28 de fevereiro de 2013

Dedução

Roberto Bompiani
Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo firme,
fiel
e verdadeiramente.

Vladimir Maiakovski (1893-1930)
Tradução: Haroldo de Campos

Existencialismo

Existencialismo O existencialismo é o nome dado à corrente filosófica iniciada no séc. XIX pelo filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855).
Como o próprio nome diz, o conjunto de doutrinas existencialistas tem foco na existência, isto é, na condição de existência humana. O termo “existencialismo” foi cunhado somente no século XX por Gabriel Marcel, filósofo francês, em meados de 1940. O existencialismo francês do pós-guerra ficou popularizado em razão da obra de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus.
O tema da existência humana foi trabalhado por diversos pensadores, mas é Kierkegaard que faz das perguntas existenciais o foco de sua pesquisa filosófica. Escreveu sobre a aparente falta de sentido da vida, da busca de sair desse tédio existencial e sobre a realização de escolhas livres. Assim, o homem, em sua liberdade, escolhe para definir sua natureza.
O Existencialismo difundiu-se como o pensamento mais radical a respeito do homem na época contemporânea. Surgiu em meados do século XIX com o pensador dinamarquês Kierkegaard e alcançou o seu apogeu após a II Guerra Mundial, nas décadas de 50 e 60, com Heidegger e Jean-Paul Sartre.
Apesar do precursor do existencialismo, Soren Kierkegaard, ser profundamente cristão, os principais filósofos que o desenvolveram e divulgaram, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre, eram ateus, com uma filosofia materialista, bastante pessimista e de caráter ateu.
O pensamento existencialista defende, em primeiro lugar, que a existência vem antes da essência. Significa que não existe uma essência humana que determine o homem, mas que ele constitui a sua essência na sua existência. Esta construção da essência se dá a partir das escolhas feitas, visto que o homem é livre. Nessa condição na qual o homem existe e sua vida é um projeto, ele terá de escolher o que quer ser e efetivar sua vontade agindo, isto é, escolhendo. Se a condição humana é esta, então o homem vive numa angústia existencial. Ter de escolher a todo instante é angustiante, pois cada escolha irá refletir diretamente no que se é. A angústia é o reflexo da liberdade humana, dessa ampla possibilidade de escolher e ser responsável por cada escolha.
Outra característica da condição humana é o desespero. Aquilo que nos torna quem somos pode ser perdido e nos deixar em desespero. Um atleta que sofre um acidente e fica incapacitado de competir certamente entraria em desespero. Porém, toda existência humana está em desespero, pois o homem precisa de coisas externas, que ele não controla, para se sentir quem ele é. Assim, mesmo vivendo sem o desespero, o homem está vivendo num constante desespero.
Um tema abordado por Sartre é bem interessante, o desamparo. Somos livres, escolhemos, temos a angústia de escolher e o desespero de perder tudo. Mas, também estamos desamparados, isto é, não temos muletas, desculpas ou a quem culpar por nossas escolhas.
Com isto, o existencialismo é o conjunto de ideias que coloca no ser humano a responsabilidade por se construir e por seus atos. Não há desculpas e justificativas para nossas ações. O que somos ou o que fazemos não é produto de nossa infância, de nossa criação, do destino ou da divindade. Estamos sozinhos, lançados no mundo, para nos inventar, pois não há nada anterior à nossa existência para definir o que somos.
Importantes Filósofos para o Existencialismo
Soren Aabye Kierkegaard (1813-1855)
Segundo Kierkegaard, o homem tem diante de si várias opções possíveis, é inteiramente livre, e não se conforma com um predeterminismo lógico, ao qual, segundo alguns filósofos, estão submetidos todos os factos e também as ações humanas. A verdade não é encontrada através do raciocínio lógico, mas sim, segundo a paixão que é colocada na afirmação e na sustentação dos factos: a verdade é subjetiva. A consequência de a verdade ser subjetiva reside no fato da liberdade tornar-se assim ilimitada. Consequentemente não se pode, assim, fazer qualquer afirmação sobre o Homem.
