13 de janeiro de 2014

Não Comerei da Alface a Verde Pétala

Paul Gauguin - Pleasures
Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.
Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.
Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Onívoro
*; deem-me feijão com arroz
E um bife, e um queijo forte, e parati
**
E eu morrerei, feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.

Vinicius de Moraes (1913-1980)

*onívoro: que se alimenta tanto de matéria vegetal como animal.
**parati: aguardente de cana, cachaça.
A principal mensagem subjacente ao texto é a de que a vida só vale a pena quando a vivemos com prazer, aproveitando as boas coisas que ela nos oferece, vivendo-a com intensidade. Para o eu lírico, mais importante do que viver muito é viver feliz. No texto, as saladas, peras, maçãs etc. representam a vida sem prazer, vivida de modo controlado, o que o poeta recusa. Já as suculentas mangas-espadas, a carne, a parati etc. representam o prazer, o que o poeta enaltece.

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