30 de maio de 2014

Grandes

Ludwig Thiersch
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida.

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.
Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ter que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado
sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.
Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.

Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Álvaro de Campos
Fernando Pessoa (1888-1935)
✿¸.◦*´`✿ "✿¸.◦*´`✿ "✿¸.◦*´`✿ "✿¸.◦*´`✿

Um minuto

Christian Schloe
Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro
podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor
está o sentimento de um pelo outro,
e hão de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles.

Walt Whitman (1819-1892)

Juramento

Alice Mason
Eu juro pelo mal que me fizeram
pela revolta que me açula o brio;
pelas angústias que em meu peito geram
cataclismas fatais de mar bravio...

Eu juro pela paz que me negaram,
pelos desejos bons que sempre tive,
pelos espinhos que me acompanharam,
pela tristeza que comigo vive;

Eu juro pelo amor - jamais avaro,
que semeando eu andei pelo caminho;
pela glória que me custou tão caro,
e pelo meu excesso de carinho...

Por esse céu de inverno triste e escuro
e essas folhas rolando pelas ruas,
por tudo o que me faz sofrer, eu juro
que estou morrendo de saudades tuas.

Yde Schloenbach Blumenschein

29 de maio de 2014

Ano Novo

Soo Hyun
“Esqueçamos as tristezas do passado e tomemos a decisão de não continuar com elas no Ano Novo. Com determinação e vontade inabaláveis, renovemos nossas vidas, nossos bons hábitos e nossos êxitos. Se o ano que passou foi desesperadamente ruim, o Ano Novo será esperançosamente bom”.
Paramahansa Yogananda (1893-1952)

Reflexão:

Vladimir Kush
“Com a minha experiência aprendi pelo menos isso: que se uma pessoa avançar confiantemente na direção de seus sonhos, e se esforçar por viver a vida que imaginou, há de se encontrar com um sucesso inesperado nas horas rotineiras. Há de deixar para trás uma porção de coisas e atravessar uma fronteira invisível; leis novas, universais e mais abertas começarão por se estabelecer ao redor e dentro dela; ou as leis velhas hão de ser expandidas e interpretadas a seu favor num sentido mais liberal, e ela há de viver com a aquiescência de uma ordem superior de seres. A medida que ela simplificar a sua vida, as leis do universo hão de lhe parecer menos complexas, e a solidão não será mais solidão, nem a pobreza será pobreza, nem a fraqueza, fraqueza. Se construístes castelos no ar, não terá sido em vão vosso trabalho; eles estão onde deviam estar. Agora colocai os alicerces por baixo”.
Henry David Thoreau (1817-1862)
********************************
Walden - A Vida nos Bosques
Tradução: Astrid Cabral
********************************

27 de maio de 2014

Ode à Alegria

Catherine Andrews
Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!

Alegre, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.
Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

Alegremente, como seus sóis corram
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.

Alegre, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões se deprimem diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora.

Friedrich von Schiller (1759-1805)

(Ode à Alegria, de Friedrich von Schiller, que inspirou a Nona Sinfonia de Ludwig von Beethoven e foi, em 1985, adotado como símbolo da União Européia)

Vemos o que somos

Holly Sierra
“Nós não vemos o que vemos,
nós vemos o que somos.
Só veem as belezas do mundo,
aqueles que têm belezas dentro de si”.

Rubem Alves
********************************

Educação

James Clark
"A primeira tarefa da educação deveria ser ensinar a VER...
É através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo... Os olhos tem que ser educados para que nossa alegria aumente. A educação se dividiria em duas partes: a educação das HABILIDADES e a educação das SENSIBILIDADES. Sem a educação das sensibilidades, todas as habilidades são tolas e sem sentido, pois os conhecimentos nos dão meios para viver, mas a sabedoria nos dá RAZÕES para viver..."
Rubem Alves

26 de maio de 2014

À Espera

Valeri Tsenov
Ainda um dia hei de contar-te as espantosas
coisas de que me lembro quando fico à tua espera
horas e horas, cada vez mais vagarosas,
e tu não chegas, meu amor, e tu demoras
mais do que a minha paciência. Quem me dera
aquele tempo em que era sempre primavera
e assistia indiferente à passagem das horas.

Mas, quando chegas, só me ocorre esquecer tudo
e ter-te uma vez mais como quem tem o mundo.

Torquato da Luz

Girassol

Valeri Tsenov
Girassol que na retina
Da planície se dissolve.
És a cor mais repentina
Da aragem que te envolve.

Girassol que só te viras
Ao que não te fica perto
E só giras porque giras
Sobre o teu eixo secreto.

