28 de fevereiro de 2014

O Poeta

Carl Spitzweg
À noite, eu muitas vezes não consigo dormir:
a vida dói.
Fico então a brincar com as palavras,
com as boas e as más,
com as gordas e as magras,
e vou nadando pelo espelho do mar delas.
Longínquas ilhas surgem com azuis palmeiras,
da praia sopra um vento perfumado,
na praia um menino cata conchinhas de várias cores,
banha-se em verde cristal uma mulher cor de neve.
Como no mar arrepiam-se as cores,
em minha alma flutuam sonhos-versos:
gotejam de prazer, enrijecem de luto,
bailam, correm, dispersam-se perdidos,
enrolam-se em palavras conformados com essa vestimenta,
interminavelmente vão trocando de som, forma e semblante,
parecem antiquíssimos e contudo cheios de inconsistência,
A maioria das pessoas não entende:
dão por loucura os sonhos e me dão por perdido
– e assim me veem mercadores, jornalistas, professores.
Crianças e mulheres muitas, de outro lado,
sabem de tudo e me amam como eu a elas,
pois também elas estão vendo o caos dos aspectos do mundo
e a elas também a deusa emprestou seu véu.

Hermann Hesse (1877-1962)
Tradução: Geir Campos

27 de fevereiro de 2014

Reflexão

De Scott Evans
“Se alguma situação vier não questione por que ela veio.
Procure não se opor a ela e veja como ela vai embora.
Muitas coisas acontecem inesperadamente ao longo do dia,
mas lembre-se: eu sou aquele com os poderes de um leão.
Preste atenção em manter seu rosto tranquilo,
não se deixe ficar nervoso. Pense assim:
eu tenho que permanecer inabalável como uma montanha,
nada poderá me abater.”
“Poder verdadeiro não é dominação, mas combustível espiritual. É o que faz com que você atue com seu potencial máximo.
Veja como Deus faz com que as coisas sejam feitas através dos filhos. Ele permanece desapegado, mas faz com que tudo seja feito. Deus é o mais elevado nas alturas, o Guru verdadeiro. Ele sabe tudo que há dentro do coração de cada um. Então deixe para trás os frutos amargos do passado e desfrute apenas dos frutos doces que Deus está dando a você. Tome o amor doce de Deus e mantenha apenas isso em seu coração. Torne-se tão fácil que os outros sentirão que é fácil chegar a você. Quando você é fácil os outros sentem leveza na sua presença.”
Dadi Janki

26 de fevereiro de 2014

Oração

Helen M. Turner
Senhor,
numa época de infortúnio,
ouvi Tua voz dizendo:
O Sol da minha proteção
brilha igualmente
nas tuas horas mais brilhantes
e nas mais sombrias.
Tende fé e sorri!
A tristeza é uma ofensa
para com a natureza do espírito,
cheia de bem-aventurança.
Deixa que a Minha Luz,
que transforma a vida,
apareça através da
transparência dos sorrisos.
Se fores FELIZ, meu filho,
Tu me agradas.
“Não é pela concentração em dogmas que poderemos alcançar Deus, e sim pelo verdadeiro conhecimento da alma… Para mim, não existem judeus, cristãos ou hindus; todos são meus irmãos. Eu presto adoração em qualquer templo, pois todos foram construídos em honra de meu Pai”.
Paramahansa Yogananda (1893-1952)

25 de fevereiro de 2014

Desafios

Richard Ramsey
“A vida só é possível através dos desafios.
A vida só é possível quando você tem
tanto o bom tempo quanto o mau tempo,
quando tem prazer e dor;
quando tem inverno e verão, dia e noite;
quando tem tristeza tanto quanto felicidade,
desconforto tanto quanto conforto.
A vida passa entre essas duas polaridades.
Movendo-se entre essas duas polaridades,
você aprende a se equilibrar. Entre essas duas asas,
você aprende a voar até a estrela mais brilhante”.

Rajneesh Chandra Mohan Jain (1931-1990)
Osho

Poema perto do fim

Pieter Bruegel-O triunfo da morte
A morte é indolor.
O que dói nela é o nada
que a vida faz do amor.
Sopro a flauta encantada
e não dá nenhum som.
Levo uma pena leve
de não ter sido bom.
E no coração, neve.