O pensamento fundamental de Kierkegaard, e que mais tarde veio constituir um fio orientador do Existencialismo, é o seguinte: não existe um projeto básico para o homem verdadeiro, nem uma essência definidora do homem, porque cada um define-se a si mesmo e torna-se assim uma verdade para si mesmo. Daí a frase conhecida que sintetiza o pensamento existencialista: "no homem, a existência precede a essência".
No caminho da vida há várias direções a seguir, vários tipos de vida a escolher, três dessas escolhas fundamentais são: o modo de vida estético (do indivíduo que não procura nada senão gozar a vida em cada momento); o modo ético (do indivíduo que é extremamente correto com a família e dedicado ao trabalho), e o modo religioso (dentro de uma consciência de fé). A liberdade, segundo este filósofo, gera no Homem a angústia que o pode levar, de várias formas, ao desespero. Então, cada decisão é um risco, o que deixa a pessoa mergulhada na incerteza, pressionada por uma decisão que se torna angustiante. Como no modo de vida estético, ele escolherá assim fugir dessa angústia e desse desespero através do prazer e da procura da inconsciência de quem ele é. Outra forma de fuga é ignorar o próprio eu, tornar-se um autômato, como no modo de vida ético.
Martin Heidegger (1889-1976)
Segundo o filósofo alemão Martin Heidegger, a angústia tem uma origem diferente da liberdade. Para ele a angústia resulta da falta da precariedade da base da existência humana. A "existência" do homem é algo temporário, paira entre o seu nascimento e a morte que ele não pode evitar. A sua vida está entre o passado (nas suas experiências) e o futuro, sobre o qual ele não tem controlo, e onde o seu projeto será sempre incompleto diante de uma morte inevitável.
Como uma filosofia do tempo, o existencialismo incita o homem a existir inteiramente "aqui" e "agora", para aceitar a sua intensa "realidade humana" do presente. O passado representa arquivos de experiências a serem usadas no serviço do presente, e o futuro não é outra coisa senão visões e ilusões para fornecer ao nosso presente uma direção e um propósito.
Portanto, no homem, o ser está relacionado ao tempo e podemos em três fenômenos, compreender como as coisas do passado, do presente e do futuro se manifestam no homem. A unidade desses três fenômenos constitui a estrutura temporal que faz com que a existência seja inteligível, compreensível. São elas: a afetividade, através da qual o Homem se liga ao passado pelo seu julgamento; a fala, pelo qual se liga ao presente, e o entendimento, que é a inteligência com a qual lida com o seu futuro, com a angústia da sua predestinação à morte. No entanto não nos podemos submeter a condicionamentos do nosso passado; não podemos permitir que sentimentos, memórias, ou hábitos se imponham sobre o nosso presente e determinem o seu conteúdo e a sua qualidade. Não podemos permitir também que a ansiedade dos eventos futuros ocupem o nosso presente, retirando a sua espontaneidade e intensidade. Resumindo, não podemos permitir que o nosso "aqui e agora" seja liquidado.
Para Heidegger, a angústia tem como função revelar o ser autêntico enquanto que a liberdade oferece uma oportunidade ao Homem de se escolher a si mesmo e de se governar a si mesmo.
Jean-Paul Sartre (1905-1980)
Sartre foi o filósofo que mais contribuiu com pensamentos sobre a liberdade e chefiou dentro do existencialismo uma corrente ateísta.
Para este filósofo, bem como para Kierkegaard, a ideia central de todo o pensamento existencialista é que a existência precede a essência. Não existe nenhum Deus que tenha planeado o Homem e portanto não existe nenhuma natureza humana fixa que o Homem deve respeitar.
