30 de abril de 2013

HOKUSAI

Katsushika Hokusai
Nos charcos chatos
caniços verticais
rompem retos
a luz redonda...

A lua redonda
onde pula a carpa de Hokusai...

Ronald de Carvalho (1893-1935)

Santo Agostinho estava à frente de seu tempo

El Greco - Saint Augustine
“Que é, pois, o tempo?
Se ninguém me pergunta,
eu o sei; se desejo explicar
a quem o pergunta, não o sei”.

Santo Agostinho (354-430)

Santo Agostinho é considerado o último dos pensadores antigos, já que cronologicamente e tematicamente se situa no contexto do pensamento antigo, e o primeiro dos medievais, já que sua obra, de grande originalidade influencia fortemente os rumos que tomaria o pensamento medieval em seus primeiros séculos.
Santo Agostinho foi um homem entre dois tempos. Entre um tempo romano que desmoronava e o tempo medieval em formação. O jeito romano de olhar para o mundo cedia lugar ao olhar cristão medieval.
Dos escombros de Roma os cristãos construiriam uma nova sociedade. Em 410, Roma, absolutamente fragilizada, foi saqueada pelos godos. Os pagãos - nome com que a Igreja designa os não cristãos - atribuíram a invasão ao fato de os romanos terem abandonado os deuses antigos. De acordo com eles, enquanto fora adorado, Júpiter protegera a cidade; ao ser "trocado" pelo cristianismo, deixara de fazê-lo.
Entre 412 e 427, Santo Agostinho escreveu "A Cidade de Deus", um livro cuja base era a filosofia grega e que exerceria forte influência nos tempos medievais. Nele respondeu a tais acusações, argumentando que coisas piores haviam ocorrido em tempos pré-cristãos. Que os deuses pagãos eram perversos. Ele não negava a existência de entidades como Baco, Netuno e Júpiter, considerados demônios.
Demônios que ordenavam aos homens, por exemplo, que criassem peças teatrais, definidas por Santo Agostinho como "espetáculos da imundície". Em razão desses deuses, Roma sempre fora perversa e pecaminosa.
Com o cristianismo, ela se salvaria. E, se a cidade dos homens fora invadida, pouco importava, já que o objetivo maior dos homens era a salvação por meio da bondade para atingir a cidade de Deus, a sociedade dos eleitos.
A busca central não era a cidadania na sociedade dos homens, mas a salvação no reino de Deus.
Para falar sobre o mal que habitaria os homens, Santo Agostinho relatou, em suas "Confissões" - história apaixonada de sua descoberta de Deus -, que na infância roubara peras da árvore de um vizinho, embora não estivesse com fome e na casa de seus pais houvesse melhores. Fizera-o por maldade e considerava tal ato um de seus maiores pecados. O pecado para ele habitava todos os homens.
E, se os bebês são inocentes, não é porque lhes falte o desejo de fazerem o mal, mas por carecerem de força.
A Cidade de Deus foi escrita por Agostinho para tratar do confronto que a Cristandade enfrentava com a História. Escrita entre 413 a 426 é a interpretação do mundo à luz da fé cristã. Trata-se da primeira teologia e filosofia da História.

29 de abril de 2013

Retrato em Luar

John Collier
Sinto-me toda igual às arvores:
Solitária, perfeita e pura.

Aqui estão meus olhos nas flores,
Meus braços ao longo dos ramos:
E, no vago rumor das fontes,
Uma voz de amor que sonhamos.

Cecília Meireles (1901-1964)

Destino

Edmund Blair Leighton
Há tantos caminhos no mundo,
Há tanto que caminhar,
Que é fácil perder o rumo
E não ter onde chegar.

Em cada caminho, um desvio,
Uma infinidade deles,
Como os braços de um rio,
Desafiando quereres.

Em cada bifurcação,
Outro risco, outro receio.
Urgência de decisão,
Na correnteza sem freio.

