espécie de decorrido formoso. Consegui o pensar direito: penso como um rio tanto anda: que as árvores das beiradas mal nem vejo…
Quem me entende? O que eu queira. Os fatos passados obedecem à gente; os em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável?
Não. Esse obedece igual – é o que é. Isto, já aprendi. A bobeia? Pois, de mim, isto o que é, o senhor saiba – é lavar ouro. Então, onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus, a lisa e real verdade?
João Guimarães Rosa (1908-1967)
Grande Sertão: veredas

27 de junho de 2014

Mundos Infinitos

Igor Sansonov
A cada instante a voz do amor nos circunda
e partimos em direção ao céu profundo;
por que deter-se a olhar ao redor?
Já estivemos antes por esses espaços
e até os anjos os reconhecem.
Retornemos ao mestre, que é lá nosso lugar
Estamos acima das esferas celestes,
somos superiores aos próprios anjos
Além da dualidade nossa meta é a glória suprema
Quão distante está o mundo terreno
do reino da pura substância?
Por que descemos tanto?

Jalaludin Rumi (1207-1273)

26 de junho de 2014

O Encoberto

Serge Averbukh
Que símbolo fecundo
Vem na aurora ansiosa?
Na Cruz Morta do Mundo
A Vida, que é a Rosa.

Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa que é o Cristo.

Que símbolo final
Mostra o sol já desperto?
Na Cruz morta e fatal
A Rosa do Encoberto.

Fernando Pessoa (1888-1935)

Os nossos erros e o nosso destino

Lesya Nedzelskaya
“Apercebo-me dos meus erros, mas não os corrijo. Isso só confirma que podemos ver o nosso destino, mas somos incapazes de o mudar. Apercebermo-nos dos erros é reconhecer o destino, e a nossa incapacidade para os corrigirmos é a força do destino. Apercebermo-nos dos erros é um castigo pesado. Seria muito mais fácil considerarmo-nos bons e culparmos os outros todos, encontrando consolação na ilusão da vitória sobre o destino. Mas mesmo essa felicidade não me é dada”.
Alexander Puschkine (1799-1837)

25 de junho de 2014

Passos bons na vida

Pál Szinyei Merse
No pensar, clareza
No sentir, cordialidade,
No querer, prudência:
Almejando-as
Posso então esperar,
Que eu corretamente
Possa encontrar-me
Nas trilhas da vida
Diante de corações humanos
No âmbito do dever.
Pois clareza
Provém da luz da alma,
E cordialidade
Contém o calor espiritual,
Prudência
Intensifica a força da vida.
E tudo isso,
Em confiança em Deus anseia,
Em caminhos humanos conduz
A passos bons e seguros na vida.

Rudolf Steiner (1861-1925)

Se ela soubesse ler

Cartão postal, anúncio inglês para uma marca de chá.
Se ela soubesse ler — que bom seria!
Que bom! com que prazer
E comoção meus madrigais leria,
Se ela soubesse ler!

Se soubesse escrever – oh! que alegria
Não havia de ser!
Que páginas de amor me escreveria
Se soubesse escrever!

Mas quantas outras, quantas, não podia
De estranha procedência receber!
E então – que horror! Que grande horror seria,
Podia a todas elas responder,

Permita o justo céu que a desalmada,
Que assim me soube o coração prender,
Aprenda a amar-me apenas, e mais nada,
Porque mais nada lhe convém saber…

Agenor Silveira (1880-1953)

24 de junho de 2014

Cantadeiras

Jean-Baptiste Debret - Vendedores de palmito e de samburás
Vendedor de mel de engenho
Vem voltando vem com cinco
Canequinhos pendurados
Nos grandes bules de zinco.

Vendendo vem mel de engenho
Que se come com farinha,
Que se bebe dissolvido,
Nas águas da fontainha.

Ao seu lado caminhando
Também vem o farinheiro
Que fugiu de Muribeca
Sem recurso, sem dinheiro.

É farinha de mandioca
Da mais branca, da mais limpa,
Que misturada com mel,
Dá gosto mesmo supimpa.

E os dois vêm juntos, bem juntos
E todo o cuidado tem
Pois se não há precaução
Não há mel para ninguém.

Joaquim Cardoso (1897-1978)

23 de junho de 2014

O Pássaro de Fogo

Jean-Louis-Cesar Lair
Tu vieste como um pássaro
E pousaste no meu ombro
E eu fui habitada
Pela paixão da entrega.

Eu te amei antes que tu existisses
Como o deserto que tem sede de água
E as flores tem sede da luz
E te amei como a pedra ama a terra
Que lhe dá sua força.

