31 de dezembro de 2013

Ano Novo

“Não pedi coisas demais para
não confundir Deus que
à meia-noite de ano novo está tão ocupado”.

Clarice Lispector
Enrico Bianco - Madona
O rei chegou
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
É pra cantar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo

Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E que já viu de pé
O mesmo velho ovo Hoje fica contente
Porque é Ano Novo

A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar

E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo.

Chico Buarque de Holanda

Arrastão

Enrico Bianco – Madona dos jangadeiros
Eh! Tem jangada no mar
Eh! Eh! Eh! Hoje tem arrastão
Eh! Todo mundo pescar
Chega de sombra João
Jovi olha o arrastão entrando no mar sem fim Eh! Meu irmão Me traz Iemanjá pra mim.

(Trechos da música Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes)

30 de dezembro de 2013

Fonte

Max Von Bredt
Meu amor diz-me o teu nome
— Nome que desaprendi…
Diz-me apenas o teu nome.
Nada mais quero de ti.
Diz-me apenas se em teus olhos
Minhas lágrimas não vi,
Se era noite nos teus olhos,
Só por que passei por ti!
Depois, calaram-se os versos
— Versos que desaprendi…
E nasceram outros versos
Que me afastaram de ti.
Meu amor, diz-me o teu nome.
Alumia o meu ouvido.
Diz-me apenas o teu nome,
Antes que eu rasgue estes versos,
Como quem rasga um vestido!

Pedro Homem de Mello (1904-1984)

29 de dezembro de 2013

Haikai

Scott Harding
Se fosse só eu
a chorar de amor,
sorriria…

Guimarães Rosa (1908-1967)

Já não vivo, só penso.

Albert Lebourg
Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom, mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

Fernanda de Castro (1900-1994)

28 de dezembro de 2013

A sombra de um Salgueiro

Photo: Divine Life
Fugi das chaminés.
do fumo, que era um denso nevoeiro.
e procurei, na beira dum regato.
a sombra de um salgueiro.

O silêncio, era música do céu;
o ar parado, absorto,
mas na água tranquila
vogava um peixe morto.

Fernanda de Castro (1900-1994)

27 de dezembro de 2013

Suave Veneno

Bibiana Caldeiron
...suave veneno você
que soube impregnar

até a luz de outros olhos
que busquei nas noites
para me consolar

se eu me curar desse amor
não volto a te procurar

minto que tudo mudou
que pude me libertar

apenas te peço um favor
não lance nos meus
esses olhos de mar

que eu desisto do adeus
para me envenenar.

(Trecho da música Suave Veneno, de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos)

História

Luigi Bianchi
Cada época é definida pelo que apresenta de novo,
de especificamente seu. Pode não ser um alto
pensamento filosófico, uma grande reforma moral,
uma arte requintada, uma ciência generosa.
Mas há de ser a dádiva de qualquer uma dessas
manifestações humanas, ou todas,
numa concepção inteiramente inédita, original,
inconcebível noutro tempo da história.

Miguel Torga (1907-1995)

A imaginação

Triptych of Fujiwara No Yasumasa
“A imaginação, com o voo ousado, aspira
a princípio à eternidade... Depois um
pequeno espaço basta em breve para os destroços
de nossas esperanças iludidas!...”

Johann von Goethe (1749-1832)

26 de dezembro de 2013

Natal

Giorgione - Adoração dos pastores
Na agitação das ruas da cidade,
De povo fervilhante, e forasteiros,
Ninguém notava os pobres caminheiros,
Dois santos na pureza e na bondade.

Castíssimos esposos, companheiros,
Irmãos na mais perfeita afinidade,
José buscava obter dos hoteleiros
Abrigo à esposa, santa de humildade.

As portas com estrondo se fechavam…
Enquanto a turba infecta gargalhava,
Outro local, nervosos, procuravam.

