30 de julho de 2014

Tudo vive

Nicaise de Keyser : O Filósofo
Parece que tudo passa para que recomece
desde o princípio, como se fosse novo, ou se observe
sem levar em conta algo que já existiu
e tampouco aquilo que virá, infindável.
Uma grande destruição, como se tudo se apagasse atrás de nós
a história, as lembranças, os valores existentes
e as imagens que nos governavam.
Alguém nos confidencia: rápido o passado se afasta de nós,
você vê como ele se transmuda, depois põe-se além do horizonte
e talvez nem mais exista, renuncia a tudo que é inútil,
se ainda recordações você preserva.
Mas, se a história passa
(ela própria é narrativa sobre a transitoriedade), algo permanece:
de cada conceito antigo uma ou outra raiz
e os rituais do culto de outrora límpidos em nós,
o diálogo entre nós e os filosofemas anteriores é possível.
No meio da charada contemporânea emerge o algarismo original.
Nada se repete no tempo, além dos velhos problemas,
e palavras que o homem olvidou ao ser criado,
para redescobri-los quando
acima dele trovejam bobinas desenroladas de antigas ordens.
A meditação que Descartes nos legou
sobre a mesa sempre recomeça, e também o método
que vincula o autodespertar do entendimento àquilo que se
pensava outrora.
Era o que desejava Leibniz antes que a sabedoria alcançasse
o ponto crítico em que o sofista reapareceu.
O artista concebe assim seu ponto de partida,
quando se revolta ou destrói; pisca um olho
e afirma: nada me surpreende, nem a deusa de argila,
que o homem neolítico portava durante a semeadura,
nem aquilo que o criador refinado do templo da caverna e da
caça selvagem rabiscou no castelo subterrâneo.
Toda a família espiritual contém um antídoto
contra a aniquilação, e a república espiritual está povoada
de uma espécie de conhecedores de ervas medicinais e outros
opositores dos que envenenam, e ela se defende
onde ninguém a ataca, pois nem a enxerga nem a ouve,
defende-se dos que acendem fogueiras e dos fanáticos do
novo jogo
que se encanta com a explosão, assim como outrora
acontecia com o delírio de brincar com o fogo e considerar
sagrado o sofrimento do bode expiatório nas mãos do
carrasco coletivo.
Seremos capazes de devolver ao espírito cada centelha,
se agora testemunharmos que “tudo vive”:
o passado dentro do futuro, a sabedoria na loucura,
o conhecimento nas trevas,
e que tudo aquilo que na vida é rubro, vermelho escuro,
branco raiado de paixão, jamais se acinzente.

Miodrag Pávlovitch (1928-2014)
Tradução: Aleksandar Jovanovié

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