E assim, não há quem consiga
Ter clareza do destino.
Atravessamos a vida
Com os medos de menino.

Carlos Augusto Cacá

TRIBO

August Macke
Eu ontem comecei a ir.
Fui belo como convém.
Em se tratando de ir,
Vai-se muito mais que vem.

Hoje retornei a ida
Sem ter certeza dos planos.
A procura da saída
Pode atravessar os anos.

Amanhã irei de novo,
Até encontrar meu povo.
Pode ser que não consiga.

Caminhar é meu enredo.
Vou indo, mesmo com medo.
O próprio medo me obriga.

Carlos Augusto Cacá

28 de abril de 2013

Wilfrid Gabriel de Glehn
Eu queria ser banhado por um rio como
um sítio é.
Como as árvores são.
Como as pedras são.
Eu fosse inventado de ter uma garça e outros
pássaros em minhas árvores.
Eu fosse inventado como as pedrinhas e as rãs
em minhas areias.
Eu escorresse desembestado sobre as grotas
e pelos cerrados como os rios.
Sem conhecer nem os rumos como os
andarilhos.
Livre, livre é quem não tem rumo.

Manoel de Barros

Fábula da fábula

Anne Weirich
Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda gente
Inteligente,
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base duns insetos,
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.

E realmente…
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demônio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.

Miguel Torga (1907-1995)

27 de abril de 2013

Haikai

Apesar do sol
Ardendo sem compaixão,
O vento de outono.

Matsuo Bashô (1644-1694)

Hino à razão

Francisco de Goya
Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre, só a ti submissa.
Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.
Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre clarões;
E os que olham o futuro e cismam, mudos,
Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!

Antero de Quental (1842-1891)

Soneto a quatro mãos

Gabriel de Cool
Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado.
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.

Vinícius de Moraes (1913-1980) e
Paulo Mendes Campos (1922-1991)

26 de abril de 2013

Migração

Marc Chagall
Do Leste vieram pássaros
rápidos leves
nem sombra nem rastro
deixam:
apenas passam. Não pousam.

Orides Fontela (1940-1998)

Quermesse

Bonaventura Cariolato - Festa na aldeia
Recordo uma quermesse em Santa Rita…
A praça principal, ornamentada,
A Banda no coreto, entusiasmada,
Executando a marcha favorita…

Defronte a uma barraca, a petizada
De olhos fitos na prenda mais bonita…
O Correio elegante… a senhorita
Que outrora fora minha namorada.

A barraca do Bar e do Café,
O bloco do catira, o bate-pé
Sobre um tablado, rústico e bisonho…

Assim é que relembro nossa terra,
A cidade feliz que se descerra
Na perpétua quermesse do meu sonho!

Mário Mauro Matoso

Peregrino

"Peregrino e hóspede sobre a Terra".
Mural dedicado a Ruy Belo em Portugal
Meu único país é sempre onde estou bem
é onde pago o bem com sofrimento
é onde num momento tudo tenho
O meu país agora são os mesmos campos verdes
que no outono vi tristes e desolados
e onde nem me pedem passaporte
pois neles nasci e morro a cada instante
que a paz não é palavra para mim
O malmequer a erva o pessegueiro em flor
asseguram o mínimo de dor indispensável
a quem na felicidade que tivesse
veria uma reforma e um insulto
A vida recomeça e o sol brilha
a tudo isto chamam primavera
mas nada disto cabe numa só palavra
abstrata quando tudo é tão concreto e vário
O meu país são todos os amigos
que conquisto e que perco a cada instante
Os meus amigos são os mais recentes
os dos demais países os que mal conheço e
tenho de abandonar porque me vou embora
porque eu nunca estou bem aonde estou
nem mesmo estou sequer aonde estou
Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
mas o país que tinha já de si pequeno
fizeram-no pequeno para mim
os donos das pessoas e das terras
os vendilhões das almas no templo do mundo
Sou donde estou e só sou português
por ter em Portugal olhado a luz pela primeira vez.