O Homem está totalmente livre e é o único responsável pelo que faz de si mesmo. É para ele, assim como para Kierkegaard, esta liberdade e responsabilidade a fonte da angústia. Sartre leva o indeterminismo às suas mais radicais consequências, porque não há nenhum Deus e portanto nenhum plano divino que determine o que deva acontecer, não há nenhum determinismo. O homem é livre. Não pode desculpar a sua ação dizendo que foi obrigado por circunstâncias, movido pela paixão ou forçado de alguma maneira a fazer o que faz.
Karl Jaspers (1883-1969)
Figura entre os primeiros pensadores contemporâneos que se apresentaram em público com trabalhos de orientação existencialista. Suas obras mais importantes são: Filosofia (em 3 volumes):
1. Orientação Filosófica do Mundo,
2. Explicação da Existência, Metafísica, Razão e Existência,
3. A Fé Filosófica.
Esses escritos podem ser distribuídos em 3 diferentes épocas:
1ª de preparação na qual o médico se inicia nos problemas filosóficos.
2ª de plenitude em que são explanados e desenvolvidos os diferentes aspectos de seu pensamento.
3ª é de aprofundamento: “Jaspers retorna aos temas fundamentais de seu pensamento em companhia muitas vezes dos Grandes filósofos do passado".
Em nosso século, poucos são os pensadores como Jaspers, em que a vida se apresenta extremamente coerente com o pensamento. Também por isso Jaspers pode ser considerado um grande pedagogo. Em suas notas biográficas, recorda que o pai o educara para ser sempre coerente com ele mesmo e para agir de acordo com a razão, donde a sua postura de revolta contra toda concepção cultural, não só política, mas também moral e religiosa, que pretenda apresentar-se com caráter de validade absoluta e, portanto, em sentido autoritário.
A investigação filosófica é resolução da vida, em três momentos: orientação no mundo, esclarecimento da existência e metafísica. Conceito “ser-em-situação”: é a realidade empírica que se mostra e se impõe a todos, filósofos ou não, é o dado puro e simples que se refere a qualquer realidade humana ou mundana, física e psíquica, é vida temporal do homem como desdobramento no tempo e espaço. Não é verdadeiro ser do homem. O transcender a situação é a verdadeira existência, e não é conceitual por meio de ideias, é aquilo que eu me sinto radicado (a). A existência ainda não é, mas pode ser. O ser-em situação é o ponto de apoio da existência, o problema do ser está indissoluvelmente ligado ao da verdade. A existência se realiza na solidão do indivíduo, enquanto a massa é chamada ser-sem-existência. A existência e a verdade são históricas, levando em conta o homem político, religioso e econômico, é um processo que nunca chega ao fim, portanto há a impossibilidade de certezas absolutas, qualquer pretensão de certeza absoluta, seja filosófica ou religiosa é uma não-verdade. A mente humana é sempre impulsionada para além dos limites da experiência. É uma situação que não se pode viver sem luta ou sem dor, é um fator limitante. A consciência humana me diz que sou limitado (a), mas não diz o limitante, portanto quem limita é Deus. De todas as situações-limites, a fundamental é a morte, que também é um mistério, o qual só pode ser revelado através do amor.
Tendo sido influenciado por vários filósofos, os principais são Kant e Kierkegaard, vemos isso em algumas questões que foram reformuladas por ele, através da influência exercida pelas ideias de Kant, o qual para Jaspers foi o filósofo em absoluto, um mestre na formulação das questões fundamentais: que é a ciência? Como é possível a comunicação? Que é a verdade? Que é o homem? Que é a transcendência? Sendo estas perguntas os pontos básicos para nortear seu pensamento, logo sua filosofia, Sua linguagem é relativamente mais simples, evitando principalmente o abuso de neologismos que tanto dificultam a compreensão das ideias de outros pensadores.