Para uma gruta, enfim, Deus os conduz…
Orando aos céus, Maria murmurava:
– Nasceu meu filho, ó Deus!… Nasceu Jesus!…

Gualter Cruz (1921-1978)

Natal

Bartolomé Esteban Murillo
E ainda hoje nascerás mais uma vez…
Sobre os reis Magos
a estrela guia
os deixará ofuscados e perplexos
pela emoção
da santíssima aparição
E Tu nascerás neste e em outros anos
enquanto homens de porre
e mulheres quase nuas, ao sol,
tostadas e maquiladas
esperarão a hora mágica da noite
para exibir seus corpos luzidios
tomando chopes e comendo rabanadas.
E Tu, Senhor, nascerás mais uma vez à meia noite
pequenino e lindo
com Tua mensagem incompreendida
para os inúteis amanhãs
do dia nosso de cada vida.
E em Teu nome, Tuas palavras vãs,
nós nos empanturraremos
de vinhos
tâmaras
e avelãs…

Jair Amorim (1915–1993)

25 de dezembro de 2013

Canto de Natal

Di Cavalcanti
O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.
Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.

Manuel Bandeira (1886-1968)

O Nascimento

Anita Malfatti
Vamos ver a Estrela!
Sairemos pelas estradas, cantando,
Sairemos de mãos dadas,
E acordaremos as brancas e tímidas ovelhas.
Iremos surpreendê-Lo, Pequenino e Simples,
Sua Inocência Iluminará os caminhos felizes, dormindo.
Vamos ver a Estrela!

Augusto Frederico Schmidt (1906 – 1965)

24 de dezembro de 2013

Poema de Natal

Portinari
— Sino, claro sino,
tocas para quem?

— Para o Deus menino
que de longe vem.

— Pois se o encontrares
traze-o ao meu amor.

— E que lhe oferece,
velho pecador?

- Minha fé cansada,
meu vinho, meu pão,
meu silêncio limpo,
minha solidão.

Carlos Pena Filho (1929-1960)

23 de dezembro de 2013

O Filho do Homem

Andrea Mantegna
O mundo parou
A estrela morreu
No fundo da treva
O infante nasceu.

Nasceu num estábulo
Pequeno e singelo
Com boi e charrua
Com foice e martelo.

Ao lado do infante
O homem e a mulher
Uma tal Maria
Um José qualquer.

A noite o fez negro
Fogo o avermelhou
A aurora nascente
Todo o amarelou.

O dia o fez branco
Branco como a luz
À falta de um nome
Chamou-se Jesus.

Jesus pequenino
Filho natural
Ergue-te, menino
É triste o Natal.

Vinícius de Moraes (1913-1980)

22 de dezembro de 2013

Chove. É dia de Natal

Josefa de Óbidos
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa (1888-1935)

21 de dezembro de 2013

Rezando

Andrea del Verrocchio
Róseo menino
Feito de luz,
Lírio divino,
Santo Jesus!

Meu cravo olente,
Cor de marfim,
Pobre inocente,
Branco jasmim!

Entre as palhinhas,
Pequeno amor,
Das criancinhas
Tu és a flor.

Cabelo louro,
Olhos azuis...
És meu tesouro,
Manso Jesus!

Estrela pura,
Santo farol,
Flor de candura,
Raio de sol...

Dá-me a esperança
N’um teu olhar:
Loura criança,
Me ensina a amar.

Sonho formoso
Cheio de luz,
Jesus piedoso,
Meu bom Jesus...

Como eu te adoro,
Pequeno assim!
Jesus, eu choro,
Tem dó de mim.

No doce encanto
De um riso teu,
Jesus tão santo,
Leva-me ao Céu!

Em ti espero,
Mostra-me a luz...
Leva-me, eu quero
Ver-te Jesus!

Auta de Souza (1876-1901)

Lunar

Childe Hassam - Moonlight
As casas cerraram seus milhares de pálpebras.
As ruas pouco a pouco deixaram de andar.
Só a lua multiplicou-se em todos os poços e poças.
Tudo está sob a encantação lunar…

E que importa se uns nossos artefatos
lá conseguiram afinal chegar?
Fiquem armando os sábios seus bodoques:
a própria lua tem sua usina de luar…

E mesmo o cão que está ladrando agora
é mais humano do que todas as máquinas.
Sinto-me artificial com esta esferográfica.