Ruy Belo (1933-1978)

25 de abril de 2013

Reflexão

Talbot Hughes
Está fora
de meu alcance
o meu fim.

Sei só até
onde sou
contemporâneo
de mim.

Ferreira Gullar

Voz interior

Harold Knight
Quem sou eu? De onde venho e onde acaso me leva
o Destino fatal que os meus passos conduz?
Ora sigo, a tatear, mergulhado na treva,
ou tateio, indeciso, ofuscado de luz.
Grão, no campo da Vida, onde a morte se ceva?
Semente que apodrece e não se reproduz?
De onde vim? Da monera? Ou vim do beijo de Eva?
E aonde vou, gemendo, a sangrar os pés nus?
Nessa esfinge da Vida a verdade se esconde;
O espírito concentro e consulto a razão,
E uma voz interior, sincera, me responde:
- Quem és tu? Operário honesto da nação.
De onde é que vens? De casa.
Onde é que estais? No bonde.
Para onde vais? Não vês? Para a repartição.

Bastos Tigre (1882-1957)

Amor

Serge Marshennikov
Quero um amor alucinado, depravado, tarado.
Amor inteiro, de corpo-a-corpo, enlaçados.
Amor sem reserva, que a tudo se entrega, lancinante.

Quero você assim, abrasada, pedindo gozo,
Eriçada, ronronando feito gata, tesuda.
Seus seios túmidos, me furando o peito.

Quero você, pentelho contra pentelho, roçantes.
Carne encravada na carne. Bocas coladas,
Babadas, meladas, sangrando sufocadas.

Quero amar você tão bichalmente que urremos.
Eu, penetrando rasgando. Você me comendo furiosa.
Nós dois fundidos, unidos, soldados.

Você e eu, nós dois, sós, neste mundo dos outros.

Darcy Ribeiro (1922-1997)

24 de abril de 2013

Jean Hippolyte Flandrin
Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.

António Gedeão (1906-1997)

Serlock Holmes

Frank Robert Dixon
Não teve nunca mãe nem ancestrais maiores.
Idêntico é o caso de Quijano e Adão.
Foi feito pelo acaso. Imediato ou à mão,
regem-no os vaivéns de variáveis leitores.

Não é erro pensar que nasce no momento
em que é visto pelo outro que lhe conta a história
e morre sempre em cada eclipse da memória
de todos os que o sonham. Mais vazio que o vento.

É casto. Nada sabe do amor. Não quis.
Esse homem tão viril renunciou à arte
de amar. Em Baker Street vive só e à parte.
A arte de esquecer também nada lhe diz.

Sonhou-o um irlandês, que nunca lhe quis bem
e que tentou matá-lo, ao que parece. Em vão.
Esse homem, só, prossegue, com a lupa na mão,
um destino invulgar de coisa sem além.

Ele não tem relações, mas não o atraiçoa
a devoção do outro, o seu evangelista
e que dos seus milagres nos deixou a lista.
Vive comodamente: em terceira pessoa.

Tomar banho não vai. Também não visitava
esse retiro Hamlet, lá na Dinamarca
sem saber quase nada dessa vã comarca
que é a espada e o mar, o arco e a aljava.

(“Omnia sunt plena Jovis.” Da mesma maneira
diremos desse justo que dá nome aos versos
que a sua fugaz sombra percorre nos diversos
domínios em que foi segmentada a esfera.)

Espevita no seu lar as inflamadas chamas
ou dá morte nos pântanos a um cão do inferno.
Esse alto cavalheiro ignora que é eterno.
Resolve ninharias, repete epigramas.

Chega-nos de uma Londres de gás e neblina,
A Londres que se sabe capital do império
que lhe interessa bem pouco, a Londres de mistério
tranquilo, que não quer sentir que já declina.