Sendo que só Kierkegaard despertou-o definitivamente para a filosofia como um pensar consciente, metódico, fundado em si mesmo, e ensinou-lhe que o verdadeiro filosofar é um giro constante em torno da existência e da transcendência.
Edmund Husserl (1859-1938)
Husserl é o criador do método fenomenológico, tão importante no movimento existencial. Etimologicamente considerada, a fenomenologia é o estudo dos fenômenos.
De acordo com Husserl, conhecemos o mundo através de dois aspectos: a captação “intuitiva” e a integração significativa. Acreditava ele que a realidade não podia ser reduzida aquilo que meramente captamos através dos sentidos, ainda que realizando uma integração.
Husserl afirmava que não existe consciência sem objeto, da mesma forma que o oposto é verdadeiro. As expressões conhecidas: “Toda consciência é consciência de algo” e “O objeto é sempre objeto para a consciência”, expressam o princípio da intencionalidade de Husserl, postulado básico da fenomenologia. A consciência não é um lugar, tal como uma caixa que abriga conteúdos mentais, conforme a concepção wundtiana, mas uma espécie de movimento para fugir de si mesma, um escape para fora de si, para poder ter uma existência. A consciência é esse partir em direção às coisas que a ela aparecem como fenômenos. Qualquer que seja o objetivo da consciência, ele está sempre fora da consciência porque é transcendental; sujeito e objeto passam a ser um só, e a preocupação volta-se para o ato de conhecer.
Para que se possa atingir um conhecimento completo, todos os caracteres exteriores da vivência captadora precisam ser eliminados, ou seja, tudo o que esteja fora desse nosso próprio estado psicológico é colocado à parte ou, como nos fala Husserl, entre parênteses. Está é a redução fenomenológica ou epoché. Na verdade realizamos não uma redução, mas várias delas, de forma tal que todo o julgamento seja eliminado.
Dessa forma, o que se enfatiza é a intuição, procurando eliminar tudo o que for de não intuitivo para se chegar ao conhecimento absoluto. A essa consciência de um objeto, purificada, que ocorre no processo de redução fenomenológica, Husserl chamou de consciência transcendental.
A atitude fenomenológica é essa atitude que petrifica a própria crença na realidade objetiva para se colocar como consciência transcendental. Transcende-se o que há de ilusório na sua aparência, resultado dos condicionamentos a que o indivíduo se expõe. Noese é o nome dado a essa atividade da consciência, o pensamento. Noema, ao objeto desse pensamento, que é sentido que habita a consciência.
Friedrich Nietzsche (1844-1900)
Nietzsche mostra que a relação existencialista no ser é transcendente é radical, temos que sermos seres existencialistas para saber quem somos nós por nós e para nós.
Ele mostra que a transcendência em si mesmo deve ser aporte natural, e que devemos desconstruir tudo, mas tudo que não é humano. O ser humano é um ser forte ou um super-homem, não precisa de um pai celestial, que protege a fraqueza do ser humano, que ele pensa que é fraco, mas não é. A ideia de pai e mãe aqui é condicionada a religião e Nietzsche desmascara e nos alerta para que não aceitamos dogmas doutrinarias de qualquer tipo de religião, ou como o mesmo diz. Deus está morto a muito tempo.
Nietzsche mostra a contraposto do existencialismo, uma critica a tudo que é técnico e tecnofascistas, crítica com veemência e com argumentos os empresários gananciosos da arte, o público ávido pelo prazer banal e fácil, a mediocridade contida, e a presunção dos famosos (artistas, músicos) que transformam a arte em mercadoria de luxo e nos tempos atuais em lixo descartável, hoje não existe arte, existe lixo descartável o lucro da arte. Creio que isso ocasiona um contratempo e um antagonismo na busca transcendental do ser humano em si mesmo, e por que não isso é usado para massificar o ser em detrimento de sua busca que é individual e interpessoal, em nome de um coletivismo, burro e hipócrita?