Thiago de Mello

24 de fevereiro de 2014

Concha Vazia

Edward Robert Hughes
Teu coração é uma concha vazia
mergulhado em uma alma indiferente,
onde afoguei meus doces sentimentos;
teu coração nunca tem melodia,
e por mim ele bate lentamente
com dobres sonolentos!

É um altar onde as apagadas piras
de trevas enchem as imagens santas,
o santuário de minha afeição!
É um solitário espaço cheio de iras,
onde derramei outrora meus prantos...
sepultaste a paixão!
Teu coração é uma flor sem perfume,
ele é um jardim sombrio e devastado,
nele sequer uma sombra restou!
Sequer restou uma sombra de ciúme,
para mostrar que neste mundo errado,
alguém tanto me amou!

Como uma concha vazia perdida
nos areais da vida ele anda agora,
encontrado na esperança de ser!
Mas, quem achar essa ilha entristecida,
Também esperará a bela aurora.

Alexandre Campanhola

23 de fevereiro de 2014

Boda espiritual

Friedrich von Amerling
Tu não estás comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
- Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.

O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a...afago-a
Ah, como a minha mão treme...Como ela é tua...

Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra na água.

Gemes quase a chorar. Súplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...

Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...

E te amo como se ama um passarinho morto.

Manuel Bandeira (1886-1968)

22 de fevereiro de 2014

Púrpura

Will H Low
Púrpura – é moda duas vezes –.
Nesta época do ano.
E quando uma alma se percebe.
Como Soberana.

Emily Dickinson (1830-1886)

Soneto ao Silêncio

Michelle Wiarda
Fantástico silencio! Nele existe
um clarão momentâneo: e tudo dorme.
Ai! que a noite irreal, cega e disforme,
ainda o faz mais pungente e amargo e triste!

Fantástico silencio moribundo
aos meus olhos aceso como velas
que iluminassem becos e vielas
pelas cidades pálidas do mundo...

Lá o vejo pender, fruto caído,
lá o vejo soprar contra as muralhas
e recobrir – silencio envelhecido –

o que a noite ocultou, e está perdido...
Lá o vejo oscilar nas cordoalhas
de algum veleiro desaparecido.

Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008)

21 de fevereiro de 2014

Quem das legiões de anjos?

Artemisia Gentilesch
Se gritasse, quem das legiões de anjos escutaria
o grito? E mesmo se, inesperadamente,
um deles me acolhesse no coração: sucumbiria à sua
existência mais forte! Pois o belo não é senão
o princípio do espanto que mal conseguimos suportar,
e ainda assim, o admiramos porque, sereno,
deixa de nos destruir. Todo anjo é espantoso.

E por isso me contenho e refreio o apelo
de um soluço obscuro. Então quem
nos poderia valer? Anjos, não, homens, não,
e os animais inventivos logo se apercebem
de que não nos sentimos muito em casa
no mundo das explicações. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta, para vermos e revermos
todos os dias. Resta-nos a estrada de ontem
e o apelo mimado de um hábito
que por nós se afeiçoou, permaneceu e não foi embora.

E a noite, a noite quando o vento cheio de espaços do mundo
nos desgasta a face - para quem ela não saberia ser
desejo e suave decepção,
ela, cuja proximidade pesa sobre o coração solitário!
Será mais leve para os amantes?
Juntos, eles apenas encobrem um para o outro seu destino.
Ainda não sabias? Lança o vazio aprisionado nos braços
para os espaços que respiramos! Talvez os pássaros sintam,
num voo de maior intimidade, o ar mais amplo.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

