31 de julho de 2013

Caminho ao contrário

Kenneth Frazier
De vez em quando
caminho ao contrário:
é a minha maneira de lembrar.

Se caminhasse só para a frente,
poderia contar-te
como é o esquecimento.

Humberto Ak'abal
(poeta da Guatemala)

Todas as Águas

Claude-Marie Dubufe
Quando pensei que estava tudo cumprido
havia outra surpresa: mais uma curva
do rio, mais riso e mais pranto.
Quando calculei que tudo estava pago,
anunciaram-se novas dívidas e juros,
o amor e o desafio.
Quando achei que estava serena,
os caminhos se espalmaram
como dedos de espanto
em cortinas aflitas. E eu espio,
ainda que o olhar seja grande
e a fresta pequena.

Lya Luft

30 de julho de 2013

Silêncios

Elizabeth Sonrel
Largos Silêncios interpretativos,
Adoçados por funda nostalgia,
Balada de consolo e simpatia
Que os sentimentos meus torna cativos;

Harmonia de doces lenitivos,
Sombra, segredo, lágrima, harmonia
Da alma serena, da alma fugidia
Nos seus vagos espasmos sugestivos;

Ó silêncio! ó cândidos desmaios,
Vácuos fecundos de celestes raios
De sonhos, no mais límpido cortejo...

Eu vos sinto os mistérios insondáveis,
Como de estranhos anjos inefáveis
O glorioso esplendor de um grande beijo!

Cruz e Sousa (1861 -1898)

Ode para engomar

Sally Swatland
A poesia é branca:
sai da água envolta em gotas,
enruga-se e amontoa-se,
é preciso estender a pele deste planeta,
é preciso engomar o mar com a sua brancura
e vão e vêm as mãos,
alisam as sagradas superfícies
e assim se engendram as coisas:
dia a dia fazem as mãos o mundo,
une-se o fogo ao aço,
chegam o linho, o algodão e o cotim
da faina das lavandarias
e nasce da luz uma pomba:
a pureza regressa da espuma.

Pablo Neruda (1904-1973)

29 de julho de 2013

Soneto CXLV

Nadia Alamri
Quando se vir com água o fogo arder
e misturar com dia a noite escura,
e a terra se vir naquela altura
em que se veem os Céus prevalecer;

O Amor por Razão mandado ser,
e a todos ser igual nossa ventura,
com tal mudança, vossa formosura
então a poderei deixar de ver.

Porém não sendo vista esta mudança
no mundo (como claro está não ver-se),
não se espere de mim deixar de ver-vos.

Que basta estar em vós minha esperança,
o ganho de minh' alma e o perder-se,
para não deixar nunca de querer-vos.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

O Desejo

Valentine Cameron Prinsep
Não sei o que fazer: o meu coração está
dividido.

A Lua e as Pléiades estão deitadas, o tempo
passa e estou sozinha no meu leito, no
meio da noite.

As crianças trazem bonitos presentes e
ouve-se tocar melodiosa lira.

Mas a velhice já enrugou toda a minha
pele, os meus cabelos negros tornaram-se
brancos, os joelhos já não me aguentam, e
eu que parecia uma corça.

Que posso fazer? É inevitável: a aurora de
braços rosados leva-nos para a cova. Mas eu
ainda amo a volúpia e o amor tem para mim
o brilho e a beleza do sol.

Eu estremeço e a velhice já cobre a minha
pele.
O amor evade-se na perseguição dos jovens.

Agarra na tua lira e canta-nos, Afrodite,
com os seios cobertos de violetas.