A Paz quase impossível

Thomas Brooks
Tudo é parede em torno, tudo é nada
e em vão martelo o crânio contra o muro,
os ladrilhos manchados da prisão,
o cárcere maldito, a solitária,
a cela-surda em que não sento ou deito,
mastigando os insetos do meu dia,
a palavra travada, a fala morta
no tubo amordaçado da garganta,
eu, Sísifo rolando a pedra bruta,
eu, Prometeu acorrentado e exposto
ao abutre infernal, eu, navegante
sem bússola ou sextante, remo ou vela,
eu, estrangeiro indesejado, eu, morto,
insistindo no jogo de estar vivo.

Reynaldo Valinho Alvarez

27 de fevereiro de 2013

No instante do entanto

Thomas Kegler
No instante do entanto
Diga minha poesia
E esqueça-me se for capaz
Siga e depois me diga
Quem ganhou aquela briga
Entre o quanto e o tanto faz.

Paulo Leminski (1944-1989)
Leonardo da Vinci
Tudo o que possuis
a alma, o pomar da lascívia

A fome de palavras
a sede de volúpia

A sentença lavrada
na poeira dos arquivos:

Tudo cabe, poeta,
dentro de uma gaveta.

Francisco Carvalho

26 de fevereiro de 2013

Não me peçam razões

Edward Cucuel
Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há de vir.

José Saramago (1922-2010)

25 de fevereiro de 2013

Litania da Simplicidade

Filippo Indoni
A beleza das coisas simples,
A felicidade dos imensos nadas,
Ser natureza unicamente
e tudo compreender.

Ser simples.
Na simplicidade cheia de força
Que a natureza tem;
Me irmanar com a vida,
Senti-la profundamente,
Fazer em meu ser profundas chagas
Com a dor de todos.
E me sentir compensada
Na alegria do voo de um pássaro,
Na misteriosa poesia
De estrelas morrendo
Envoltas em luz
Ao dia surgir.

Eglê Malheiros

Psicologia de um vencido

Svetlana Valueva
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Augusto dos Anjos (1884-1914)

Vocabulário:
Rutilância: qualidade de rutilante, muito brilhante, resplandecente.
Hipocondríaco: em sentido figurado, triste, melancólico.
Carnificina: grande quantidade de corpos mortos; matança.
Carbono: composto orgânico presente em todos os vegetais e animais.
Amoníaco: gás que se encontra nas matérias em decomposição.
Epigênesis: No texto, significa origem.
O pessimismo verificado em “Psicologia de um vencido” está presente em quase toda a obra de Augusto dos Anjos. Mas, se na visão do poeta as forças da matéria conduzem apenas ao mal e ao nada, o que resta a esse eu que guarda em si toda a angústia do mundo?
A linguagem do poema surpreende e modifica uma tradição poética brasileira, constituída em grande parte com base em sentimentalismos, delicadezas, sonhos e fantasias (desvinculação da arte com o conceito de beleza).
“Carbono”, “amoníaco” e “epigênesis”, por exemplo, são vocábulos empregados poeticamente por Augusto dos Anjos que tradicionalmente seriam considerados antipoéticos (os mesmos provêm da ciência, particularmente da Química).

24 de fevereiro de 2013

Aparição

Mario Weinert
A lua estava triste. Arcanjos sonhadores
Em pranto, o arco nas mãos, no sossego das flores
Aéreas, vinham tirar de evanescentes violas
Alvos ais resvalando entre o azul das corolas.
– Era o dia feliz de teu primeiro beijo.
Para me torturar, meu sonho, meu desejo
Embriagavam-se bem do perfume de queixa
Que mesmo sem remorso e sem motivo deixa,
No coração que o colhe, a colheita de um sonho.
Eu ia à toa, o olhar no chão velho e tristonho,
Quando trazendo nos cabelos um sol lindo,
Na alameda e na tarde apareceste rindo.
E eu julguei ver, com seu chapéu de luz, a fada
Que nos meus sonhos bons de criança mimada
Sempre deixou nevar dentre as mãos mal fechadas
Punhados celestiais de estrelas perfumadas.

Stéphane Mallarmé (1842-1898)
Tradução: Guilherme de Almeida

Fim

Jean Baptiste Jules Trayer
O que eu perdi não foi um sonho bom,
não foi o fruto a embebedar meus lábios,
não foi uma canção de raro som,
nem a graça de alguns momentos sábios.

O que eu perdi, como quem perde uma outra infância,
foi o sentido do enternecimento,
foi a felicidade da ignorância, foi, em verdade,
na minha carne e no meu pensamento,
a última rubra flor do fim da mocidade.

E dói - não esse gesto ausente, a que se apagam
as flores mais solares, mas uma hora,
- flor de momento numa bela aurora -
hora longínqua, esquiva e para sempre morte,
em cuja escura, inacessível porta
noturnos olham cegamente vagam.

Abgar Renault (1901-1995)

DESPOJAMENTO

Victor Mikhailovich Vasnetsov
Eliminei o excesso de paisagem
simplifiquei toda a decoração
retirei quadro flores ornamentos
apaguei velas copos guardanapos
e a música.

Bani a inutilidade do discurso

Na mesa de madeira
nua
apenas dois pratos
brancos
sem talheres

O banquete será tua presença.

