30 de novembro de 2013

Companhia

Sharon Freeman
Passei o dia com o teu céu
lá fora choveu
em mim fez sol.

Alice Ruiz

A vida bate

Francisco Goya - Cabra-cega
Não se trata do poema e sim do homem
e sua vida
- a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida,
o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Alguns viajam, vão
a Nova York, a Santiago
do Chile. Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.
Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns
te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome
de vida!
O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.
Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas . És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias? Onde
escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?
E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate. Subterraneamente,
a vida bate.
Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar
que me sustenta
esta tarde
debruçado à janela de meu quarto em Ipanema
na América Latina.

Ferreira Gullar

29 de novembro de 2013

Felicidade

Vladimir Gusev
Feliz só será...
A alma que amar.
Estar alegre
E triste,
Perder-se a pensar,
Desejar
E recear
Suspensa em penar,
Saltar de prazer,
De aflição morrer —
Feliz só será
A alma que amar.

Johann von Goethe (1749-1832)

Canção do amor

Vincent van Gogh
Tu és a corça e eu o cervo,
pássaro tu e eu a árvore,
o sol tu e eu a neve,
tu és o dia e eu o sonho.

De minha boca adormecida à noite
um pássaro de ouro voa a ti:
tem a voz clara, multicolores asas,
e vai cantar-te a canção do amor
- e vai cantar-te a canção de mim.

Hermann Hesse (1877-1962)

28 de novembro de 2013

Intermezzo

Melozzo Da Forlí
Um ligeiro intervalo de esperança
foi a nossa escapada da rotina:
cada dia uma glória repentina
cada noite a euforia da mudança.
Um ligeiro intervalo de esperança
e eu julguei ter achado o ouro e a mina.
Vi no teu rosto aquela luz divina,
voltei a ser poeta e a ser criança.
Foi a nossa embriaguez dos impossíveis,
ilusão de vencer os invencíveis
e de alcançar o que ninguém alcança.
Mas foi bom. Foi tão mais do que mereço,
que hoje, em desespero, eu te agradeço
um ligeiro intervalo de esperança!

Giuseppe Ghiaroni (1919-2008)

Revolta

William Haefeli
Não quero este pão — Quinquim atira
o pão no chão.

A mesa vira vidro, transparente
de emoção.
Quem ousa fazer isso em pleno almoço?
Pede castigo
o pão jogado ao chão.

O Castigador decreta:
Agora de joelhos você vai
apanhar este pão.
Vai trazer um barbante e amarrar
o pão no seu pescoço
e vai ficar o dia todo
de pão no peito, expiação.

Quinquim perdeu a força da revolta.
Apanha o pão, amarra o pão
no pescoço humilhado
e ostenta o dia todo
a condecoração.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

27 de novembro de 2013

Não te espantes

Maurice Utrillo
“Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira”.
Paulo Mendes Campos (1922-1991)

O povo continuará

Gillis van Tilborgh
O povo continuará.
Aprendendo ou fazendo loucuras o povo continuará.
Será logrado, vendido e revendido
e voltará à mãe-terra para nutrir suas raízes.
O povo é tão bizarro ao progredir e regredir,
que não podemos rir de sua capacidade de topar a parada.
O mamute descansa entre os seus dramas ciclônicos.

O povo tantas vezes indolente, cansado, enigmático,
é um vasto amontoado de indivíduos a falar:
“Vou ganhando a vida.
Faço o que é preciso pra ir levando
e isso me come o tempo todo.
Se eu tivesse mais tempo
podia fazer mais pra mim mesmo
e talvez prós outros.
Podia ler e estudar,
discutir as coisas,
descobrir certas coisas.
Mas isso toma tempo.
Ah, se eu tivesse tempo!”

O povo tem duas caras, uma trágica, a outra cômica:
herói e desordeiro: espectro e gorila,
geme com sua boca torta de gárgula:
“Eles me compram e me vendem... não passo dum jogo...
um dia eu me solto...”

Depois de haver ultrapassado
as margens da necessidade animal,
a linha feroz da mera subsistência,
o homem chegou afinal
aos ritos mais profundos de seus ossos,
às luzes mais leves que os ossos,
chegou ao tempo de repensar as coisas,
à dança, à canção, ao conto,
chegou às horas doadas ao devaneio,
depois de ter ultrapassado a linha.