Safo de Lesbos (600 a.C.)
Tradução: Serafim Ferreira

Curiosidade

Uma assassina que queria viver como missionária no Brasil
Myra Hindley
O jornal londrino "The Sun" publicou novos detalhes sobre a assassina em série Myra Hindley (foto acima), que nos anos 60, torturou e matou ao menos cinco crianças em Manchester (Inglaterra), com a ajuda de Ian Brady, com quem mantinha um obscuro relacionamento.
De acordo com arquivos da Scotland Yard, Myra elaborou um plano audacioso para fugir da prisão de Holloway, no norte de Londres, e viajar até o Brasil, onde ela pretendia viver como missionária religiosa.
O plano começou quando Myra conheceu a guarda carcerária Patricia Cairns, com quem passou a viver um romance na cadeia. Com a ajuda de Patricia, a condenada conseguiu fazer um molde da chave da sua cela usando barra de sabão.
Myra conseguiu até mudar o seu sobrenome - para Spencer - e dar entrada em um pedido para obter carteira de motorista.
Entretanto, uma inspeção no presídio em 1973 pôs fim ao plano de liberdade. Patricia foi presa e confessou sonhar com uma vida longe dali ao lado de Myra. A guarda dava uma vida de "luxo" à amada detenta, incluindo roupas, frutas frescas e goma de mascar. Patricia também tinha fotos com a amada na cela, registrando três anos de relacionamento amoroso.
A assassina em série morreu aos 60 anos, na prisão de Cookham Wood, em 2002.

Fonte:
Jornal O Globo: ( Curiosidades )

28 de julho de 2013

Haikai

Pam Ingalls
Fecho a minha porta.
Silencioso vou deitar-me.
Prazer de estar só…

Matsuo Bashô (1644 - 1694)
Tradução: Manuel Bandeira

Nunca te amei tanto

Vincent van Gogh
Jamais te amei tanto, ma soeur
Como ao te deixar naquele pôr do sol
O bosque me engoliu, o bosque azul, ma soeur
Sobre o qual sempre ficavam as estrelas pálidas
No Oeste.

Eu ri bem pouco, não ri, ma soeur.
Eu que brincava ao encontro do destino negro -
Enquanto os rostos atrás de mim lentamente
Iam desaparecendo no anoitecer do bosque azul.

Tudo foi belo nessa tarde única, ma soeur.
Jamais igual, antes ou depois -
É verdade que me ficaram apenas os pássaros
Que à noite sentem fome no negro céu.
Bertolt Brecht (1898-1956)

Figura Métrica

Joan Miró
Há um pássaro entre as árvores —
É o sol!
As folhas são pequenos peixes amarelos
Nadando no rio;
O pássaro plana rente a eles
Com o dia nas asas.
Fênix!
É ele que está produzindo
O intenso brilho entre os choupos.
É o canto do pássaro
Que ofusca o rumor
Das folhas no vento.

William Carlos Williams(1883-1963)
Tradução: Bernardo Souto

27 de julho de 2013

Haikai

Liz Wright
Quatro horas soaram.
Levantei-me nove vezes
Para ver a lua.

Matsuo Bashô (1644 - 1694)
Tradução: Manuel Bandeira

Harmonicórdio

Rosina Becker do Valle - A Floresta
O homem fala e a mulher cochicha,
O papagaio palra, o corvo grasna,
Cacareja a galinha, a rã coaxa,
Gorjeia o sabiá, chilra a cigarra;
Late o cão, mia o gato e grunhe o porco,
A raposa regouga, o touro muge,
Arrulha a linda pomba, zurra o asno,
Assobia o macaco e berra a cabra;
Ruge o leão, mas o corcel relincha,
Silva a serpente e o fradalhão se esgoela,
compõe o mestre belas harmonias,
– Só o poeta as compreende e canta!

Fagundes Varela (1841-1875)

Menino chorando na noite

Foto de Drummond criança
“Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído, um menino chora.
O choro atrás da parede, a luz atrás da vidraça
perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas.
E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher.

Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua,
longe um menino chora, em outra cidade talvez,
talvez em outro mundo.

E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta a cabeça
e vejo o fio oleoso que escorre pelo queixo do menino,
escorre pela rua, escorre pela cidade (um fio apenas).
E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando.”

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

26 de julho de 2013

O ELEFANTE

Sam Tolf
“Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.

Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.

É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.”

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Dobrada à moda do Porto

Liz Wright
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Álvaro de Campos
Fernando Pessoa (1888-1935)

25 de julho de 2013

O Ciúme

Freydoon Rassouli
Minha melhor lembrança é esse instante no qual,
pela primeira vez, me entrou pela retina
tua silhueta provocante e fina
como um punhal.
Depois, passaste a ser unicamente aquela
que a gente se habitua a achar apenas bela
e que é quase banal.
E agora que te tenho em minhas mãos, e sei
que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
e os teus sentidos são cinco brinquedos
com que brinquei;
agora que não mais me és inédita; agora
que compreendo que, tal como eu te vira outrora,
nunca mais te verei;
agora que, de ti, por muito que me dês,
já não me podes dar a impressão que me deste,
a primeira impressão que me fizeste;
— louco, talvez,
tenho ciúmes de quem não te conhece ainda
e, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda,
pela primeira vez!

