16 de janeiro de 2014

Operário no mar

Tarsila do Amaral - Operários
Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no drama, no discurso político, a dor do operário está na sua blusa azul, de pano grosso, nas mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo, que carrega desígnios e segredos. Para onde vai ele, pisando assim tão firme? Não sei. A fábrica ficou lá atrás. Adiante é só o campo, com algumas árvores, o grande anúncio de gasolina americana e os fios, os fios, os fios. O operário não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. (...) Para onde vai o operário? Teria vergonha de chama-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunc a foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos (...).
(Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.
São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.23.)

No poema “Operário no Mar” de Drummond de Andrade, o eu poético faz referência à condição do operário brasileiro durante a Era Vargas. Nesse sentido, refere-se, de modo mais geral, às dúvidas que pairavam na sociedade sobre o destino do operariado, que acabara de se consolidar no Brasil com a agressiva política urbanizadora e industrializadora da Era Vargas, mas que ainda não se constituíra como classe, como consciência de classe. Nesse sentido, inconsciente de seu destino, alienado de seu papel político econômico, o operariado “seguia firme” sob o olhar do eu poético, porém, alienado de sua própria condição, sem consciência da economia mundo ou da política capitalista que moldavam a sua condição. Nesse sentido, seria um papel relevante da literatura de 30, conforme imaginavam seus escritores, dar consciência e voz ao operário, como classe.

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