30 de abril de 2014

A Exceção e a Regra

Wassily Kandinsky
“Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso.
Mas não se esqueçam
de que o abuso é sempre a regra”.

Bertolt Brecht (1898-1956)

O Príncipe

Daniel F.Gerhartz
“Nasce daí uma questão: É melhor ser amado do que temido, ou o contrário? Responde-se que se quer ser tanto um quanto o outro. Mas como é difícil reuni-los, é muito mais seguro ser temido do que amado, no caso de ser preciso renunciar a um dos dois. Geralmente, pode-se dizer que os homens são ingratos, volúveis, mentirosos, traiçoeiros, covardes, ávidos por dinheiro. Se lhes fazes o bem, todos estão contigo. Oferecem-te o sangue, as coisas, a vida, os filhos, como disse antes, quando a necessidade está longe de ti. Mas quando a necessidade chega perto, eles se rebelam. E o príncipe que havia se baseado completamente nas palavras deles, se não tiver outras defesas, arruína-se. Pois as amizades que se conquistam com dinheiro e não com grandeza e nobreza de alma não são certas, não podem ser usadas. Os homens têm menos pudor em ofender alguém que se faça amar do que alguém que se faça temer. O amor é mantido por um vínculo de obrigação, que os homens, sendo malvados, rompem quando melhor lhes servir. Mas o temor é mantido pelo medo de ser punido, o que nunca termina”.
Nicolau Maquiavel (1469-1527)
"O Príncipe"

29 de abril de 2014

Amor

Henry Thomas Alken
“Quer realmente amar um pássaro?
Comece por abrir a porta da gaiola.
A liberdade é um passo inicial.
Só depois o amor pode acontecer”.

Carlos Kaliban

Aprenda a ser ímpar.

Sam Toft
“Mesmo enquanto se empenha em melhorar, aprenda a ser ímpar, confiante em suas próprias virtudes e em seu próprio valor. Se quer que os outros creiam em você, lembre-se: não são apenas as suas palavras que produzem efeito, mas sim o que você é e o que você sente interiormente – o que está em sua alma. Procure ser sempre um anjo no seu interior, não importa como os outros ajam. Seja sincero, gentil, afetuoso e compreensivo”.
Paramahansa Yogananda (1893-1952)

28 de abril de 2014

Comparar-te a um Dia de Verão?

Paul Detlefsen
Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.
Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;
e, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te verá respirar na minha lira.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Carlos de Oliveira

Aceita o Universo

Van Gohg
Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.

Se há outras matérias e outros mundos
Haja.
Alberto Caeiro
Fernando Pessoa (1888-1935)

27 de abril de 2014

Haikai

Paul Klee
O corpo é um caminho:
ponte, e neste efêmero abraço
busco transpor o abismo.

Thiago de Mello

Esforce-se para ser positivo

Henry Scott Tuke
“Esforce-se para ser positivo, para ser alegre, ser feliz. Eu prometo a você que, se você fizer isso, encontrará o bem vindo em sua direção, porque o pensamento tem poder de atração. Se nossos pensamentos são habitualmente negativos, atraímos circunstâncias negativas. Se vivemos e pensamos positivamente, atraímos resultados positivos. É tão simples quanto isso: semelhante atrai semelhante”.
Sri Daya Mata (1914-2010)

26 de abril de 2014

Amigo

James Hayllar
“O amigo é a resposta aos teus desejos. Mas não o procures para matar o tempo! Procura-o sempre para as horas vivas. Porque ele deve preencher a tua necessidade, mas não o teu vazio”.
Khalil Gibran (1883-1931)

Creio

Roy Lichtenstein
“Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é étero num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível,
nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o Amor tem asas de ouro.
Amém”.

Natália Correia (1923-1993)

25 de abril de 2014

Reflexão

Winslow Homer
“Trabalhos bem humildes, é o que eu e você devemos fazer. Pois há muitas pessoas que podem fazer grandes coisas. Mas há muito poucas pessoas que farão as pequenas coisas”.
Madre Teresa de Calcutá (1910-1997)

Os dois irmãos

Johann Georg Meyer von Bremen
Eu conheço dois meninos
que em tudo são diferentes.
Se um diz: “Dói-me o nariz!”
o outro diz: “Ai, meus dentes!”

Se um quer brincar em casa,
o outro foge para o monte;
e se este a casa regressa,
já o outro foi para a fonte.

É difícil conviver
com tanta contradição.
Quando um diz: “Oh, que calor! ”,
“Que frio!” - diz o irmão.

Mas quando a noitinha chega
com suas doces passadas,
pedem à mãe que lhes conte
< histórias de Bruxas e Fadas.

E quando o sono esvoaça
por sobre o dia acabado,
dizem “Boa noite, mãe!”
e adormecem lado a lado.

Maria Alberta Menéres

24 de abril de 2014

Carência

Helen Illichova
“Buscamos, no outro, não a sabedoria do conselho,
mas o silêncio da escuta; não a solidez do músculo,
mas o colo que acolhe”.

