31 de maio de 2013

Auto-Retrato

Teun Hocks
Certa vez, numa aventura estranha
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.

Moacyr Félix (1926-2005)

O ausente

Manuel Ocaranza
Tudo que foi luz
e hoje desmaia em treva
sob a errática
e suas confusas pétalas
tudo o que amamos e em desejo tivemos
com sede amarga de posse
em lábios angustiados
renasce deste silêncio de orfandade
e da vida faz cinza
e morte.

O inverno é que não estejas
senão nos olhos áridos da insônia
ai, que não estejas e o sol já não aquece
e o mar não dança entre rochedos
e o pássaro é um triste voo
que adormece.

Dora Ferreira da Silva (1918-2006)

Encontro da felicidade

Pasquale Celommi
Tu és a luz dos meus olhos,
Fagulha que me guia nas noites de agonia.
Tu és o calor que alimenta meu coração em alegria,
Onde meu corpo afugenta da tormenta do dia a dia.
Tu és a água que banha a minha alma em calmaria,
Com uma paz tamanha como o anoitecer de Maria.
Tu és a terra firme que piso caminho e perfaço,
Confirmando o amor sublime, tão forte como o aço.
Tu és a fonte de vida que renova a cada instante,
Num inspirar e expirar eternamente sanante.

Jane Baruki Ferreira

30 de maio de 2013

Tua ausência

Guido Borelli
“Em nome da tua ausência
Construi com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei”.

Sophia de Mello Breyner (1919-2004)

Trovas de muito amor…

Pasquale Celommi
Amo e conheço.
Eis porque sou amante
e vos mereço.
*********************De entendimento
*********************Vivo e padeço.
*********************Vossas carências
*********************Sei-as de cor.

E o desvario
Na vossa ausência
Sei-o melhor.
*********************Tendes comigo
*********************Tais dependências
*********************Mas eu convosco
Tantas ardências
*********************Que só me resta
********************* O amar antigo:
*********************Não sei dizer-vos
*********************Amor, amigo.
Mas é nos versos
Que mais vos sinto
E na linguagem
Desta canção
Sei que não minto.

Hilda Hilst (1930-2004)

Os pássaros nascem na ponta das árvores


“Os pássaros são o fruto
mais vivo das árvores”.

Ruy Belo
Photo Megan Duncanson
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros pousam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração.

Ruy Belo (1933-1978)

29 de maio de 2013

Tentação

Guido Borelli
Maio se extingue
e com tal luz
e de tal forma se extingue
que um pecado oculto me sugere:
não olhe porque maio não é seu.
Ninguém se livra de maio.
Encantados todos viram as cabeças:
'Do que é mesmo que falávamos?'
De tua luz eterna, ó maio,
rosa que se fecha sem fanar-se.

Adélia Prado

Prá não dizer que não falei “de” flores…

George Dunlop Leslie
“Não, o coração que amou de fato jamais esquece,
Mas continua amando até o fim.
Como o girassol volta para seu deus, quando ele se põe,
O mesmo olhar que lhe dirigiu quando ele nasceu”.

Thomas Moore (1779-1852)
Tradução: Ary de Mesquita

“Contranarciso”.

Simeon Solomon
Em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós.

Paulo Leminski (1944-1989)

28 de maio de 2013

Justiça

Stephan Bakalowicz
“Não tenho nada a dizer. Somente a mostrar. Não surrupiarei coisas valiosas, nem me apropriarei de formulações espirituosas. Porém, os farrapos, os resíduos: não quero inventariá-los, e sim fazer-lhes justiça da única maneira possível: utilizando-os”.
Walter Benjamin (1892-1940)

O amor

Tela de Martha Barros
O amor não é um caminho
que lhe traz de volta pra casa.
Amor é a casa!

Sri Sri Ravi Shankar

Aterrissage

Adrien de Boucherville
Um risco nos íngremes
e queda vertical de reticência de sóis.

Brilhos mica,
facetas duras,
multiplicando a paisagem
como os olhos simultâneos de um inseto

Tropicão, trambolhão
salto
pulo
rodopio
e a bola, espirala, resvala, rebola,
encarola,
desenrola

e de novo
reta como uma bola,
rola...

ROLA
e voa e vai varando vertiginosa o vácuo vago
e assoviiiia fino no espaço oco...

UMA PEDRA ROLOU PELA ENCOSTA DA MONTANHA.

Pedro Nava (1903-1984)

27 de maio de 2013

Morre Roberto Civita

Candeeiro

Alfred Andre Geniole
Em torno ao candeeiro desolado
Cujo petróleo me alumia a vida,
Paira uma borboleta, por mandado
Da sua inconsistência indefinida.

