31 de janeiro de 2014

Envelhecer

Foto Ricardo Almeida
“Envelhecer é como escalar uma grande montanha: enquanto subimos, as forças diminuem, mas o olhar fica mais livre, e a visão mais ampla e serena”.
Ingmar Bergman (1918-2007)

O Gato Socialista

Aldemir Martins
Um gato que bancava o socialista
com o fim de chegar a deputado,
estava comendo um frango assado
na cozinha de um capitalista.

Outro gato, com lógica sectária,
disse-lhe desde a borda de um postigo:
- "Pensa que eu também, querido amigo,
pertenço à mesma classe proletária.

E bem sei que, se numas revoadas,
eu descer, esse frango que dispões
o partirás já em duas rações
pois não somos, debalde camaradas".

- "Ah, não!" – disse o outro sem pudor –
"Eu não divido nada, ó meu artista,
porque, se em jejum sou socialista,
comendo, sempre sou conservador!".

Carlo Alberto Salustri (1871-1950)
Tradução: Carlo Prina

30 de janeiro de 2014

Auto retrato

Paul Klee
Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamentos e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo etc etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que escrevo é invenção;
só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio:
- Sem moscas
na boca descampada!

Manoel de Barros

29 de janeiro de 2014

Amor que Acende a Lua

Alex Alemany
“O que as pessoas mais desejam
É alguém que as escute de maneira calma e tranquila.
Em silêncio.
Sem dar conselhos.
Sem que digam: "Se eu fosse você".
A gente ama não é a pessoa que fala bonito.
É a pessoa que escuta bonito.
A fala só é bonita quando
ela nasce de uma longa e silenciosa escuta.
É na escuta que o amor começa.
E é na não-escuta que ele termina.
Não aprendi isso nos livros.
Aprendi prestando atenção”.

Rubem Alves

28 de janeiro de 2014

Retrato na praia

William-Adolphe Bouguereau
Ei-la ao sol, como um claro desafio
ao tenuíssimo azul predominante.
Debruçada na areia e assim, diante
do mar, é um animal rude e bravio.

Bem perto, há um comentário sobre estio,
mormaço e sonolência. Lá, distante,
muito vagos indícios de um navio
que ela talvez contemple nesse instante.

Mas o importante mesmo é o sol, que esse desliza
por seu corpo salgado, enxuto e belo,
como se nuvem fosse, ou quase brisa.

E desce pelos seus braços, e rodeia
seu brevíssimo e branco tornozelo,
onde se aquece e cresce, e se incendeia.

Carlos Pena Filho (1929-1960)

27 de janeiro de 2014

Nudez...

Lanie Loreth
“A rosa:
tua nudez feita graça.

A fonte:
tua nudez feita água.

A estrela:
tua nudez feita alma.”

Juan Ramón Jiménez (1881-1958)
Tradução: Manuel Bandeira

Evitar o Sofrimento

Mikhail Zichy
Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa saúde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é. E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é que faz de nós seres tão refinados. Porque é que não nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita. Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer.
Sigmund Freud [1856-1939]

26 de janeiro de 2014

Atravessamos e Vencemos Tudo

Edward Cucuel
Olho para o passado com embriaguez, mas não é com menos deslumbramento que encaro o nosso futuro. Eis-nos, agora, um do outro para todo o sempre, sem ansiedades, sem inquietações, sem angústias. Atravessámos e vencemos tudo o que era mau e que poderia ser fatal. Estamos na plena posse dos nossos dois destinos fundidos num só. O nosso amor não terá a frescura dos primeiros tempos, mas é um amor posto à prova, um amor que conhece a sua força, e que mesmo para além do túmulo, espera ser infinito. O amor, quando nasce, só vê a vida, o amor que dura vê a eternidade.
Victor Hugo (1802-1885)

25 de janeiro de 2014

Paulista eu sou há quatrocentos anos

Paulista eu sou há quatrocentos anos:
Imortal, indomável, infinita,
Dos mortos de que venho, ressuscita
A alma dos Bandeirantes sobre humanos.

Tenho o orgulho dos nossos altiplanos.
Tenho a paixão da gleba circunscrita.
Quero morrer, ouvindo a voz bendita
Dos pausados cantares paulistanos.

De minha terra, para minha terra,
Tenho vivido. Meu amor encerra
A adoração de tudo quanto é nosso.

