31 de março de 2013

Haikai

Caspar David Friedrich
Dentro da mata -
Até a queda da folha
Parece viva.

Paulo Franchetti

Canção da noite alta

Ting Shao Kuang
Menina está dormindo.
Coração bulindo.
Mãe, por que não fechaste a janela?

É tarde, agora:
Pé ante pé
Vem vindo
O Cavaleiro do Luar.
Na sua fronte de prata
A lua se retrata.
No seu peito
Bate um coração perfeito.
No seu coração
Dorme um leão,
Dorme um leão com uma rosa na boca.
E o príncipe ergue o punhal no ar:
...um grito
aflito...
Louca!

Mario Quintana (1906-1994)

Santo e Senha

David Martiashvili
Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada

Deixem, que vai apenas
Beber água de sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora

Que vai cheio de noite e solidão
Que vai ser uma estrela no chão.

Miguel Torga (1907-1995)

30 de março de 2013

Haikai

Vincent Van Gogh
Voar sempre, cansa -
por isso ela corre
em passo de dança.

Eugénia Tabosa

Haikai

Itô Jakuchu (1716-1800)
Apenas vós,
Árvores de tronco branco,
Me garantis que retornei.

Paulo Franchetti

Haikai

Itô Jakuchu
Sobre um ramo seco
uma folha se pousa
e trina ao vento.

Rogério Martins

Páscoa

História da Páscoa
A Páscoa é uma das datas comemorativas mais importantes entre as culturas ocidentais. A origem desta comemoração remonta muitos séculos atrás. O termo “Páscoa” tem uma origem religiosa que vem do latim Pascae. Na Grécia Antiga, este termo também é encontrado como Paska. Porém sua origem mais remota é entre os hebreus, onde aparece o termo Pesach, cujo significado é passagem.
Entre as civilizações antigas
Historiadores encontraram informações que levam a concluir que uma festa de passagem era comemorada entre povos europeus há milhares de anos atrás. Principalmente na região do Mediterrâneo, algumas sociedades, entre elas a grega, festejavam a passagem do inverno para a primavera, durante o mês de março. Geralmente, esta festa era realizada na primeira lua cheia da época das flores. Entre os povos da antiguidade, o fim do inverno e o começo da primavera era de extrema importância, pois estava ligado a maiores chances de sobrevivência em função do rigoroso inverno que castigava a Europa, dificultando a produção de alimentos.
A Páscoa Judaica
Entre os judeus, esta data assume um significado muito importante, pois marca o êxodo deste povo do Egito, por volta de 1250 a.C, onde foram aprisionados pelos faraós durantes vários anos. Esta história encontra-se no Velho Testamento da Bíblia, no livro Êxodo. A Páscoa Judaica também está relacionada com a passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho, onde liderados por Moises, fugiram do Egito.
Nesta data, os judeus fazem e comem o matzá (pão sem fermento) para lembrar a rápida fuga do Egito, quando não sobrou tempo para fermentar o pão.
A Páscoa entre os cristãos
Entre os primeiros cristãos, esta data celebrava a ressurreição de Jesus Cristo (quando, após a morte, sua alma voltou a se unir ao seu corpo). O festejo era realizado no domingo seguinte a lua cheia posterior ao equinócio da Primavera.
Entre os cristãos, a semana anterior à Páscoa é considerada como Semana Santa. Esta semana tem início no Domingo de Ramos que marca a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém e termina no Domingo de Páscoa considerado o Dia da Ressureição de Cristo.
Sir Edward Burne-Jones - The Morning Of The Resurrection
Tiziano Vecellio Titian - Transfiguration
A História do coelhinho da Páscoa e os ovos
A figura do coelho está simbolicamente relacionada à esta data comemorativa, pois este animal representa a fertilidade. O coelho se reproduz rapidamente e em grandes quantidades. Entre os povos da antiguidade, a fertilidade era sinônimo de preservação da espécie e melhores condições de vida, numa época onde o índice de mortalidade era altíssimo. No Egito Antigo, por exemplo, o coelho representava o nascimento e a esperança de novas vidas.
Mas o que a reprodução tem a ver com os significados religiosos da Páscoa? Tanto no significado judeu quanto no cristão, esta data relaciona-se com a esperança de uma vida nova. Já os ovos de Páscoa (de chocolate, enfeites, joias), também estão neste contexto da fertilidade e da vida.
A figura do coelho da Páscoa foi trazido para a América pelos imigrantes alemães, entre o final do século XVII e início do XVIII.