Não nos surpreendamos. Depois da agonia,
o fado ou o acaso (são a mesma coisa)
concede a cada um essa sorte curiosa
de ser forma e ser eco a morrer dia a dia.

Até ao dia último em que o esquecimento,
que é a meta comum, nos esqueça de todo.
Antes que nos atinja, brinquemos com o lodo
de ser durante um tempo, de ser e de ir sendo.

Pensar de tarde em tarde em Sherlock Holmes é uma
dessas boas rotinas que restam. A morte
e a sesta são outras. É a nossa sorte:
convalescer num parque ou contemplar a Lua.

Jorge Luis Borges (1899-1986)
Tradução: Fernando Pinto do Amaral

Aos Deuses sem Fiéis

Károly Ferenczy – Sermão da Montanha
Talvez a hora escura, a chuva lenta,
Ou esta solidão inconformada.
Talvez porque a vontade se recolha
Neste findar de tarde sem remédio.

Finjo no chão as marcas dos joelhos
E desenho o meu vulto em penitente.
Aos deuses sem fiéis invoco e rezo,
E pergunto a que venho e o que sou.

Ouvem-me calados os deuses e prudentes,
Sem um gesto de paz ou de recusa.
Entre as mãos vagarosas vão passando
A joeira do tempo irrecusável.

Um sorriso, por fim, passa furtivo
Nos seus rostos de fumo e de poeira.
Entre os lábios ressecos brilham dentes
De rilhar carne humana desgastados.

Nada mais que o sorriso retribui
O corpo ajoelhado em que não estou.
Anoitece de todo, os deuses mordem,
Com seus dentes de névoa e de bolor,
A resposta que aos lábios não chegou.

José Saramago (1922-2010)

23 de abril de 2013

Inscrição para uma Lareira

George Owen Wynne Apperley
A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas.
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida…

Mario Quintana (1906-1994)

23 • Dia do Chorinho

"Chorinho" - Portinari
No dia 23 de abril se comemora o Dia Nacional do Choro, trata-se de uma homenagem ao nascimento de Pixinguinha (1897-1973).
Alfredo da Rocha Viana Filho, conhecido como Pixinguinha, foi flautista, saxofonista, compositor e arranjador brasileiro.
Pixinguinha é considerado um dos maiores compositores da música popular brasileira, contribuiu diretamente para que o choro encontrasse uma forma musical definitiva.
A data foi criada oficialmente em 4 de setembro de 2000, quando foi sancionada lei originada por iniciativa do bandolinista Hamilton de Holanda e seus alunos da Escola de Choro Raphael Rabello.
Pixinguinha faleceu na igreja de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, quando seria padrinho de um batizado.
O Choro, popularmente chamado de chorinho, é um gênero de música popular e instrumental brasileira.
O músico, compositor ou instrumentista, ligado ao choro é chamado chorão. Característica frequentemente apreciada no choro é o virtuosismo dos instrumentistas, bem como a capacidade de improvisação dos executantes.
Alguns dos chorões mais conhecidos são:
  • Chiquinha Gonzaga,
  • Ernesto Nazareth e
  • Pixinguinha.

    Alguns choros famosos:
  • "Tico-Tico no Fubá", de Zequinha de Abreu.
  • "Brasileirinho", de Waldir Azevedo.
  • "Noites Cariocas", de Jacob do Bandolim.
  • "Carinhoso" e "Lamento" de Pixinguinha
  • "Odeon", de Ernesto Nazareth.
O choro serviu de inspiração a diversos compositores eruditos brasileiros e estrangeiros. Dentre as composições de Heitor Villa-Lobos, o ciclo dos Choros é considerado um conjunto de obras importantes.
O compositor francês Darius Milhaud, que foi adido cultural da França no Brasil, inseriu em sua peça ‘Scaramouche’ algumas ideias de choro, inclusive com um plágio de ‘Brejeiro’, de Nazareth.
Também a música erudita inspirou os chorões, como o flautista Altamiro Carrilho, que gravou discos chamados Clássicos em Choro, nos quais toca música clássica com sotaque de choro.
Ouça Altamiro Carrilho ( Carinhoso )

