28 de novembro de 2014

Vivemos sem sentir

Samy Charnine
Vivemos sem sentir a Rússia embaixo,
não se ouvem nossas vozes a dez passos.
Mas onde houver meia conversa – sempre
se há de lembrar o montanhês do Kremlin.
Seus grossos dedos são vermes obesos;
e as palavras – precisas como pesos.
Sorri – largos bigodes de barata;
e as longas botas brilham engraxadas.
Rodeiam-no cascudos mandachuvas;
seu jogo: os meio-homens que subjuga.
Um assobia, um rosna, um outro mia,
só ele é quem açoita, quem atiça.
E prega-lhes decretos-ferraduras
na testa ou no olho, na virilha ou nuca.
Degusta execuções como quem prova
uma framboesa, o osseta de amplo tórax.

Ossip Mandelstam (1891-1938)

Este poema foi a causa principal da prisão de Ossip Mandelstam em 1934, o início de um calvário, que incluiria residência forçada em Vorôniej durante três anos, em condições de miséria, cerca de um ano em liberdade, mas sem poder residir em Moscou, nova prisão e permanência num campo de trabalho na Sibéria, onde morreu.
Depois de elaborado o poema, ele foi lido a alguns amigos – o suficiente para causar a perdição de seu autor.

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