30 de setembro de 2014

Covardia

Sir Edward John Poynter
Eis o veneno, eis o punhal, que esperas?
O horror à terra, de repente,
o passo atrás,
o apego ao quadro, ao livro,
que sei mais!
O apego à própria miséria...

Há que buscar a solidão
entrar no reino do silêncio,
à espera,
à espera...

Mas ainda aí a nossa própria voz ecoa.
Não queremos confissão,
eu vos digo, porém,
em verdade vos digo:
existir, embora surdo,
olhos abertos, apenas, para a vida; embora cego,
ouvidos atentos aos ruídos misteriosos;
embora mudo,
mãos ávidas em reconhecimento;
ainda que imóvel,
boca e narina percebendo
o gosto e o cheiro do mundo!

Existir...
Em que pese o absurdo!

Sérgio Milliet (1898-1966)

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