Fernando Pessoa (1888-1935)

Mulheres

Marie-Félix Hippolyte-Lucas
“Honrai as mulheres ! Elas traçam e tecem
Rosas celestes na vida terrestre,
Traçam os laços felizes do amor.
E na graça de seus véus decentes
Nutrem vigilantes o fogo eterno
De belos sentimentos com mão abençoada.”

Friedrich Schiller (1759-1805)

Paisagem No. 1

Photo Alex Joukowski
Minha Londres das neblinas finas!
Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.
Há neve de perfumes no ar.
Faz frio, muito frio...
E a ironia das pernas das costureirinhas
parecidas com bailarinas...
O vento é como uma navalha
nas mãos dum espanhol. Arlequinal!...
Há duas horas queimou Sol.
Daqui a duas horas queima Sol.

Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos,
um tralálá... A guarda-cívica! Prisão!
Necessidade a prisão
para que haja civilização?
Meu coração sente-se muito triste...

Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas
dialoga um lamento com o vento...

Meu coração sente-se muito alegre!
Este friozinho arrebitado
dá uma vontade de sorrir!

E sigo. E vou sentindo,
à inquieta alacridade da invernia,
como um gosto de lágrimas na boca...

Mário de Andrade (1893 -1945)

26 de maio de 2013

Definição

Serge Marshennikov
O corpo é onde
é carne:
o corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.
O corpo é onde
é chama:
o corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.
O corpo é onde
é luta:
o corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.
O corpo é onde
é cal:
o corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.
O corpo
é onde
e a vida
é quando.

Affonso Romano de Sant'Anna
Irene Sheri
“(...) Ontem à noite eu chorei. Chorei porque o processo do meu crescimento foi doloroso. Chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança. Chorei porque os meus olhos estavam abertos para a realidade (...).Chorei porque não podia mais acreditar, e adoro acreditar.
Ainda consigo amar apaixonadamente (...). Isto significa que amo humanamente. Chorei porque daqui por diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada à ausência dela”.
Anaïs Nin (1903-1977)

Pescador

Foto de Ricardo Carreon
Nas mãos,
o retrato da vida:
aspereza.

São hábeis
ao manusear a naveta
entrelaçando fios.

A cada laçada
seus sonhos reverdecem.

Nos losangos trançados
o vazio da vida
se imensa.

Só vento carrega
o pescador para o alto mar.
Cativo viaja.

Dúnia de Freitas

25 de maio de 2013


“A liberdade é incompatível com o amor:
um amante é sempre um escravo”.

Baronesa de Staal (1684-1750)
Marc Chagall - Os amantes com copo de vinho
“Deita-me água, rapaz, deita-me vinho
e tece-me grinaldas de mil flores.
Meu coração arrisco, depois disto,
para lutar então com o próprio Amor”.

Anacreonte (563 a.C.– 478 a.C.)
Tradução: David Mourão Ferreira

Joseph Caraud
(...) Se por acaso, não sei por que excesso de socialismo ou de barbárie, todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto uma, é a disciplina literária que deveria ser salva, pois todas as ciências estão presentes no monumento literário. (...)
Roland Barthes (1915-1980)

Risco

Romero Brito
Um poema livre
da gramática, do som
das palavras
livre
de traços

Um poema irmão
de outros poemas
que bebem a correnteza
e brilham
pedras ao sol

Um poema
sem o gosto
de minha boca
livre da marca
de dentes em seu dorso
Um poema nascido
nas esquinas nos muros
com palavras pobres
com palavras podres
e
que de tão livre

traga em si a decisão
de ser escrito ou não.

Oswald de Andrade (1890-1954)

24 de maio de 2013

Trova

Pintura de Khalil Gibran
Ao nosso espírito ardente,
na avidez do bem sonhado,
nunca o passado é presente,
nunca o presente é passado.

Machado de Assis (1839-1908)

Um perfil

Jules Scalbert
O pouso dos longos dedos
no monte macio e escuro
a busca por muitos dias
do ponto e momento lânguidos
e um horizonte róseo e úmido
que a língua aceita e desata
em movimentos todas as ações
o cio derramado aos pés que beijo
de joelhos e arfando e ouvindo
o doce e profundo gemido que vem
do espelho à tua esquerda.

Lívio Oliveira

Canção Final

Michael & Inessa Garmash
Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

23 de maio de 2013

Quadrilha

Stephan Bakalowicz
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)