Entre as numeráveis limitações dos cinco sentidos
e os anseios infindos do homem pelo eterno,
o povo se agarra ao chato imperativo
de trabalhar e comer, enquanto faz um gesto,
quando se apresenta a ocasião
para as luzes além da prisão dos cinco sentidos,
para dádivas mais duradouras que a fome
ou a morte.
Esse gesto mantém-se vivo.
Proxenetas e mentirosos o violaram e enxovalharam.
Mas continua vivo esse gesto
estendido às luzes e às dádivas.

O povo conhece o sal do mar
e a força dos ventos
que chicoteiam as esquinas da terra.
O povo vê a terra
como a cova do descanso e o berço da esperança.
Quem mais fala em nome da família Humana?
O povo anda afinado
com as constelações da lei universal.
O povo é policromia, espectro e prisma, apresado num monólito que se move,
um órgão a soar temas cambiantes,
clavilux de poemas coloridos
nos quais o mar oferece névoa
e a névoa se dissipa em chuva
e o poente do Labrador se reduz
a um noturno de estrelas limpas,
sereno, acima do jorro em chuveiro
das luzes boreais.

O céu das usinas de aço está vivo.
O fogo irrompe em branco ziguezague
detonado dum crepúsculo metálico.
O homem está vindo atrasado.
O homem contudo vencerá.
Irmão pode ainda marchar ao lado de irmão:
esta velha bigorna se ri de muito martelo partido.
Há homens que não se vendem.
Quem nasce no fogo, vive bem no fogo.
Estrelas não fazem barulho.
Ninguém pode segurar o vento.
O tempo tudo ensina.
Quem vai viver sem esperança?

Na escuridão, com um grande fardo de aflições,
o povo marcha.
Na noite, com uma pazada de estrelas no alto,
para sempre o povo marcha.
“Pra onde? Mais o quê ainda?”

Carl Sandburg (1878-1967)
Tradução: Paulo Mendes Campos

26 de novembro de 2013

Tulipa

Tina Chaden
Mas o amor, primeiro aprendido em uns olhos de mulher,
Não vive sozinho fechado na cabeça,
Mas, com a agilidade de todos os elementos,
Corre com a rapidez de nossos pensamentos
E dá a cada faculdade dupla potência,
Acima de suas funções e seus ofícios.

Acrescenta preciosa visão aos olhos;
Os olhos de um amante veem mais longe que uma águia;
Os ouvidos de um amante ouvem o mais tênue som,
Que passa despercebido ao ladrão cauteloso:
O tato do amor é mais fino e sensível
Que as sensitivas antenas do caracol.

William Shakespeare (1564-1616)

Papoula

Steve Wynne
O verão pousou os lábios no seio nu da terra
E deixou ali sua marca rubra sobre uma papoula:
Como um bocejo de fogo, da grama ela emergiu,
E o vento brando inflou-a em aberta chama.

Com a boca vermelha ardente ela bebeu
O sangue do sol que, abatido, tombava,
E mergulhou sua taça no brilho purpuro
Quando os condutos do leste carregavam-se de vinho.

Até que ficou letárgica com a atordoante euforia
E quente como uma cigana exaurida.
E cochilou em sonolentos êxtases,
Com a boca entreaberta para um beijo sensual.

Uma criança e um homem caminhavam lado a lado,
Percorrendo as orlas do entardecer;
Mas entre as mãos unidas dele e dela
Repousavam, mesmo não sentidos, vinte ressequidos anos.

Francis Thompson (1859-1907)

25 de novembro de 2013

Registro

Winslow Homer
Enxergo cada vez mais claro e longe
e a vida tem contornos tão precisos
quanto preciosos
para os olhos

não para as nossas almas – estas veem
doutra forma.

Líria Porto

À Janela

Winslow Homer
Todos os dias
na mesma página
outras palavras

no mesmo cenário
outros pássaros

na mesma fresta
outra alegoria.

Líria Porto

24 de novembro de 2013

Canção

Hans Dahl
Passa o vento de outono
derrubando a tarde:
caem torres douradas,
folhas azuis caem.

E passa o tempo louco
derrubando os sonhos:
caem torres de amor,
trêmulas folhas caem.

No vazio cai,
sem fim, meu coração.
Nada pode salvar-me.
Deus sabe que estou morto.

Sobre mim passa um rio
de esquecimento sem remédio.
Acima cruzam flores.
Sei que ninguém me ouve.

Eduardo Carranza

Eterna Tarde

Gunning King
A tarde vai morrer, calma como uma santa,
num êxtase de luz infinito e divino.
Há nas luzes do céu qualquer coisa que canta,
com músicas de cor, a tristeza de um hino.

