27 de dezembro de 2014

A Flor e a Fonte

William-Adolphe Bouguereau
Deixa-me, fonte! Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.

Deixa-me, deixa-me, fonte!
Dizia a flor a chorar:
Eu fui nascida no monte...
Não me leves para o mar.

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

Ai, balanços do meu galho,
Balanços do berço meu;
Ai, claras gotas de orvalho
Caídas do azul do céu!...

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

Adeus, sombra das ramadas,
Cantigas do rouxinol;
Ai, festa das madrugadas,
Doçuras do pôr do sol;

Carícia das brisas leves
Que abrem rasgões de luar...
Fonte, fonte, não me leves,
Não me leves para o mar!...
Vicente de Carvalho (1866-1924)

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