29 de março de 2013

O amor de Gustav Klimt

Emilie Flöge, o grande amor de Gustav Klimt
Gustav Klimt e Emilie Flöge
Grande percursor da Art Nouveau no século XX, conhecido por quadros dourados, florais e que usavam livremente da sexualidade, Gustav Klimt (1862-1918) teve sua época mais produtiva entre o final do séuculo XIX e começo do século XX, pintando até 1918 quando morreu após um AVC.
Mulherengo convicto e aventureiro foi aclamado em Veneza por pintar vários retratos femininos, dentre um deles o de Emilie Flöge.
Tal dama em questão ficou conhecida por ter sido amante e grande amor de Klimt, tendo dado lenha para dois livros e um filme, a história pouco divulgada gerou um dos quadros mais famosos do pintor "Retrato de Emilie Flöge" e consequentemente o quadro mais famoso "O Beijo".
Gustav Klimt – O Beijo
Gustav Klimt - Emilie Flöge
Emilie Flöge (1874-1952) foi uma renomada modista veneziana, irmã da mulher do irmão de Klimt, começou a ter um romance com o pintor quando tinha 18 anos, após a morte de Ernest Klimt.
Atuantes na Secessão de Viena, grupo de artistas que variavam entre arquitetos, designs e pintores, tendo assim um relacionamento não só pessoal como profissional.
Conta-se que uma das frases mais marcantes de Klimt foi dita para Emilie antes de sua morte “Todo ano, custe o que custar, em vez de me casar vou dar uma pintura para você”, o que deixa o rumor de que eram realmente amantes. O romance durou até sua morte, tendo Emilie herdado metade dos bens e a outra metade tendo ficado para a família Klimt.
Os últimos anos do casal se passaram na Austria, porém, muitos historiadores acreditam que viviam como amigos, dormiam em camas separadas e mantinham um amor ‘fraternal’. Ambos eram discretos com a vida pessoal, após se mudarem muito se perdeu, os poucos documentos da época foram queimados pelo Governo Nazista. Quase todas as obras de Klimt foram roubadas ou tomadas, só sendo reavidos após anos e outra grande quantia foi destruída. Emilie mesmo após a morte do pintor manteve o ateliê intacto e preservou rascunhos e quadros, muitos nunca mostrados, selados à sete chaves no acervo pessoal da família.
Gustav Klimt e Emilie Flöge
Na época de ouro de Klimt e Flöge ambos abriram juntos uma casa de alta costura onde a grandes da aristocracia veneziana faziam questão de frequentar, com um design único os vestidos seguiam o padrão ‘solto’ da reforma dos vestidos, com estampas florais e adornos fluídos. Feminista assumida, Emilie marcou a época com seus vestidos e protagonizou uma história de amor que muito nos lembra a de Sartre com Beauvoir.
Enquanto vivo conta que podia-se ver Klimt com sua túnica solta pintando paisagens e Emilie ao seu lado, com vestidos coloridos.