Tudo, em torno de nós, se esbate e se quebranta.
Em nossos corações, como um dobre de sino,
e esperança agoniza; e a alma, triste, levanta
suas trêmulas mãos para o altar do destino.

Não é somente a tarde, a eterna moribunda,
que vai morrer, e espalha esta mágoa profunda
no nosso olhar, nas nossas mãos, na nossa voz...

É uma outra tarde — que nunca há de ser aurora
como a do céu será amanhã — que morre agora,
triste, dentro de nós...

Alceu Wamosy (1895-1923)

23 de novembro de 2013

Marianna e Chamilly

Paul Gauguin
Quando partires
se partires
terei saudades
e quando ficares
se ficares
terei saudades

Terei
sempre saudades
e gosto assim.

Adília Lopes

Ária para Assovio

Caravaggio-Rest during the flight
Inelutavelmente tu
Rosa sobre o passeio
Branca! e a melancolia
Na tarde do seio

As cássias escorrem
Seu ouro a teus pés
Conheço o soneto
Porém tu quem és?

O madrigal se escreve:
Se é do teu costume
Deixa que eu te leve

(Sê... mínima e breve
A música do perfume
Não guarda ciúme).

Vinícius de Moraes (1913-1980)

22 de novembro de 2013

Noturno

Vladimir Volegov
Passam as horas
lentas na chuva
que passa
na janela

exaustas dos dias
ardentes

passa sua dor
silenciosa nos olhos
que miram a chuva
por trás dos vidros

alheia pelo que
somos

silêncio e melancolia.

Adair Carvalhais Júnior

Delírio

Alfred Gockel
Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci....

Olavo Bilac (1865-1918)
Pejo = pudor

21 de novembro de 2013

Quadrinha da Rosa

Ó rosa, nobre e bonita,
que encantamento trazeis!
Em vossa beleza, habita
a majestade dos reis!

Eno Teodoro Wanke (1929-2001)

20 de novembro de 2013

Dia da Consciência Negra

Antônio Diogo da Silva Parreiras -Zumbi
“Senhor, não deixes que se manche a tela
Onde traçaste a criação mais bela
De tua inspiração.
O sol de tua glória foi toldado...
Teu poema da América manchado,
Manchou-o a escravidão”.

Castro Alves (1847-1871)

Nhá Carola

Dila Rodrigues
Arrepanhando o vestido
De chita azul, nhá Carola,
Põe feijão na caçarola
Para o almoço do marido.
Dorme um cachorro estendido
À porta da casinhola;
Gritam galinhas de Angola
No terreiro bem varrido.
Enquanto chia a panela,
A moça vai à janela,
A ver se o marido vem.
Mas entra logo zangada
Porque na volta da estrada
Não aparece ninguém.

Ricardo Gonçalves (1893–1916)

19 de novembro de 2013

Hoje

José Alsina
Hoje queria um dia
feito de horas de oferecer.
Porque há dias diferentes.
Dias especiais em que queremos encomendar o sol,
a luz do horizonte, a doçura do ar.
Queria oferecer um dia hoje.
Um dia perfeito.
Embrulhado em momentos guardados.
Talvez com uma fita cor de certeza calma,
e um laço pleno de voltas cúmplices.
Só um dia.
Dado assim...

Mario Quintana (1906-1994)

Angústia

Alexei Harlamoff
Quando morta a felicidade,
A fé expira também!
Saudades de que se nutrem?
Os suspiros, que alvo têm?

Morta a fé, vai-se a esperança;
Como pois, viver pudera
Saudade que não tem crença,
Saudade que desespera?

Onde as graças do passado,
Se altivo gênio sanhudo
O cepticismo nos brada,
Foi mentira, engano tudo?

Em nada creio do mundo:
Ludíbrio da desventura,
A felicidade me acena
Só de um ponto - a sepultura.

Morreram minhas saudades,
E nem suspiros calados
Dentro d'alma pouco a pouco
Vão morrendo sufocados.

Laurindo Rabelo (1826-1864)

18 de novembro de 2013

Quadrinha

Myles Birket Foster
Um pássaro engaiolado
qualquer maldade suplanta.
Pois ele foi condenado,
simplesmente porque canta!

(Hildemar de Araújo Costa)

17 de novembro de 2013

Sísifo

Janusz Kapusta
A noite cai no dia
cai em si
é dia

O dia sai da noite
sai de si
é noite.

Ronald Polito