Não tanto… Alguém me há de ler com um meio sorriso
cúmplice… Deixo pena e papel… E, num feitiço antigo,
à luz da lua inteiramente me luarizo…

Mario Quintana (1906-1994)

20 de dezembro de 2013

Reflexão

Emile Friant
“Vivemos todos sob o mesmo céu,
mas nem todos temos o mesmo horizonte.”

Konrad Adenauer (1876-1967)

Mancha

Jules Pascin
Para reproduzir o donaire sem par
Desse alvo rosto e desse irônico sorriso
Que desconcerta e prende e atrai, fora preciso
A mestria de Helleu, de Boldini ou Besnard

Luz faiscante malícia ao fundo desse olhar,
E há mais do inferno ali do que do paraíso…
O amor é tão-somente um pretexto de riso
Para esse coração flutuante e singular.
Flor de perfume raro e de esquisito encanto,
Ela zomba dos que (pobres deles!) sem cor
Vão-lhe aos pés ajoelhar ingenuamente… Enquanto

Alguém não lhe magoar a boca de veludo…
E não a fizer ver, por si, que isso de amor
No fundo é amargo e triste e dói mais do que tudo.

Manuel Bandeira (1886-1968)

Descalça Vai Para a Fonte

Henry Ryland
Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai formosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainha de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai formosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à formosura.
Vai formosa e não segura.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

19 de dezembro de 2013

A Consciência

Mario Sanchez Nevado
Note... sombras... silêncio... indefinida
angústia imponderável pelo ambiente.
Penso, em meu leito, como um ser consciente:
- "Mais um dia de menos para a vida..." -

Como os dias passados - o presente.
Ideias vãs; desesperada lida;
Esforço inútil; alma incompreendida
Em tudo quanto crê ou quanto sente;

A juventude quase no seu termo;
Mente mais débil; corpo mais enfermo,
A nobre fé de antanho menos forte...

Que horror! A consciência, como a aranha,
Tais razões urde e nelas se emaranha
Que só fica a razão final da morte!

Antônio Joaquim Pereira da Silva (1876-1944)

Amar os outros

Jan Baptista van Fornenburgh
Olhai aquela abelha industriosa:
Como ela é bela! E viva! E diligente!
Parece a luz duma candeia ardente
Com asas, a esvoaçar, alegre e ansiosa.

Como ela é bela! A vida, como a sente?
Que sentidos a trazem, cuidadosa,
Mal nasce o sol, lidando, rosa em rosa,
Em dourado zumbido tão contente?

Que sente? E como sente? Quem, ao certo,
Pudesse ler, como num livro aberto,
Mistérios de que a vida se rodeia…

Naquela abelha, encanta-me pensar
Que ela sabe que vive a trabalhar
Para o sustento e o amor de uma colmeia.

Antônio Correia de Oliveira (1878-1960)

18 de dezembro de 2013

Vinham Rosas na Bruma Florescidas

Louis-Marie de Schryver
Vinham rosas na bruma florescidas
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.

Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.

Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre atual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.

E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
em bruma a brisa em que se aviva a rosa.

Fernando Echevarría

Nada mais

Franz von Stuck
…Espreitava o sol, calava a lua.
Tão silenciosos quanto as pedras.
O riso e falas daqueles corações.
Era manhã.
E nada mais podia ser tão belo
Nem tão morno,
Tão sublime,
Era aquilo,
Era único.
Deles.

Ednar Andrade

17 de dezembro de 2013

Domingo

Lonnie Ollivierre
Ficou-lhe a paz. Do tempo
em que, movido o olhar à santidade,
parávamos no campo vendo
correr a água e adubar-se o caule
que abrirá sua roda de sustento
à fadiga do homem, que uma coroa de aves
reconhece no ar, de estar aberto
à cálida saúde da passagem.
Depois da missa, pelo domingo adentro,
crescia esta saudade
fresquíssima de estarmos tão atentos
à tarefa que, sem nós, a tarde
cumpre na terra. E mesmo ao pensamento
que amadurece nas árvores,
tocadas longe, no estremecimento
que se enreda por nós e em nós se abre.
Ficou-lhe a paz. O doce movimento
que nos inclina para a primeira idade.

Fernando Echevarría