Guilherme de Almeida (1860-1969)

O Baile

Wilhelm Gause
Se junto de mim te vejo
Abre-te a boca um bocejo,
Só pelo baile suspiras!
Deixas amor – pelas galas,
E vais ouvir pelas salas
Essas douradas mentiras!

Tens razão! Mais valem risos
Fingidos, desses Narcisos
– Bonecos que a moda enfeita –
Do que a voz sincera e rude
De quem, prezando a virtude,
Os atavios rejeita.

Tens razão! – Valsa, donzela,
A mocidade é tão bela,
E a vida dura tão pouco!
No burburinho das salas,
Cercada de amor e galas,
Sê tu feliz – eu sou louco!

E quando eu seja dormido
Sem luz, sem voz, sem gemido,
No sono que a dor conforta;
Ao concertar tuas tranças
No meio das contradanças
Diz tu sorrindo: “– Qu’importa?...

“Era um louco, em noites belas
“Vinha fitar as estrelas
“Nas praias, co’a fronte nua!
“Chorava canções sentidas
“E ficava horas perdidas
“Sozinho, mirando a lua!

“Tremia quando falava
“E – pobre tonto – chamava
“O baile – alegrias falsas!
“– Eu gosto mais dessas falas
“Que me murmuram nas salas
“No ritornelo das valsas. – ”

Tens razão! – Valsa, donzela,
A mocidade é tão bela
E a vida dura tão pouco!
P’ra que fez Deus as mulheres,
P’ra que há na vida prazeres?
Tu tens razão... eu sou louco!

Sim, valsa, é doce a alegria,
Mas ai! que eu não veja um dia
No meio de tantas galas –
Dos prazeres na vertigem,
A tua coroa de virgem
Rolando no pó das salas!...

Casimiro de Abreu (1839-1860)

24 de julho de 2013

As Letras

Foto Sergey Braga
Na tênue casca de verde arbusto
Gravei teu nome, depois parti;
Foram-se os anos, foram-se os meses,
Foram-se os dias, acho-me aqui.
Mas ai! O arbusto se fez tão alto,
Teu nome erguendo que não mais vi!
E nessas letras que aos céus subiam
Meus belos sonhos de amor perdi!

Fagundes Varela (1841-1875)

A Pera

John Roddam Spencer Stanhope
Como de cera
E por acaso
Fria no vaso
A entardecer

A pera é um pomo
Em holocausto
À vida, como
Um seio exausto

Entre bananas
Supervenientes
E maçãs lhanas

Rubras, contentes
A pobre pera:
Quem manda ser a?

Vinícius de Moraes (1913-1980)

Dizes-me

Mark E Dyer
Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?
Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,

Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, "é uma pedra",
Digo da planta, "é uma planta",
Digo de mim, "sou eu".
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?

Alberto Caeiro
Fernando Pessoa (1888-1935)

23 de julho de 2013

Amo as horas Noturnas

George Oze
Amo as horas noturnas do meu ser
em que se me aprofundam os sentidos;
nelas fui eu achar, como em caras velhíssimas,
já vivida a vida dos meus dias
e como lenda longínqua e superada.

Delas eu aprendi que tenho espaço
para uma segunda vida, vasta e sem tempo.

E por vezes me sinto como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
realiza o sonho que o menino foi
(em volta do qual apertam suas raízes quentes)
e perdeu em tristezas e canções.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

Dona Feia

Haydéa Santiago - Vestido novo
Feia e boa. Nasceu de uma saudade
E vive uma saudade a reviver…
Foge dessa alegria da Cidade
– para a Cidade não n’a conhecer…

Nossa Senhora de uma Soledade
dentro da soledade a padecer,
a feia — assim como a necessidade
que tenho, há tanto tempo, de a querer…

Tem a Dor e a Ilusão por companheiras
de sua vida, e guarda n’alma, quieta,
a virtude monástica das freiras.