Ivo Barroso

23 de fevereiro de 2013

Não o Sonho

Abdalieva Akzhan
Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

Manuel António Pina (1943-2012)

O SINO

Jose Royo
Teu nome é um sino imerso no meu peito.
Um pequenino verso que nasceu já feito.
Plange tão silente na manhã festiva
de minha alma cheia,
que o não ouve a gente nem desperta a aldeia.
Nasce tão calado da emoção tão viva
que me sela a boca,
que qualquer pessoa não percebe ao lado
como o sino toca, como o verso soa.

Ivo Barroso

22 de fevereiro de 2013

Bem-Te-Vi

Foto de Rolf Nussbaumer
Amo tanto esses pássaros da rua,
que vivem como vivo na fumaça,
protagonistas da paisagem baça.
Respiram, como eu próprio, esta mistura,
feita do que há de pior nas criaturas.
No ar, há certo escândalo na graça
com que apesar de tudo, ainda cantam.
O pássaro que passa ara seu voo
com precisão estética e ultrapassa
o meu próprio desejo de ser livre.
Que preço tem a liberdade? Certo,
o bem-te-vi da esquina, empoleirado
numa antena prosaica, sabe mais
do que posso saber, já que não voo.

Reynaldo Valinho Alvarez

21 de fevereiro de 2013

Amor como em Casa

John Atkinson Grimshaw
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina (1943-2012)

Os Caquis

Ann Morton
Ah! Os caquis,
esses tomates inflados.
Os caquis,
esses pneus assanhados,
risonhos, safados,
que nos convidam a morder
sua carne aguada, açucarada.

Os caquis,
vítimas da nossa voracidade.
Os caquis,
que se abrem à primeira dentada,
docemente, docilmente,
feito fêmea dominada.

Ah! Os caquis já vão-se embora.
Despeço-me deles agora.
Mas não faz mal,
estou satisfeita,
esperando a próxima colheita.

Sônia Carneiro Leão

20 de fevereiro de 2013

O Dia Inacabado

Photo Rarindra Prakarsa
Como todos os homens, sou inacabado.
Jamais termino de ser.
Após a noite breve um longo amanhecer
me detém no umbral do dia.
Perco o que ganho no sonho e no desejo
quando a mim mesmo me acrescento.
Toda vez que me somo, subtraio-me,
uma porção levada pelo vento.
Incompleto no dia inacabado,
livre de ser ainda como e quando,
sigo a marcha das plantas e das estrelas.
E o que me falta e sobra é o meu contentamento.

Lêdo Ivo (1924-2012)

Deslizando céus

Rafal Olbinski
Esperei pela nuvem maior
Num bater forte do coração
Entre águias, céus e azui
Surfei equilibrado na prancha da saudade.
Do outro lado, em redemoinhos de nimbos
Te via sorrindo e de braços abertos.
Gritavas em puro e suave silêncio.
-vem, vem, meu grande amor.
E deslizei respingado de gotas dos céus
Até ou teus braços, teus lábios, nossa aventura.

Jaak Bosmans

19 de fevereiro de 2013

A vida é que nos vive

Ernest Walbourn
A vida humana
- na verdade toda a vida -
É poesia.

Nós a vivemos inconscientemente,
dia a dia,
fragmento a fragmento,
mas na sua totalidade
inviolável,
Ela é que nos vive!

Lou-Salomé (1861-1937)
Lou Andreas-Salomé

Consoada

Linda Carter Holman
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Manuel Bandeira (1886-1968)

Vocabulário:
Consoada: refeição noturna
Coroável: carinhosa, amável
Iniludível: a quem não pode iludir
Sotilégios: mistérios
Acompanhar a trajetória de Manuel Bandeira é ter oportunidade de contato com etapas realmente significativas da evolução poética do século XX. Sempre pensando que morreria cedo, por causa de sua pouca saúde, acabou vivendo muito e legando uma das mais densas heranças humanísticas da nossa literatura.
Consoada é uma pequena ceia noturna; pode também significar “ceia de Natal” e, em português mais antigo, “presente de Natal”. É para essa ceia que o eu lírico espera a morte, através de um eufemismo (“a indesejada das gentes”), que pode chegar dura ou “coroável” (a palavra vem de “caro” e que dizer “amigável, favorável”, até mesmo “querida”). Essa atitude diante da Morte (Alô, iniludível!) não é de medo ou pessimismo. É como se ele a recebesse para um jantar, a fim de compartilhar com ela uma refeição amistosa, sem nada de trágico ou doloroso.