Por ela, sonho num perpetuo enlevo.
E, incapaz de servi-la quanto devo,
Quero ao menos e amá-la quanto posso.

Martins Fontes (1884-1937)

No Circo

(A João de Deus)
Marc Chagal - The Circus Horse
Muito longe daqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...

Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando...

Caí e achei-me, de repente, envolto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer n'essa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
— É assim que rujo entre leões agora!

Antero de Quental (1842-1891)

24 de janeiro de 2014

A Diferença Que Há

Delphin Enjolras
A diferença que há entre os estudiosos e os poetas
É que aqueles passam a vida inteira com o nariz num assunto
A ver se conseguem decifrá-lo, e estes
Abrem o livro, leem três páginas, farejam as restantes
(nem sequer todas) e sabem logo do assunto
o que os outros não conseguiram saber.
Por isso é que
os estudiosos têm raiva dos poetas,
capazes de ler tudo sem Ter lido nada
(e eles não leram nada tendo lido tudo).
O mal está em haver poetas que abusam do analfabetismo,
E desacreditam a gaya Scienza.

Jorge de Sena (1919-1978)

23 de janeiro de 2014

E à Arte o Mundo Cria

Paul Cézanne
Seguro Assento na coluna firme
Dos versos em que fico,
Nem temo o influxo inúmero futuro
Dos tempos e do olvido;
Que a mente, quando, fixa, em si contempla
Os reflexos do mundo,
Deles se plasma torna, e à arte o mundo
Cria, que não a mente.
Assim na placa o externo instante grava
Seu ser, durando nela.

Ricardo Reis
Fernando Pessoa (1888-1935)

22 de janeiro de 2014

São Meus Estes Rios

Francisco José de Goya
São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.

A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.

Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.

Manuel Lima

21 de janeiro de 2014

Beira-mar

Sylvio Pinto
O mar com seu motor que nunca para
o vento em seus humores vagadios
ou a te dar refresco ou arrepios
e a máscara de sal na tua cara

O pernilongo que sempre declara
guerra ao teu sono, e o interminável cio
duma coruja a repetir seu pio
para o luar que a nuvem desaclara

Então aquieta a música do brejo
enquanto as pererecas pensam se
será complô dos grilos e morcegos

E antes que a sinfonia recomece
dá para ouvir que a saparia tem
tão pouco assunto para tanta conversa.

Domingos Pellegrini

Nunca o medo da vida foi tão intenso...

Dorina Costras
Os homens afastam-se dos livros, o que quer dizer dos escritores, dos "intelectuais". É bom sinal - desde que substituam os livros pela vida! Mas será isto que se passa? Nunca o medo da vida foi tão intenso. O medo da vida substitui o medo da morte. Vida e morte passaram a significar o mesmo. No entanto, nunca a vida encerrou tantas promessas como agora. Nunca na história do homem a questão foi tão clara - a opção entre a criação e o aniquilamento. Sim, deitem fora os vossos livros! Especialmente se eles encobrem a questão em causa. Nunca a própria vida foi mais um livro aberto do que no momento presente. Mas seremos nós capazes de ler o Livro da Vida?
Henry Miller (1891-1980)

20 de janeiro de 2014

Que é voar?

Therese Fowler-Bailey
Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não vivência

E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório, momentâneo...

Aquele que voa tem de pousar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.

Ana Hatherly

19 de janeiro de 2014

Poeminha amoroso

Henri Matisse
Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo...

Cora Coralina (1889-1985)

18 de janeiro de 2014

Texto

Toulouse-Lautrec
Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter cortesãs de grande pompa e grande * fausto. Ora para montar em Paris, nesta tremenda carestia de Paris, uma *cocotte com os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavalos, os seus lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete (...), é necessário que se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um sindicato! Somos uns sete, no Clube. Eu pago um bocado....
(Eça de Queirós, A Cidade e as Serras. São Paulo: Ateliê Editorial, 2011, p. 94.)

*cocotte: mulher de hábitos libertinos e vida luxuosa; meretriz.
*fausto: luxo.

17 de janeiro de 2014

O amor, esse sufoco

Franz Stuck - Orpheus
O amor, esse sufoco,
agora há pouco era muito,
agora, apenas um sopro.

Ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
e socos.