Com teu bico colocaste na minha mão esquerda
A semente da morte
E na direita a semente da vida
Para que com as duas juntas
Eu fizesse a escolha de cada momento
Ligando o instante à sua profundidade eterna.

Pássaro de fogo
Capaz de queimar sem consumir
Estás dentro de mim.

Pássaro de fogo
Irei onde tuas asas me conduzirem
E meu caminho se tornou incandescente
Como teus olhos.

Rose Marie Muraro (1930-2014)

O Cartógrafo

Mapa antigo, Janssonius, América do Sul
No azul desse mar distante
Porei uma nau feito as que de lá me trouxeram novas
De serpentes entre as algas
Que à sombra dos mastros igualmente vou desenhando
E ainda uma diurna costa com verdes palmas,
Flores rubras, pássaros e lagartos
Que sejam ornamento e nos fale da estranheza.
E porei, além, uma póvoa de aborígenes
E mais além, porque tudo ignoramos,
Cumpre-me deixar a carta em branco,
Sem palavras nem contornos,
Tão-só indagação, casta e silenciosa,
Como a do papel em que escrevo.

José Paulo Moreira da Fonseca (1922 -2004)

22 de junho de 2014

Folhas

Edward Cucuel
Repara: sem vento as folhas
são como o sono apenas.
Corpos ao relento,
que da morte se esquecem.

Albano Martins

A importância da História

“O passado se torna história, em nossa época,
a um ritmo alucinante:
a história corre atrás de nós, esta em nossos calcanhares”.
Ciro Flamarion Cardoso (1942-2013)

Vincent van Gogh
“A luta do homem contra o poder
é a luta da memória contra o esquecimento”.
Milan Kundera

“Os textos, ou os documentos arqueológicos,
mesmo os mais claros em aparência e os mais complacentes,
não falam senão quando se sabe interroga-los”.
Marc Bloch (1886-1944)

“Cada historiador faz um recorte
diferente na história. O recorte
depende em parte dos seus propósitos.
A variedade de abordagens enriquece nossa compreensão”.
Emília Viotti

21 de junho de 2014

Hino Fonte da Vida

Carybé
“Eu sou a fonte da vida. Do meu corpo nasce a terra. Na minha boca floresce a palavra que será. Eu sou aquele que disse: “Os homens serão unidos se a terra deles nascida for pouso a qualquer cansaço”. Eu odeio os que se amontoam. Eu dei aos esquecidos que não provam desse vinho, o hino das multidões. É deles que nasce a terra. E são a fonte da morte. Força, amor, trabalho e paz. E se o amor se desperdiçar, e se a força esmorecer, e se o trabalho parar e a paz for gozo de poucos. Eu sou aquele que disse: “Eu sou a fonte da vida”. Não conte o segredo aos grandes e sempre renascerá força, amor, trabalho e paz”.
Mário de Andrade (1893-1945)

É assim, a música

David Allan
A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação
– sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

20 de junho de 2014

Ritmo

G. Greken
O ritmo
do universo
cabe,
inteiro,
na pupila
dum verso.

Albano Martins

Djanira, de boia-fria a uma das maiores pintoras do país

Djanira em seu ateliê
Djanira da Motta e Silva (Avaré, 20 de junho de 1914 — Rio de Janeiro, 31 de maio de 1979) foi uma pintora, desenhista, ilustradora, cartazista, cenógrafa e gravadora brasileira.
Djanira trabalhou em lavoura de café, em criação de gado, em cozinha de família, foi modista, chapeleira e costureira antes de tocar num pincel pela primeira vez quando, aos 23 anos, em 1937, internada num sanatório para se tratar de tuberculose, viu na parede um desenho de Jesus Cristo e brincou: “Isso até eu faço”.
A Fazenda
Saiu do hospital para morar em Santa Teresa e lá abriu uma pensão. Assim, vivia de costurar para damas cariocas e alugar quartos para artistas — mas se fechava na cozinha à noite, quando todos dormiam, para desenhar. Aos poucos, em seu ateliê de costura, moldes de saias, rendas, fitas e retalhos conviviam com incontáveis desenhos sobre papel.
Num depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS) em 1967, ela se lembrou daquele tempo: “Uma moça da Suíça francesa me pediu para lhe fazer um vestido, chegou ao meu ateliê, viu aquela porção de desenhozinhos na parede e perguntou: ‘De quem são?’. Eu disse: ‘São meus’. Ela: ‘Não, eu quero saber quem fez’. Eu disse: ‘Fui eu’. E ela: ‘Então você é uma artista!’. Eu falei: ‘Não, isso é brincadeira minha’”.
A moça lhe apresentou o pintor Emeric Marcier (1916-1990), que, diante dos desenhos de Djanira, manteve o diagnóstico: “Você é artista”. Ela reclamou: “Não queria que ninguém me chamasse de artista. Achava que, para ser artista, tinha que saber muita coisa que eu não sabia. Artista, para mim, era sagrado”.
Djanira faria 100 anos. Morreu em 1979, “sagrada”, com uma extensa obra em pintura e comparada, por críticos de arte, a Alfredo Volpi e a Heitor Villa-Lobos — em 1948, o crítico Rubem Navarra diria: “Vemos uma Djanira suburbana e requintada, um processo psicológico parecido ao da música de Villa-Lobos, que, partindo do chorinho, encontrou um dia a técnica de Bach”.
Sua obra está concentrada no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio, dono do maior acervo da artista, com 814 obras. A coleção Gilberto Chateaubriand tem 16 pinturas, e o Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, outras quatro.