A Rendeira

Cândido Portinari - Mulher Rendeira
Na tela da manhã que se desvela,
a rendeira compõe seu labirinto,
movendo sem saber e por instinto
a rede dos instantes numa tela.
Ponto a ponto, paciente, tenta ela
traçar no branco linho mais distinto
a mesma trama de um desenho sucinto,
como a jornada humana se revela.
Em frente, o mar desafia a eternidade
noutra tela de espuma e esquecimento,
enquanto, entrelaçado, o pensamento
costura sobre o sonho a realidade.
Em que perdida tela mais extrema
foi tecida a rendeira e este poema?
Adriano Espínola

Nota:
Nascido em Fortaleza, 1952, um dos fundadores, em 1979, do grupo literário Siriará. Em 1989 obteve o título de mestre em Poética pela UFRJ. Convidado para lecionar Literatura e Cultura Brasileira na Universidade de Stendhal-Grenoble III ,na França, retorna em 1992 ao Brasil.

A Tua Voz de Primavera

Andrzej Malinowski - Belle de Fleurs
A Tua Voz de Primavera
Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios úmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo desejo... olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos...

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

Florbela Espanca (1894-1930)

28 de março de 2013

Estou tão só

Joanna Sierko-Filipowska
Estou tão só
Se encontrasse a sombra
De um doce coração.
Ou se alguém me ofertasse uma estrela
Sempre a apanharam os anjos
Assim, no vai-e-vem.
Tenho medo da terra negra.
Como ir embora?
Quero ser enterrada nas nuvens,
Ali onde o sol cresce,
Amo-te assim!
Também me amas? Diz, então...

Else Lasker-Schüler (1869-1945)

E por vezes ...

Knud Andreassen Baade
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão Ferreira (1927-1996)

Poesia

Catrin Welz-Stein
um
AAAAAAA movi
BBBBBmento

AAAAAAAAAAAAAAAcompondo
000000além
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çççççççççççççççççççççum
uuuuuuuuuuuuuuhorizonte
jjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjpuro
tttttttttttnum
uuuuuuuuuuuuuuuuuuuumo
yyyyyyyyyyyyyyy mento
yyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyuuuuuu vivo.
Décio Pignatari (1927-2012)

27 de março de 2013

Assim eu vejo a vida

Emile Auguste Pinchart
A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria.
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes.
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo.
Aprendi a viver.

Cora Coralina (1889-1985)

Versos à boca da noite

Edgar Degas
Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva...
Uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas.

Escreverei sonetos de madureza?
Darei aos outros a ilusão de calma?
Serei sempre louco? sempre mentiroso?
Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo?

Há muito suspeitei o velho em mim.
Ainda criança, já me atormentava.
Hoje estou só. Nenhum menino salta
de minha vida, para restaurá-la.

Mas se eu pudesse recomeçar o dia!
Usar de novo minha adoração,
meu grito, minha fome... Vejo tudo
impossível e nítido, no espaço.

Lá onde não chegou minha ironia,
entre ídolos de rosto carregado,
ficaste, explicação de minha vida,
como os objetos perdidos na rua.

As experiências se multiplicaram:
viagens, furtos, altas solidões,
o desespero, agora cristal frio,
a melancolia, amada e repelida,

como essa indecisão entre dois mares,
entre duas mulheres, duas roupas.
Toda essa mão para fazer um gesto
que de tão frágil nunca se modela.

e fica inerte, zona de desejo
selada por arbustos agressivos.
(Um homem se contempla sem amor,
se despe sem qualquer curiosidade.)

Mas vêm o tempo e a ideia de passado
visitar-te na curva de um jardim.
Vem a recordação, e te penetra
dentro de um cinema, subitamente.

E as memórias escorrem do pescoço,
do paletó, da guerra, do arco-íris;
enroscam-se no sono e te perseguem,
à busca de pupila que as reflita.

E depois das memórias vem o tempo
trazer novo sortimento de memórias,
até que, fatigado, te recuses
e já não saibas se a vida é ou foi.

Esta casa, que miras de passagem,
estará no Acre? na Argentina? em ti?
que palavra escutaste, aonde, quando?
seria indiferente ou solidária?

Um pedaço de ti rompe a neblina,
voa talvez para a Bahia e deixa
outros pedaços, dissolvidos no atlas,
em País-do-riso e em tua ama preta.