Rubem Alves

Vidro Côncavo

Bernard Louedin
Tenho sofrido poesia
como quem anda no mar.
Um enjoo.
Uma agonia.
Saber a sal.
Maresia.
Vidro côncavo a boiar.

Doi esta corda vibrante
A corda que o barco prende
à fria argola do cais
Se uma onda que a levante
vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais.

António Gedeão (1906-1997)

23 de abril de 2014

Espiritualize seu pensar

Albert Bierstadt
“Quando você espiritualiza o seu pensar, sua mente fica sempre absorta em sublimes pensamentos, o que não significa que seus pés não estejam no chão ou que você descuide de suas responsabilidades”.
Sri Daya Mata (1914-2010)

Soneto imperfeito da caminhada perfeita

Paul Klee
Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas,
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Sidónio Muralha (1920-1982)

22 de abril de 2014

Versos e Reversos

Carl Larsson
Quanto mais perto da morte
mais a vida se intensifica
Quanto mais perto da noite
mais o Sol eterno brilha

Quanto mais perto do pânico
mais a calma se acomoda
Quanto mais perto do pranto
mais o riso forte ecoa

Quanto mais perto do amor
mais o ódio se avizinha
Quanto mais perto do gozo
mais a dor se multiplica.

António Barahona

21 de abril de 2014

As falsas Recordações

Sophie Gengembre Anderson
Se a gente pudesse escolher a infância que teria vivido,
com que enternecimento eu não recordaria agora aquele
velho tio de perna de pau, que nunca existiu na família,
e aquele arroio que nunca passou aos fundos do quintal,
e onde íamos pescar e sestear nas tardes de verão,
sob o zumbido inquietante dos besouros...

Mario Quintana (1906-1994)

Pensamento

Robert Walker Macbeth
“Será que os absurdos não são as maiores
virtudes da poesia?
Será que os despropósitos não são mais
carregados de poesia do que o bom senso?”
Manoel de Barros (1916-2014)

20 de abril de 2014

Palavras

Charles James Lewis
Criar impactos
com
palavras
Pérolas
deslizando
na correnteza
Como barcos
me transportam
aonde nenhuma viagem chega
e eu colho frutos raros
Nesta ilha – entre
pedras – ressuscito
Com o fôlego
das
palavras.

Eunice Arruda

Erro

Egon Spengler
Edifiquei minha
casa sobre a
areia

Todo dia recomeço.

Eunice Arruda

19 de abril de 2014

A Cidade

Egon Schiele
A cidade é um chão de palavras pisadas
A palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
A palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco. Um pulmão que respira
Pela palavra água pela palavra brisa.
A cidade é um poro um corpo que respira
Pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem ruas de palavras abertas
Como estátuas mandadas apear.
A cidade tem praças de palavras desertas
Como jardins mandados arrancar.

A palavra esperança é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa-chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
Não há rua de sons que a palavra não corra
À procura da sombra duma luz que não há.
José Carlos Ary dos Santos (1937-1984)

18 de abril de 2014

Fugazes

Domenichino
Sobre a alvura e o vazio da página
voejam ideias e anjos.

Há que puxá-los pelas asas rápidas,
que não se rompa o fio da candura.
Cuidado com o cetim da vestimenta
e o arisco vaga-lume das espáduas.

E há que entretê-los - que não se extraviem
ou se desfaçam a algum ledo engano.
Há que agarrá-los pelas mãos de nuvens,
aprisioná-los nesse escasso armário.

Asas abertas sobre brancas folhas,
voam anjos de túnicas fugazes
trançando em dedos frágeis alguns fios
da vasta cabeleira das palavras.
Ymah Théres (1939-2008)

17 de abril de 2014

Os Ombros Suportam o Mundo

“Segue o teu caminho e deita-te nele apenas para morrer”.
Sidonie Colette (1873-1954)
Sir Edward John Poynter
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Cerimônia do Lava-pés.

Del Parson
A origem da prática pode estar nos costumes referentes à hospitalidade das civilizações antigas, especialmente naquelas onde a sandália (um calçado aberto) era o principal tipo de calçado. O anfitrião, ao receber um hóspede, providencia uma vasilha com água e um servo para lavar-lhe os pés.
Cristo fez isso com humildade. O colocar-se abaixo, considerar uns aos outros superiores a si mesmo.

16 de abril de 2014

Dois Meninos

Giulio del Torre
Meu menino canta, canta
Uma canção que é ele só que entende
E que o faz sorrir.

Meu menino tem nos olhos os mistérios
Dum mundo que ele vê e que eu não vejo
Mas de que tenho saudades infinitas.

As cinco pedrinhas são mundos na mão.
Formigas que passam,
Se brinca no chão,
São seres irreais...

Meu menino d'olhos verdes como as águas
Não sabe falar,
Mas sabe fazer arabescos de sons
Que têm poesia.

Meu menino ama os cães,
Os gatos, as aves e os galos,
(São Francisco de Assis
Em menino pequeno)
E fica horas sem fim,
Enlevado, a olhá-los.

E ao vê-lo brincar, no chão sentadinho,
Eu tenho saudades, saudades, saudades
Dum outro menino...
Francisco Bugalho (1905-1949)