Paulo Leminski (1944-1989)

A Rua dos Cataventos

Vincent Van Gogh
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Mario Quintana (1906-1994)

16 de janeiro de 2014

Operário no mar

Tarsila do Amaral - Operários
Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no drama, no discurso político, a dor do operário está na sua blusa azul, de pano grosso, nas mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo, que carrega desígnios e segredos. Para onde vai ele, pisando assim tão firme? Não sei. A fábrica ficou lá atrás. Adiante é só o campo, com algumas árvores, o grande anúncio de gasolina americana e os fios, os fios, os fios. O operário não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. (...) Para onde vai o operário? Teria vergonha de chama-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunc a foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos (...).
(Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.
São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.23.)

No poema “Operário no Mar” de Drummond de Andrade, o eu poético faz referência à condição do operário brasileiro durante a Era Vargas. Nesse sentido, refere-se, de modo mais geral, às dúvidas que pairavam na sociedade sobre o destino do operariado, que acabara de se consolidar no Brasil com a agressiva política urbanizadora e industrializadora da Era Vargas, mas que ainda não se constituíra como classe, como consciência de classe. Nesse sentido, inconsciente de seu destino, alienado de seu papel político econômico, o operariado “seguia firme” sob o olhar do eu poético, porém, alienado de sua própria condição, sem consciência da economia mundo ou da política capitalista que moldavam a sua condição. Nesse sentido, seria um papel relevante da literatura de 30, conforme imaginavam seus escritores, dar consciência e voz ao operário, como classe.

15 de janeiro de 2014

Haicai

Paul Cézanne
Laranja na mesa.
Bendita a árvore
que te pariu.

Clarice Lispector (1920-1977)
Do poema Amor à terra.

Um homem e seu carnaval

Leon Bakst
Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços eternamente.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

14 de janeiro de 2014

Nascimento do Poema

Louis Emile Adan
É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranquila:
senhor do duplo reino
coroado
de sóis e luas.

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)

13 de janeiro de 2014

Não Comerei da Alface a Verde Pétala

Paul Gauguin - Pleasures
Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.
Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.
Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Onívoro
*; deem-me feijão com arroz
E um bife, e um queijo forte, e parati
**
E eu morrerei, feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.

Vinicius de Moraes (1913-1980)

*onívoro: que se alimenta tanto de matéria vegetal como animal.
**parati: aguardente de cana, cachaça.
A principal mensagem subjacente ao texto é a de que a vida só vale a pena quando a vivemos com prazer, aproveitando as boas coisas que ela nos oferece, vivendo-a com intensidade. Para o eu lírico, mais importante do que viver muito é viver feliz. No texto, as saladas, peras, maçãs etc. representam a vida sem prazer, vivida de modo controlado, o que o poeta recusa. Já as suculentas mangas-espadas, a carne, a parati etc. representam o prazer, o que o poeta enaltece.