Girassol que sem volume
Volume que sem contorno
No despegar-se resume
Só a pressa do retorno.

Natália Correia (1923-1993)

25 de maio de 2014

Ser giuiado pela poesia

Amanda Robbins
“Hoje de novo sigo a senda
Para a vida, o varejo, a venda,
E guio as hostes da poesia
Contra a maré da mercancia”.

Vielimir Khlébnikov (1885-1922)
Tradução: Augusto de Campos

Saudade

Richard S.Johnson
De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?
De quem é esta saudade, de quem?
Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo…
E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo…
De quem é esta saudade que sinto quando me vejo?
Gilka Machado (1893-1980)

24 de maio de 2014

O Sofrimento

Christian Schloe
“E é nisto que se resume
o sofrimento:
cai a flor, — e deixa o perfume
no vento”.

Cecília Meireles (1901-1964)

O Barco

Christian Schloe
Quando existe espaço pro delírio
o cavalo de todo beijo contém mil bocas
quando existe espaço pro sonho
minha boca se refaz no teu mais novo extrato
quando existe espaço pra amar
o pranto me recomenda
quando existe espaço pro verbo
inventam alvenaria, o marco, o socorro
quando existe espaço pra você
te pergunto: onde compraste tuas coxas?
espaço, delírio, sonho, amar, verbo, você
e a conclusão é irresoluta:
só existe o barco
meia roda no horizonte
de fim e de inícios.

Antonio Calloni

23 de maio de 2014

Exijo expectativa

Photo by Alex Keen
A cada manhã, exijo ao menos
a expectativa de uma surpresa,
quer ela aconteça ou não.
Expectativa, por si só, já é um entusiasmo.
Quero que o fato de ter uma vida prática
e sensata não me roube o direito ao desatino.

Martha Medeiros

Velhice e gôzo

Van Gohg
As mulheres me dizem: – Anacreonte,
Toma um espelho e olha-te!
Velho! Nem tens cabelos nessa fronte!...
Vês? O tempo desfolha-te.

Se eu tenho ou não a fronte encalvecida,
Não sei. Velho, porém
Sei que, ao fim do destino, mais a vida
Deve gozar-se – e bem!

Anacreonte (563-478 a.C.)
Tradução: Almeida Cousin

22 de maio de 2014

Esquece o mundo e comanda o mundo

Carl Frederik Peder Aagaard
Esquece o mundo e comanda o mundo.
Seja a lâmpada,
o barco salva-vidas,
a escada.

Saia de sua casa e, como o pastor,
ajuda a curar a alma do teu próximo.
Entra no fogo espiritual
e reduza-te a cinzas.

Seja o pão bem assado,
seja o senhor da mesa.
Vem, sacia teus irmãos.
Tu, que tens sido a fonte da dor,
seja agora o deleite.

Viveste como uma casa sem alicerces.
Seja agora o Um que perscruta
o interior do invisível.

Assim que me calei,
uma voz chegou aos meus ouvidos:
"Se te tornas isto, serás aquilo".

Silêncio!
E depois, mais silêncio.
Não uses a boca para falar.
A boca é para provar dessa doçura.

Jalaludin Rumi (1207-1273)
Tradução: Luciana Aires Mesquita

21 de maio de 2014

Poesia

Alla Tsank
O poeta busca o verso mágico – aquele cujo sentido seja a ele mesmo misterioso, logo, tal que o verso se conserve e se repita.
Se um verso produz um sentido exato – isto é, que possa ser traduzido, seja por outra expressão, seja por uma representação única – esse verso é abolido por esse sentido.
Paul Valéry (1871-1945)

Transformar o passado e orientar o futuro

Helena Abreu
Quando o passado era o presente, tinha todo o poder.
Agora, que é passado, está subordinado ao presente,
e é o presente que tem voto na matéria.
O passado foi-se e o futuro há de vir.
Cabe ao presente impor a sua vontade
para transformar o passado e orientar o futuro.
Omraam Mikhaël Aïvanhov (1900-1986)

20 de maio de 2014

Patrimônio Histórico

Casa de Chico Mendes
“Há que se reverenciar e defender as capelinhas toscas, as velhices dum tempo de luta e os restos de luxo esburacado que o acaso se esqueceu de destruir”.
Mário de Andrade (1893 -1945)

Eu penso em ti

Daryl Urig
Eu penso em ti nas horas de tristeza
Quando rola a esperança emurchecida
Nas horas de saudade e morbidez
Ai! Só tu és minha ilusão querida
Eu penso em ti nas horas de tristeza.

Vê quanta sombra me escurece o seio!
Que palidez sombria no meu rosto!
Tu és a única luz da treva em meio
Tu és a minha estrela do sol posto…
Contigo a sombra não me tolda o seio.