23 • Dia de São Jorge

Sir Edward Burne Jones - Saint George
A seu respeito contou-se muitas histórias. Fundamentos históricos temos poucos, mas o suficiente para podermos perceber que ele existiu.
São Jorge (275-303) Nasceu em Lod, Síria em 275 AD. Era padre e soldado. Mudou-se para Nicodema e tornou-se soldado do Imperador Diocleciano. Transformou-se num grande e respeitado guerreiro, mas era um seguidor de Cristo e o imperador fez de tudo para retirar sua fé, não conseguindo.
São Jorge foi torturado e morto por decapitação em 23 de abril de 303.
A luta contra o dragão é uma lenda. Em Cirene, havia uma fonte de água e nela um dragão ou um crocodilo fez o ninho. Para deslocá-lo e apanhar água, era necessário oferecer uma ovelha. Na falta desta era escolhida uma jovem. Um dia, a jovem escolhida foi uma princesa quando chegou São Jorge e matou o dragão salvando-a.
É santo padroeiro da Inglaterra, Portugal, Catalunha, Lituânia e Moscou. Nos cultos afro-brasileiros é venerado como Ogum.
O governador Sérgio Cabral sancionou desde 2008 Dia de São Jorge 23 de abril como feriado estadual.

22 de abril de 2013

22 . Dia do Planeta Terra

Pedra Filosofal
Carol e Mike Werner
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultrassom, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão (1906-1997)

Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És a um tempo, esplendor e sepultura:
ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela.

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto
clangor, lira singela,
Que tens o
trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Olavo Bilac (1865-1918)
Vocabulário:
clangor = Som estridente (de trombeta).
trom = Som do canhão.
procela = tempestade, agitação.
Lácio = Região da Itália antiga.

No poema Língua Portuguesa, o autor parnasiano Olavo Bilac faz uma abordagem sobre o histórico da língua portuguesa, tema já tratado por Camões. Este poema inspirou outras abordagens, como o poema “Língua”, de Gilberto Mendonça e “Língua Portuguesa”, de Caetano Veloso.
Partindo para uma análise semântica do texto literário, observa-se que o poeta, com a metáfora “Última flor do Lácio, inculta e bela”, refere-se ao fato de que a língua portuguesa ter sido a última língua neolatina formada a partir do latim vulgar – falado pelos soldados da região italiana do Lácio.
No segundo verso, há um paradoxo: “És a um tempo, esplendor e sepultura”. “Esplendor”, porque uma nova língua estava ascendendo, dando continuidade ao latim. “Sepultura” porque, a partir do momento em que a língua portuguesa vai sendo usada e se expandindo, o latim vai caindo em desuso, “morrendo”.

21 de abril de 2013

Filmaço!

O Sonho da Liberdade: I Am David
Título no Brasil: O Sonho da Liberdade
Título Original: I Am David
País de Origem: EUA
Ano de Lançamento: 2003
Hoje assisti o filme O Sonho da Liberdade: I Am David. Amei esse filme! Achei de uma sensibilidade incrível por parte de toda a equipe. É muito comovente, primoroso.
O filme, é uma adaptação do romance de Anne Holm: "North to Freedom". É a história de um menino de 12 anos, David, que escapa de um campo de concentração comunista com pouco mais que uma pequena bússola, um pedaço de pão e instruções para entregar uma carta em Copenhagen, na Dinamarca.
Fiquei pensando... Quando é que no Brasil farão um filme desse nível ? ? ? ?

Haikai

August Macke
Fecho a minha porta.
Silencioso vou deitar-me.
Prazer de estar só...

Matsuo Bashô (1644-1694)
Trad. Manuel Bandeira