Que confusão de coisas ao crepúsculo!
Que riqueza! sem préstimo, é verdade.
Bom seria captá-las e compô-las
num todo sábio, posto que sensível:

Uma ordem, uma luz, uma alegria
baixando sobre o peito despojado.
E já não era o furor dos vinte anos
nem a renúncia às coisas que elegeu,

mas a penetração no lenho dócil,
um mergulho em piscina, sem esforço,
um achado sem dor, uma fusão,
tal uma inteligência do universo

comprada em sal, em rugas e cabelo.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

O Jardim do Amor

Beatrice Emma Parsons
O Jardim do Amor fui visitar,
E vi então o que jamais notara:
Lá bem no meio estava uma Capela,
Onde eu no prado correra e brincara.

E os portões desta Capela não abriam,
E "Não farás" sobre a porta escrito estava;
E voltei-me então para o Jardim do Amor
Lá onde toda a doce flor se dava;

E os túmulos enchiam todo o campo,
E eram esteias funerárias as flores;
E Padres de preto, em seu passeio secreto,
Atando com pavores minhas alegrias & amores.

William Blake (1757-1827)

26 de março de 2013

Flora Tristan

Flora Tristán
Flora Tristán (1803-1844), revolucionária, socialista, precursora do feminismo francês, de sensibilidade refinada, principalmente aos problemas sociais que a tocavam na pele diretamente; autodidata, acumula experiência e cultura e, por vontade e compulsão, torna-se escritora, pela necessidade de dizer ao mundo as verdades que infernizavam sua alma, fazendo-a mover-se pela Europa, realizando palestras para entidades de classe, na luta incansável contra as injustiças.
Contemporânea Victor Hugo e George Sand, avó do pintor Paul Gauguin. A história oficial pouco ou nada se ocupa de rebeldias indomáveis, de pensamentos audazes e de mulheres livres, muito menos de alguém que reunia essas três condições. Esse o caso dessa extraordinária mulher, cujas ideias lúcidas, propostas de ação e exemplo de vida seguem tendo pleno valor para aqueles/as que aspiram à liberdade e à igualdade.
O relato da vida de Flora Tristán está cheio de circunstâncias que parecem ter sido arrancadas das novelas românticas tão ao gosto daquela época. Nasceu em Paris, filha de um aristocrata peruano e de uma plebeia francesa que havia imigrado para a Espanha. Com as guerras napoleônicas e a morte do pai, em 1808, a família de Flora inicia uma etapa de pobreza, mitigada pela ilusão do futuro acesso a fortuna paterna, quando pudessem viajar para a América.
Em 1820, as necessidades se impõem e Flora vai trabalhar como operária de uma oficina de litografia, cujo jovem proprietário - André Chazal - se apaixona por ela. Para fugir da miséria e submetida à pressão materna, Flora casa-se em 1821, gerando dois filhos e uma filha – Aline - que veio a ser mãe do famoso pintor Paul Gauguin. Em 1826, Flora já não suporta aquela união sem amor e convencional, abandonando o lar e iniciando uma dura disputa legal e pessoal, que se prolongará por 12 anos, até que Chazal quase a mata, sendo condenado a 20 anos de trabalhos forçados. Essa vivência será um estímulo para que aflore um pensamento e uma ação que serão referências importantes para o movimento feminista. Flora foi uma figura única, que denunciou com a mais sentida sensibilidade os padecimentos da mulher de seu tempo, planteando reivindicações que continuam sendo atuais.
Em 1833-34, Flora viaja ao Peru para buscar a herança de seu pai, sendo recebida friamente pelos parentes, que lhe concedem somente uma modesta pensão anual. Retorna a Europa reafirmando suas convicções igualitárias radicais, que vem amadurecendo desde 1825, com a leitura de autores como Saint-Simon, Aurora Dupin, Fourier, Considerant e Owen, além de seus contatos diretos com o movimento operário na França e na Inglaterra.