E não sabe afinal, entre ilusões,
que tem a glória de envolver um Poeta
na mais pura de todas as paixões…

Ernani Vieira

22 de julho de 2013

O Desejo Pego Pelo Rabo

A foto abaixo foi feita no dia 06/06/1944 durante a reunião preparada para a primeira leitura dramática da peça “Désir attrapé par la queue” escrita três anos antes por Pablo Picasso. Na ocasião estavam presentes os principais formadores do espírito cultural de Paris, capturados pelas lentes do fotógrafo Gyula Halasz, o húngaro Brassai que, por razões óbvias, não aparece na foto. Naquela noite, Brassai testemunhou e registrou em dezenas de fotos o modo como se reuniam e celebravam a noite inteira com bebida, risos, inteligência e ironia até as primeiras horas da manhã. Quem atesta o motivo e a data da foto é a historiadora da Psicanálise Elizabeth Roudinesco.
Da esquerda para a direita (de pé): Jacques Lacan, Cecile Eluard, Pierre Reverdy, Louise Leiris, Zanie Campan, Pablo Picasso, Valentine Hugo e Simone de Beauvoir. Abaixados: Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Michel Leiris e Jean Abier. Coçando-se: um cãozinho anônimo.

Soneto 65

Paul Klee
Se nem o bronze, a pedra, a terra, o mar infinito,
Senão a triste mortalidade que supera o seu poder,
Como pode a beleza defender-se diante da fúria,
Cuja ação não é mais firme que uma flor?
Como pode a cálida aragem de estio superar
O desastroso ataque dos exaustivos dias,
Quando sólidas montanhas não são indevassáveis,
Nem portões de aço poupam o tempo da ruína?
Ó temível pensamento! Onde se esconderá
A joia mais magnífica do gélido abraço do tempo?
Ou que mão poderosa deterá seus ágeis pés,
Ou quem proibirá a destruição de sua beleza?
Ah, ninguém, a menos que um milagre aconteça:
Que esta negra tinta possa resplandecer o meu amor.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Thereza Christina Motta

Provérbios do inferno

Haydéa Santiago
No tempo de semear, aprende; no da colheita, ensina;
deleita-te no inverno.
O caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria.
A prudência é uma solteirona rica e feia,
cortejada pela incapacidade.
Quem deseja e não age, gera pestilência.
Atira dentro do rio quem gostar de água.
Jamais se torna estrela aquele cujo rosto não irradia luz.
Conta, peso e medida são para o ano da escassez.
Persistisse o louco na loucura, ele encontraria a sabedoria.
Loucura, máscara da patifaria.
Pudor, máscara do orgulho.
Orgulho do pavão, glória de Deus; lascívia do bode,
munificência de Deus; ira do leão, sabedoria de deus;
nudez da mulher, trabalho de Deus.
Os rugidos do leão, os uivos do lobo,
o furor do mar tempestuoso e a espada aniquiladora
são parcelas da eternidade, demasiadamente grandes
para o olho do homem.

As alegrias fecundam; as dores dão à luz.
Ave: ninho; aranha: teia; homem: amizade.
Se estiveres sempre decidido a revelar a tua opinião, o torpe te evitará.
Tudo o que for possível de ser acreditado é um reflexo da verdade.
De manhã, pensa; ao meio-dia, age; à tarde, come; à noite, dorme.
São mais sábios os tigres da ira, do que os cavalos da educação.
Conta como certo o veneno da água parada.
Só podes conhecer o que é suficiente se conheceres
o que é mais do que suficiente.
Fraco de coragem, forte de astúcia.
Se os outros não fossem néscios, nós o seríamos.
Alma de prazer delicado não pode se conspurcada.
Maldição ata; bênção desata.
Cabeça: o Sublime; coração: o Patos; genital;
Beleza; pés e mãos: a proporção.
Ar para o pássaro. Mar para o peixe; desprezo para o desprezível.
O corvo quer tudo preto; a coruja tudo branco.
Exuberância e beleza
Melhor matar uma criança no berço que acalentar desejos inativos.
O bastante; ou o Demasiado.

William Blake (1757-1827)