Quando a teus pés o meu viver escoa,
Esqueço a minha sorte, o meu martírio,
Minh’alma como a pomba em sangue voa
Para ir se abrigar à tua, ó lírio,
Quando a teus pés o meu viver escoa …

Bendito o riso desses lábios úmidos!
Bendito o meigo olhar tão peregrino!
Como o sol abre a flor nos campos úmidos
Crenças desperta o teu divino olhar…
E o riso, o riso desses lábios úmidos

Ai! volve! volve peregrina estrela…
Minh’alma é o templo de um amor suave
À tua espera o lampadário vela…
À tua espera perfumou-se a nave…
Ai! volve! volve peregrina estrela!

Castro Alves (1847-1871)

19 de maio de 2014

Mudanças

Alla Tsank
Sei das mudanças, sim
Sei que mudei

A quem pertence este rosto inexpressivo
Tristonho e largo, redondo
Suspenso no papel
como se avistado num telescópio

uma lua granulosa

Levanto-me da cadeira
Repudio a gravidade
Viro-me
e saio para o jardim

Revolvo os vegetais
A minha cabeça pesada
A refletir o sol
Sombras nas cavadas ravinas
Abertas nas minhas faces, nas
Duas crateras dos meus olhos

Entre os caminhos
Traço a minha órbita
As macieiras brancas
Brancas estrelas
Revolteando em meu redor

A ser devorada
Pela luz.

Margaret Atwood

18 de maio de 2014

Uma flor ensina sem palavras

Don Paulson
Brotos desabrocham em silêncio
E caem em silêncio.
Nunca retornam aos seus galhos.
Mas até este momento,
Neste lugar, eles aventuram suas vidas.
Ouça as vozes dos brotos.
Um broto no galho revela a verdade para nós.
A alegria da vida imortal
Faísca aqui sem remorso.

Shibayama Zenkei Roshi (1894-1974)

A potência criadora

George Corominas
“A potência criadora surge quando estamos livres da servidão do anseio, com o seu conflito e seus pesares. Pelo abandono do “eu”, com sua positividade e crueldade, com suas lutas incessantes por vir a ser, surge a Realidade criadora. Na beleza de um pôr de sol ou de uma noite calma, já não sentistes uma alegria intensa e criadora? Num momento desses, estando o “eu” temporariamente ausente, ficais suscetíveis, abertos à Realidade. Essa é uma ocorrência rara, não buscada, independente de nossa vontade, mas o “ego”, havendo-a provado uma vez, em toda a sua intensidade, quer continuar a deleitar-se com ela, e por isso começa o conflito”.
Jiddu Krishnamurti (1895-1986)

17 de maio de 2014

Reflexões:

Josephine Wall
“Venda sua habilidade. Compre perplexidade”.
Jalal al-Din Rumi

“A fé é um pássaro que pressente o raiar do dia
e canta enquanto ainda está escuro”.

Rabindranath Tagore

“As estrelas são os olhos de quem morreu de amor.
Ficam-nos contemplando de cima
a mostrar que só o Amor concede eternidades”.

Mia Couto

A palavra

Edward Cucuel
Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

16 de maio de 2014

Haikai

Walter Crane
Partem os barcos -
Como ficam distantes
Os dias de outono!

Yosa Buson (1716-1783)

Tempo do Homem

Gaelyn Larrick
A partícula cósmica que navega em meu sangue
é um mundo infinito de forças siderais.
Veio a mim através de um longo caminho de milênios
quando, talvez, fui areia para os pés de vento.

Logo, fui madeira, raiz desesperada
fundida no silêncio de um deserto sem água.
Logo, fui caracol quem sabe aonde.
E os mares me deram a primeira palavra.

Depois, a forma humana despejou sobre o mundo
a universal bandeira do músculo e da lágrima.
E brotou a blasfêmia sobre a velha terra
e o açafrão, e o trigo. A árvore e as pradarias.

Então vim à América para nascer um homem
e a mim se juntou o pampa, a selva e a montanha.
Sim, um velho da planície galopou até minha origem
outro me disse histórias em sua flauta de cana.

Eu não estudo as coisas nem pretendo entendê-las
as desconheço, é certo, pois antes vivi nelas
converso com as rochas em meio aos montes
e me dão sua mensagem as raízes secretas.

E assim vou pelo mundo, sem idade nem destino
ao lado de um cosmo que caminha comigo.
Amo a luz e o rio e o caminho, e a estrela.
E floresço em guitarras porque fui a madeira.

Atahualpa Yupanqui (1908-1992)
Tradução: Dércio Marques.