Em 1835, publica seu primeiro folheto, dedicado à situação das mulheres estrangeiras pobres na França; em 1837, sai o segundo, em prol do divórcio; em 1838, são publicados os dois volumes de seu diário de viagem a América, sob o título de Peregrinações de uma Pária. Esta obra dá a Flora grande renome nos meios literários parisienses, reafirmado meses depois com a novela Mephis ou O Proletariado, que a eleva a categoria de rival da célebre George Sand. Ao mesmo tempo, Flora aprofunda seu compromisso ativo com as lutas sociais mais radicais de então. Primeiramente, pela emancipação da mulher e da classe operária, mas também contra a pena de morte, o obscurantismo religioso e a escravidão.
Como que pressentindo a morte próxima, os anos posteriores a 1840 encontram Flora Tristán na plenitude de seu trabalho e pensamento. É então que escreve A União Operária (1843) e A Emancipação da Mulher (inédito até 1846), obras que marcam sua maturidade intelectual e política. Realiza por toda a França a tarefa de organizar essa União Operária, que recorria à experiência inglesa das Trade Unions, ainda que com ênfase internacionalista e socialista radical. Tais ações justificam a apreciação de quem vê em Flora a esquecida e grande precursora da I Internacional, como seu biógrafo peruano L. A. Sánchez, que afirma: "Aquela Associação Internacional dos Trabalhadores era a velha União Operária, ampliada, ecumênica e viril (...) Ninguém lembrou da precursora na célebre assembleia de Albert Hall. Mas ela, com seu pensamento e exemplo, a esteve presidindo desde longe, desde a eternidade. Talvez, se com alguém se identificava mais seu espírito, era com o de um certo homem de barbas revoltas e verbo ardente, que costumava discordar vigorosamente de Marx: Miguel Bakunin".
Vargas Llosa em O Paraíso na Outra Esquina usa a brincadeira como alegoria para falar de duas personalidades francesas que devotaram a vida a perseguir ideais radicais, sem nunca alcançá-los: a socialista e precursora do feminismo Flora Tristán (1803-1844) e o pintor pós-impressionista Paul Gauguin (1848-1903).
Flora Tristán passou à história por defender teses ousadas em sua época: pregava que os operários precisavam se unir contra os patrões e que as mulheres deviam ter os mesmos direitos que os homens. Além do discurso subversivo, ela deixou seu marido, o que constituía um crime grave.
Seu neto Gauguin, por sua vez, viveu no Peru durante a infância, quando seu pai teve de fugir da França por razões políticas (ele acabaria morrendo, tragicamente, no meio da viagem). Mais tarde, já de volta a Paris, Gauguin abandonou a mulher e os filhos para abraçar a pintura. A fim de libertar sua arte dos "vícios burgueses", ele trocou Paris pela colônia francesa do Taiti, no Oceano Pacífico, onde viveu entre os selvagens maoris e pintou quadros célebres. Esse mergulho na "pureza primitiva", porém, não lhe traria a paz de espírito almejada.
Dirigindo-se a seus personagens na segunda pessoa, por meio de apelidos carinhosos, Vargas Llosa transmite aos leitores uma sutil sensação de intimidade com eles. E sabe ser convincente mesmo quando deixa a história de lado e dá asas à imaginação. Sua Flora Tristán, por exemplo, descobre o verdadeiro prazer do sexo tardiamente – pelas mãos de uma amante.
Paul Gauguin - Manao Tupapau
Trecho de O Paraíso na Outra Esquina
“Uma semana depois de terminar sua obra-prima continuava retocando-a, e passava horas inteiras diante da tela. O quadro não revelava uma mão civilizada, europeia, cristã. Na verdade, a de um ex-europeu, ex-civilizado e ex-cristão que, à custa de vontade, aventuras e sofrimento, havia expulsado de si a afetação frívola dos decadentes parisienses e voltado às suas origens, esse esplendoroso passado no qual religião e arte, esta vida e a outra, eram uma única realidade. As semanas que se seguiram a Manao Tupapau foram de uma serenidade de espírito que Paul Gauguin havia muito tempo não desfrutava”.
Mario Vargas Llosa

De amor

André Deymonaz
Chegaria tímido e olharia tua casa,
A tua casa iluminada.
Teria vindo por caminhos longos
Atravessando noites e mais noites.