19 de junho de 2014

O verdadeiro sentido da vida

Janet Hill
Só um guerreiro pode suportar o caminho do conhecimento.
Um guerreiro não se queixa nem se lamenta de nada,
não acha que os desafios são bons ou maus.

Os desafios são simplesmente desafios.

Carlos Castañeda (1925-1998)

Amor mais poderoso que a vida

Kinuko Y.Craft
A mesma qualidade que o sol no teu país,
a sair entre as nuvens:
alegre e delicado matiz numas folhas,
fulgor num vidro, modulação
do apagado brilho da chuva.

A mesma qualidade que a tua cidade,
tua cidade de vidro inumerável
idêntica e diferente, mudada pelo tempo:
ruas que desconheço e praça antiga
de pássaros povoada,
a praça em que uma noite nos beijámos.

A mesma qualidade que a tua expressão,
ao cabo dos anos,
esta noite ao fitar-me:
a mesma qualidade que a tua expressão
e a expressão ferida de teus lábios.

Amor que tem qualidade de vida,
amor sem exigência de futuro,
presente do passado,
amor mais poderoso do que a vida:
perdido e encontrado.
Encontrado, perdido...

Jaime Gil de Biedma (1929-1990)
Tradução: José Bento

18 de junho de 2014

Não voltarei a ser jovem

Luc Olivier Merson
Que é certo a vida passa
só se começa a compreender mais tarde
– como todos os jovens, decidi
levar a minha vida por diante.

Deixar marca eu queria
e partir entre aplausos
– envelhecer, morrer, eram somente
as dimensões do teatro.

Porém passou o tempo
e a verdade mais amarga assoma:
envelhecer, morrer,
é o argumento único da obra.

Jaime Gil de Biedma (1929-1990)
Tradução: José Bento

O Gol

A esfera desce
do espaço
veloz
ele a apara
no peito
e a para
no ar
depois
com o joelho
a dispõe
a meia altura
onde
iluminada
a esfera
espera
o chute que
num relâmpago
a dispara
na direção
do nosso
coração.

Ferreira Gullar

17 de junho de 2014

Voltas e Mortes Glosados

Vladimir Volegov
Não posso dizer que não,
Não posso dizer que sim.

VOLTA
Senhora, pois que podeis
Dizer que não, ou que sim,
A ambos não magoeis:
Dizei — sim, mas não a ele;
Dizei — não, mas não a mim.

OUTRAVOLTA
Senhora, que amor é esse,
Ou que nova sem-razão!
Que se eu vos pergunto — sim?
Respondeis-me sempre — não!

Senhora, é isso paixão?
Oh! que o é, mas não por mim;
Que quando vós dizeis — sim,
Um não quisera eu então!

Já nem sei que bem vos queira,
Nem que mais querer vos possa;
Sede antes vossa que dele,
Sede antes minha que vossa.

Gonçalves Dias (1823-1864)

Paragem-Paraíso

John Parker
Uma noviça toma o céu

Quis ir para um lugar
Onde não falte fonte,
Nem grasse gelo áspero e bifronte;
Só lírios para olhar.

Pedi para ficar
Onde o vento não ouse,
Silente, a verde vaga ao porto pouse;
Longe, o clamor do mar.
Gerard Manley Hopkins (1844-1889)
Tradução: Augusto de Campos

16 de junho de 2014

Suspensão

Pablo Picasso
Fora de mim, fora de nós, no espaço, no vago
A música dolente de uma valsa
Em mim, profundamente em mim
A música dolente do teu corpo
E em tudo, vivendo o momento de todas as coisas
A música da noite iluminada.
O ritmo do teu corpo no meu corpo...
O giro suave da valsa longínqua, da valsa suspensa...
Meu peito vivendo teu peito
Meus olhos bebendo teus olhos, bebendo teu rosto...
E a vontade de chorar que vinha de todas as coisas.

Vinícius de Moraes (1913-1980)