18 de fevereiro de 2013

Caravelas

Adri Padmos
Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!
Se eu sempre fui assim este Mar-Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram.

Caravelas doiradas a bailar...
Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...

Florbela Espanca (1894-1930)
Joana Kruse
Tange o sino, tange,
Tange doloroso.
Cai como quer um alfange
No meu sonhar de gozo...
E o sino tange, tange
Lento e ao longe moroso.

E tange e plange, longe
Aérea melodia...
Cada som é um monge
Na sua alva fria...
Tange o sino de bronze
No escurecer que esfria.

E em mim também é escura
A tarde do meu ser
E plange em mim, na lonjura
Do meu vago esquecer
Um sino ao longe, oh agrura
De ser sempre o meu ser!

Fernando Pessoa (1888-1935)

17 de fevereiro de 2013

Quero sentir

Sophia McCloud
Quero sentir tua mão amiga,
junto da minha no prazer, na dor.
Assim, mesmo entoada a última cantiga,
um som há de restar do nosso amor.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Os que Vinham da Dor

Anne Bachelier
Os que vinham da Dor tinham nos olhos
estampadas verdades crudelíssimas.
Tudo que era difícil era fácil
aos que vinham da Dor diretamente.

A flor só era bela na raiz,
o Mar só era belo nos naufrágios,
as mãos só eram belas se enrugadas,
aos olhos sabedores e vividos
dos que vinham da Dor diretamente.

Os que vinham da Dor diretamente
eram nobres de mais pra desprezar-vos,
Mar azul! mãos de lírio! lírios puros!
Mas nos seus olhos graves só cabiam
as verdades humanas crudelíssimas
que traziam da Dor diretamente.

Sebastião da Gama (1924-1952)

16 de fevereiro de 2013

Colhendo segredos

Evgeny Kouznetsov
Recolha as estrelas
Ainda em sementes
Desenha o infinito
E plante-as em outros céus,
Bem longe

Adube-as com sonhos
Regue-as com lágrimas
E espera pelos segredos
Daquela que escolheste tê-la,
Bem perto.

Jaak Bosmans

VERDADE

Lisa Falzon
Sempre procuramos a Verdade.
Ela tem medo de ser pega.
Livros são gaiolas.
Verdade não é um canário
Para ciscar palavras com paciência
E morrer depois de comer todas.

A verdade não gostaria de viver
Na cabeça ou na garganta ou no coração de alguém.
Não tente acha-la ali.

A verdade não é dríade pra ser punida numa arvore
A verdade não é nenhuma naiade.
A verdade certamente se afogaria numa fonte.

Deixe a terra em paz.
A verdade não deixa pegadas.
Não escute
Até o silencio se pôr com a lua.
A verdade não faz ruídos.
Não siga a luz
Que segue o sol
Que segue a noite.
A verdade dança além da luz
E do sol
E da noite.
A verdade não pode ser vista.

Deixe a curiosidade ficar em casa.
Ela pode se perder.
(A verdade frequenta antros estranhos.)
Se, criança, o segredo se calça,
Um dia será imprudência.

Deixe a verdade em paz.
A verdade não pode ser pega.
Acho que ela não vive nada, não,
Pois teria medo de morrer, então.

Laura Rinding (1901-1991)
Tradução: Rodrigo Garcia.

15 de fevereiro de 2013

Narcisismo

Vittorio Zecchin
“O narcisismo começa nos espelhos – no espelho que é a mãe, cujos olhos cintilantes e sorriso receptivo refletem o encanto pelo filho; o "salão dos espelhos" sedutores mas claustrofóbicos dos pais superprotetores; o espelho frio e sem vida que o suicida encara num banheiro vazio; a lâmina de água que se desfaz em milhares de formas quando Narciso, em vão, se aproxima para tocar o seu reflexo.”
Jeremy Holmes