Olharia de longe o teu jardim.
Um ar fresco de quietação e repouso
Acalmaria a minha febre
E amansaria o meu coração aflito.

Ninguém saberia do meu amor:
Seria manso como as lágrimas,
Como as lágrimas de despedida.

Meu amor seria leve como as sombras.

Tanto receio de te amar, tanto receio...
A sombra do meu amor
Poderia agitar teu sono, perturbar o teu sossego...

Eu nem quero te amar, porque te amo demais.

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)

A Criação

Augustus Jules Bouvier
“A mulher e o homem sonhavam que Deus os estava sonhando.
Deus os sonhava enquanto cantava e agitava suas maracás, envolvido em fumaça e tabaco, e se sentia feliz e também estremecido pela dúvida e o mistério.
Os índios makiritare sabem que se Deus sonha com comida, frutifica e dá de comer. Se Deus sonha com a vida, nasce e dá de nascer.
A mulher e o homem sonhavam que no sonho de Deus aparecia um grande ovo brilhante. Dentro do ovo, eles cantavam e dançavam e faziam um grande alvoroço, porque estavam loucos de vontade de nascer. Sonhavam que no sonho de Deus a alegria era mais forte do que a dúvida e o mistério; e Deus, sonhando, os criava e cantando dizia:
– Quebro este ovo e nasce a mulher e nasce o homem. E juntos viverão e morrerão. Mas nascerão novamente. Nascerão e tornarão a morrer e outra vez nascerão. E nunca deixarão de nascer, porque a morte é uma mentira”.
Eduardo Galeano

25 de março de 2013

FINAL

“Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena noite
da alma para sempre escura”.

Federico Garcia Lorca
Beatrice Offor
Resta o passado, o meu passado… Minha glória,
não por mim, mas por ti, que nele existes…
Por ti, que me povoa a memória
do coração, a memória dos sentidos,
a memória imortal do pensamento,
com as mil estátuas dos teus gestos tristes,
com teus olhos de pasmo, doloridos,
com tua voz de cântico e lamento,
écloga e litania do teu amor, que era,
sobre a frialdade do meu precoce outono,
um hálito morno de primavera.
… Resta o passado, céu de eterna claridade,
paraíso perdido, céu divino,
onde a um mando de mágoa e de abandono
estacou, como o sol da Bíblia, o meu destino…
…Resta o passado, que não foge e que não cansa…
…Resta a saudade,
mais fiel, menos triste, que a esperança…

Felippe D´Oliveira (1891-1933)
Louise Jopling
Em mim cultivo
o lírio e o cacto
(o lírico e o sátiro)

Em verdades
sou plumas;
contra a farsa
sou áspero.
Para o bom
sou manso;
por dom
sou triste.

E contra o mau
sempre aponto
o meu verso
em riste.

Wilson Pereira
Ivan Shishkin
Que te vale minha alma, essa paisagem fria
Essa terra onde parecem repousar virgens distantes?
Que te importa essa calma, essa tarde caindo sem vozes
Esse ar onde as nuvens se esquecem como adeuses?
Que te diz o adormecimento dessa montanha extática
Onde há caminhos tão tristes que ninguém anda neles
E onde o pipilo de um pássaro que pousa de repente
Parece suspender uma lágrima que nunca se derrama?
Para que te debruças inutilmente sobre esse ermo
E buscas um grito de agonia que nunca te chegará a tempo
Que são longos, minha alma, os espaços perdidos...
Ah, chegar! chegar depois de tanta ausência
E despontar como um santo dentro das ruas escuras
Bêbado dos seios da amada cheios de espuma!

Vinicius de Moraes (1913-1980)