20 de fevereiro de 2014

Belle Époque

Cândido Portinari - "Futebol em Brodósqui".
O tempo
Descansava
A janela…

A bola corria
No barro batido
Da rua…

O menino
Despreocupado
Brincava…

Na garagem
O corcel vinho
Do pai…

À porta
O flamboyant
Rubro…

Na escola
Tarefas, recreio, paqueras,
Traquinagens… A ida á Diretoria…

O tempo passava…
Se espreguiçando
E o menino sonhava…

Danclads Andrade

Cantata

Pablo Picasso
Escrevo-te, meu valente,
sobre aquela ave de estuário
que rebatia seu mergulho numa alçada
e agora passa riscando a vaporosa
porque já não aguenta descer rasante para a água.
As casas no remanso da estrada lateral
— nem soubeste desta no nosso tempo irreparável —,
pela novidade sadia de se voltarem à luz,
dizem aonde vão dar os tropeiros que seguem,
as jovens estúpidas de chapéu largo,
o negrinho da nossa fábula americana.
A espera no fio das pedras não me faz inspiração
como em tua certa companhia
quando ouvi a existência das pontes
e dos faroleiros e das barcaças cambaleantes
pela tua explicação terrena de amante que mal aportou
e surpreendentemente embarca de volta no remoinho.
Escrevo-te, meu bom valente,
para que a todo novembro seguinte
não seja mais tua chegada.

Mariana Ianelli

19 de fevereiro de 2014

Haicai

Katerina Lomonosov
Na gaiola jaz
o pássaro
sem espaço.

Ivan Junqueira

18 de fevereiro de 2014

Rosto

Agnolo Bronzino
Teu rosto em fuga na vidraça
é uma gota que escorre devagar,
tão devagar que o tempo, avaro,
sequer ensaia um magro passo.
Uma gota que cai, sem lastro,
leve como a asa de um pássaro,
mas tão repleta de presságios
que sinto o fio de uma adaga
rasgar-me a carne das ilhargas.
Por que, às vésperas do nada,
a alma desperta, arrebatada?

Ivan Junqueira

O Poema

Edouard Bisson
Que será o poema,
essa estranha trama
de penumbra e flama
que a boca blasfema?

Que será, se há lama
no que escreve a pena
ou lhe aflora à cena
o excesso de um drama?

Que será o poema:
uma voz que clama?
Uma luz que emana?
Ou a dor que algema?

Ivan Junqueira

17 de fevereiro de 2014

Canção de Madrugada

À Cecília Meireles
Sir Edward John Poynter
Ecorrem de noite pelos prédios,
dissimuladas na umidade
— dissimulando elas o tédio
das longas noites da cidade —
deusas solícitas que vão,
com sua etérea assinatura,
quase propor a redenção,
— de rua em rua, dar a mão
a quem se arrasta e procura.

Pobre de quem vem perguntando
à pedra esquiva das esquinas
a voz e a face dessa amante
de que não restam senão cinzas!
Pobre do outro a quem o gelo
daquele encontro tão malsão
nem conseguiu arrefece-lo!
— Pobres de tantos, sem o selo
de garantia da ilusão!

Ó vidas presas por um fio,
junto ao abismo dos fracassos,
quem vos evita o fim sombrio
já desenhado em vossos passos?
— Com grandes túnicas violáceas,
as deusas erguem claras brisas:
nas avenidas e nas praças,
tremem as folhas das acácias,
vibram os peitos infelizes.

Até o frígido luar,
que de livor tingia as ruas,
se vai sumindo, devagar,
deixando as almas menos nuas...
Uma promessa de folhagem,

de vento e sol, as veste agora:
e, penetradas pela aragem,
as almas tímidas reagem
à madrugada que as enflora!

Súbito, a um gesto das deidades,
quebra-se o fúnebre luzeiro
das outras luas enforcadas
nos braços curvos dos candeeiros.
Já no crepúsculo se esfuma
a doentia sugestão,
— e as deusas tecem, com a bruma,
a nova luz que se avoluma
e é uma promessa ou uma canção.

Do sofrimento a noite cessa
na indecisa madrugada:
que ninguém peça a uma promessa
mais que a promessa que foi dada!
A quem sofreu, basta que a vida
levante um sol de entre as ruínas:
uma promessa doutra vida...
— Quanto aprendi!, nesta comprida
noite que tu, Canção, terminas.

David Mourão Ferreira (1927-1996)

16 de fevereiro de 2014

Haikai

Henri Rousseau
Antes que algum nome
Nos designasse, já rias,
Pequena cascata.

Alexei Bueno

Soneto

Sir Lawrence Alma-Tadema
Os brancos lírios que, de cento em cento,
filhos do Sol, nos dá a Primavera,
a quem do Tejo são lá na ribeira,
ouro seu berço, pérolas seu alimento;
as frescas rosas que, ambicioso, o vento
com pluma solicita lisonjeira,
como quem de uma e outra folha espera
purpúreas asas, se lascivo alento,
a vosso formoso pé cada qual deve
sua beleza toda. Que fará a mão
se tanto pode o pé, que ostenta flores,
por que vosso esplendor vence a neve,
vence seu rosicler, e por que em vão
falando vós, expiram seus olores?