12 de janeiro de 2014

Cem Anos

Orlando Villas Bôas
Orlando Villas Bôas foi o último sobrevivente de quatro irmãos indigenistas. O sertanista e indigenista nasceu em 12 de janeiro de 1914 em Botucatu, interior de São Paulo e se tornou fazendeiro, a exemplo de seu pai, Agnello. Foi um menino travesso quando estudava no grupo escolar do bairro paulistano de Perdizes, e seu espírito irrequieto predizia o futuro de sertanista e indigenista, sempre em busca de novas fronteiras. Em 1935 Orlando Villas Bôas alistou-se no Exército onde ficou até 1939 e foi expulso porque só obedecia "às ordens que julgava certas", conforme dizia.
Conheceu o deputado Ulysses Guimarães na escola, a quem apresentou a Jânio Quadros, seu amigo - e Ulysses muito o agradeceu depois, pois se iniciou na política ao conhecer Jânio. Depois de trabalhar numa empresa de petróleo, onde se sentia entediado e tendo provocado a própria demissão, dirigiu-se para o estado de Goiás, remando durante 22 dias no rio Araguaia e que era o início de uma história de 40 anos pela causa indígena, abraçada depois pelos irmãos Cláudio, Leonardo e Álvaro. Orlando contava que ao chegar à mata pela primeira vez encontrou os índios amedrontados, se homiziando e lançando flechas. Ele dizia que jamais reagiu às flechadas e procurava ganhar a amizade dos índios transmitindo-lhes um espírito de confiança e amizade.
A criação do Parque Nacional do Xingu em 1961 foi conseguida facilmente por Orlando, dada sua amizade com o então presidente da República, Jânio Quadros. O Xingu tem cerca de quatro mil habitantes divididos entre 13 nações assentadas em 2.800.704,3343 hectares - mais ou menos o tamanho da França e Inglaterra juntas. Os irmãos sertanistas Orlando, Cláudio, Leonardo e Álvaro Villas Bôas cuidadosamente mapearam seus encontros com as 14 tribos indígenas que encontraram, obtendo sempre permissão para instalar as bases da Fundação Brasil Central. Cientes da fragilidade das comunidades às doenças da civilização ocidental, eles impediram que a política militarista se instalasse entre pessoas armadas apenas com flechas e os fuzis de um Brasil que passo a passo procurava fazer da terra um motivo de exploração econômica.
A esposa de Orlando Villas Bôas, a enfermeira Marina Villas Bôas, conta muitas das suas proezas. Ele a viu pela primeira vez em um consultório médico, e, como precisava de uma enfermeira para a expedição que chefiava resolveu convidá-la. Ela aceitou participar e ficou cerca de 15 anos trabalhando pela missão indígena. "Nesse tempo contraiu malária 15 vezes e Orlando pelo menos umas 200", conforme diz. Marina chegou ao parque do Xingu em 1963 e logo no início enfrentou uma epidemia de gripe, além de cuidar de muitos casos de malária. "Os índios tinham o organismo puro, e pegavam com facilidade as doenças de branco, mas conseguimos êxito rapidamente".
O lazer, no Xingu, era algo restrito a jogos de cartas e passeios nas margens do rio segundo Marina. "À noite, jogávamos baralho ou conversávamos", relata. "Assim, eu me apaixonei por ele; só que Orlando demorou quase dois anos para perceber." Em 1978, Orlando Villas Bôas deixou definitivamente o Parque do Xingu. Em 1984, aposentou-se para viver em sua casa no bairro paulistano de Alto da Lapa, e cultuava, num grande galpão nos fundos de casa, uma espécie de miniatura da Mostra do Redescobrimento (Exposição Brasil + 500, montada no Pavilhão da Bienal no ano 2000), composta de grande variedade de objetos indígenas, guardados em prateleiras, cada um com uma história a contar. Ele, e seus três irmãos eram contrários à ação colonizadora que se iniciara há quatro séculos.
Procuraram descobrir intacto um universo de hábitos e ética inteiramente diferentes. À medida que encontravam novas tribos assentadas às margens do rio Xingu e seus afluentes se deparavam com povos que tinham sua própria cultura e identidade e isso os fascinava e fazia do seu trabalho uma meta de vida. E, ao voltar à vida doméstica, queria conviver com um exemplar da mata, que tinha no reduto de sua própria casa.
Os Villas Bôas contribuíram para preservar vidas humanas, culturas antigas, valores que, depois de perdidos, não podem mais ser recuperado. Garantiram a sobrevivência de nações inteiras no Parque Nacional do Xingu ao consolidá-lo como espaço, com a orientação humanista do marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, e o apoio do antropólogo Darcy Ribeiro e do sanitarista Noel Nutel.
Orlando e seu irmão Cláudio Villas Bôas teriam o reconhecimento do seu trabalho no Xingu com a indicação para o prêmio Nobel da Paz em 1976. Sem ter completado o segundo grau, a vivência no Xingu permitiu que Orlando publicasse, em co-autoria com seu irmão Cláudio, 12 livros e inúmeros artigos em jornais e revistas internacionais, como a National Geographic Magazine.
Tanto juntos quanto individualmente, os irmãos receberam honras acadêmicas, reconhecimento de cidadanias e títulos honorários, homenagens à sua atuação na política de proteção à cultura indígena.
Villas Bôas, completaria 100 hoje cem anos, se estivesse vivo.
Fonte: Agência Brasil

Arte de Equilíbrio

Henri Matisse
Esforço-me por alcançar
uma arte de equilíbrio,
de pureza
- uma arte que não
desassossegue
ou confunda.
Gostaria que o Homem
cansado,
sobrecarregado,
acabado
encontrasse a paz
e o sossego
nos meus quadros.

Henri Matisse (1869-1954)

11 de janeiro de 2014

Amostra sem valor

Jose Royo
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

António Gedeão (1906-1997)