Luis de Góngora y Argote (1561-1627)
Tradução: Claudio Daniel – Revista Zunai

15 de fevereiro de 2014

Multidão

Simeon Solomon
Esta gente que vai e vem,
de cá para lá,
de lá para cá,
que se cruza comigo,
que esbarra comigo,
que tem com certeza
os seus dramas iguais aos meus,
as suas esperanças iguais à minhas,
não sabe nada da minha vida,
nem eu sei dos seus segredos.
Cada um segue absorto em si
como se fosse de olhos fechados
e não tivesse as mãos para dar
a outras mãos desamparadas.

Armindo Rodrigues

Insânia

R D ROY
No mundo vago das idealidades
Afundei minha louca fantasia;
Cedo atraiu-me a auréola fulgidia
Da refulgência antiga das idades.

Mas ao esplendor das velhas majestades
Vacila a mente e o seu ardor esfria;
Busquei então na nebulosa fria
Das ilusões, sonhar novas idades.

Que desespero insano me apavora!
Aqui, chora um ocaso sepultado;
Ali, pompeia a luz da branca aurora.

E eu tremo entre um mistério escuro:
- Quero partir em busca do Passado,
- Quero correr em busca do Futuro.

Augusto dos Anjos (1884-1914)

14 de fevereiro de 2014

Para Fazer um Soneto

Linda Mears
Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere um instante ocasional
neste curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial

Ai, adote uma atitude avara
se você preferir a cor local
não use mais que o sol da sua cara
e um pedaço de fundo de quintal

Se não procure o cinza e esta vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse
antes, deixe levá-lo a correnteza

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza
ponha tudo de lado e então comece.

Carlos Pena Filho (1929-1960)

13 de fevereiro de 2014

O Poeta é Belo

Jean-Léon Gérôme
O poeta é belo como o Taj-Mahal
feito de renda e mármore e serenidade

O poeta é belo como o imprevisto perfil de uma árvore
ao primeiro relâmpago da tempestade

O poeta é belo porque os seus farrapos
são do tecido da eternidade.

Mario Quintana (1906-1994)

12 de fevereiro de 2014

Desejo

Delawer Omar
Os olhos viam extasiados.
A mente fantasiava.
A carne pagava o preço
Latejando de desejo.

Danclads Andrade

O lago e a estrela

Linda Mears
Disse a vaidosa estrela quando viu
De um lago azul a débil transparência:
– Por que te deu a sábia providência
Um corpo tão monótono e sombrio?

Comigo teve Deus maior clemência
E do esplendor eterno me vestia!
Que vales, pois, ó lago humilde e frio,
Perto da minha deslumbrante essência?

Nos céus eu moro! O meu destino zomba
De ignota força que reparte as mágoas!
Tenho a ventura de desconhecê-la.

– Mas quando a noite vagarosa tomba
É no seio fiel das minhas águas
Que vens dormir, ó luminosa estrela!

Luiz Guimarães (1878-1940)

11 de fevereiro de 2014

A Cabeça Recomeça

Daniel F Gerhartz
Retomei todos os meus compromissos
mas sinto-me omisso a mim mesmo
sinto-me em estado de sumiço.
um espaço na minha cabeça
deixou de ser maciço e isso
parece só o começo
(becos talvez, surjam e desapareçam,
compostos por começos de cabeças
dispostos pelo chão, becos abafados)
mas retomei, hoje sou dois,
e não descanso porque não existo.

Límerson Morales

Grandes Momentos Irreversíveis

Henry John Yeend King
“Os instantes de grande dor ou de grande agitação, mesmo na história universal, têm uma necessidade que convence; desencadeiam um sentido da atualidade e um sentimento de tensão que nos oprimem. Essa agitação pode provocar seguidamente a vinda da beleza e da luz, assim como da loucura e das trevas; o que se produz reveste, em todo o caso, as aparências da grandeza, da necessidade, da importância; distingue-se e destaca-se dos acontecimentos quotidianos”.
Hermann Hesse (1877-1962)