31 de janeiro de 2013

Cantares de perda e predileção

Emma Sandys
Vida da minha alma:
Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças

Revi os cães. Não os mesmos. Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.

Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijolos
Pás, a areia dos dias

E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.

Hilda Hilst (1930-2004)

Viver

Edward Hopper
Podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano.

Eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano.

Paulo Leminski (1944-1989)

30 de janeiro de 2013

Andorinhas

Sherri Friesman
Namoradas do sol, andorinhas inquietas,
Poesia dos beirais de asas leves e errantes!
Vocês vêm vocês vão como versos trissantes
De sílabas azuis, de rimas incompletas.
Andorinhas azuis de revoadas constantes!
Você me lembram sempre a saudade dos poetas
Incansáveis da altura e dos céus mais distantes.

Stella Leonardos

Oração

Daniel Ridgway Knight – Apple Blossoms
Meu Deus, tende pena
do que resta em mim:
nem o mundo é feio,
nem a vida, ruim.

Meu Deus, dai-me força
de amar minha sorte:
fazer luz de vida
das trevas da morte.

Odylo Costa Filho (1914-1979)

29 de janeiro de 2013

BRASIL DE LUTO…

Jean Baptiste Jules Trayer
E quando um acidentado acorda,
perplexo, no outro mundo,
e indaga dos anjos que horas são,
muito mais perplexos ficam os anjos…

Mario Quintana (1906-1994)

Passarinho
faz árvore de tarde
nos andarilhos.

Manoel de Barros

Gustavo Dallara
“Vivia longe dos homens, só se dava bem com os animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro, cambaio, torto e feio. Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos exclamações e onomatopeias. Na verdade, falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas”.
Graciliano Ramos (1892-1953)
Em Vidas secas.

E eu senti

Barend Cornelis Koekkoek
Uma presença que me perturba
com a alegria
De elevados pensamentos;
um sentido sublime
De algo mais profundamente entremesclado,
Cuja moradia é a luz dos poentes
E o redondo oceano
e o ar vivo.
E o céu azul,

E na mente do homem:
Um movimento e um espírito
que impelem
Todas as coisas que pensam,
todos os objetos de todo o pensamento,
E que rola através de todas as coisas.

William Wordsworth (1770-1850)

28 de janeiro de 2013

Comunicado

Anne Klar
Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.

Miguel Torga (1907-1995)

Conhecer o Pensamento Divino

Jules Scalbert
Arma-te com a Tocha dos mistérios,
E na noite terrestre
Descobrirás o Teu Duplo Luminoso,
A tua Alma Celeste.

Segue o Guia Divino,
E que ele seja o teu gênio,
Pois ele tem a chave das tuas existências
Passadas e futuras.

Escutai em vós mesmos
E olhai no infinito
Do Espaço e do Tempo.

Aí ouve-se o canto dos Astros,
A voz dos Números,
A harmonia das Esferas.

Cada sol
É um pensamento de Deus, e cada planeta
Um modo deste pensamento.

Conhecer o Pensamento Divino, ó, Almas!
É a razão pela qual vós desceis
E subis penosamente
O caminho dos céus.

Que fazem os astros?
Que dizem os números?
Que rolam as esferas?

Ó, Almas perdidas ou salvas!

Eles dizem,
Eles cantam,
Eles rolam vossos destinos!

Hermes Trimegistus

27 de janeiro de 2013

Citações:

Foto de Steve Terrill

“Na desvalorização do passado
está implícita uma justificativa da nulidade do presente”.
Antonio Gramsci (1891-1937)

“O desafio da modernidade é
viver sem ilusões, sem se tornar desiludido”.

Antonio Gramsci (1891-1937)

São João da Cruz

Para vir a apreciá-lO por inteiro,
não queira apreciar mais nada;
Para vir a possuí-lO por inteiro,
não queira possuir mais nada;
Para vir a sê-lO por inteiro,
não queira ser mais nada;
Para vir a sabê-lO por inteiro,
não queira saber mais nada.

São João da Cruz (1542-1591)
Subida ao Monte Carmelo

Meia-noite

Daniel F. Gerhartz
Serena desceu a noite sobre a terra,
encostou-se sonhadora na montanha;
seu olhar vê agora a balança de ouro
do tempo descansar calma em pratos iguais
e as fontes cantam seus receios
aos ouvidos da mãe, da noite,
sobre o dia
o dia passado de hoje.

O tão antigo acalento
a noite não percebe, está cansada;
o azul do céu repete mais doce,
o jugo igualmente distribuído das horas fugidias.
Entretanto a palavra, as fontes a conservam
e as águas cantam-na em sono
sobre o dia,
o dia passado de hoje.
Eduard Friedrich Mörike (1804-1875)

26 de janeiro de 2013

Reflexão

Sir Lawrence Alma-Tadema
Um caminho é só um caminho,
e não há desrespeito a si ou aos outros em abandoná-lo,
se é isto que o coração nos diz...
Examine cada caminho com muito cuidado e deliberação.
Tente-o muitas vezes, tanto quanto julgar necessário.
Só então pergunte a você mesmo, sozinho, uma coisa...
Este caminho tem coração?
Se tem, o caminho é bom,
se não tem, ele não lhe serve.
Um caminho é só um caminho.

Carlos Castãneda (1925-1998)
Se o seu espírito está distorcido, ele deve simplesmente endireitá-lo — purificá-lo, torná-lo perfeito —, pois não há nenhum outro trabalho, em todas as nossas vidas, que valha mais a pena. Não endireitar o espírito é procurar a morte, e isso é o mesmo que não procurar nada, pois a morte nos apanhará, de qualquer maneira. Buscar a perfeição do espírito do guerreiro é a única tarefa digna de nosso tempo limitado e de nossa virilidade.
Quando um guerreiro resolve fazer alguma coisa, ele deve ir até o fim, mas tem de assumir a responsabilidade por aquilo que faz. Não importa o que faz, primeiro ele tem de saber por que o faz e depois tem de prosseguir com seus atos sem ter dúvidas ou remorsos em relação a eles.
Carlos Castãneda (1925-1998)
Viagem à Ixtlan

25 de janeiro de 2013

Off Price

Deborah Schenck
Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim pode
reinventar o certo pelo errado...

Ferreira Gullar

Labirinto

John William Godward
Não haverá nunca uma porta. Estás dentro
E o alcácer abarca o universo
E não tem nem anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor de teu caminho
Que teimosamente se bifurca em outro,
Que teimosamente se bifurca em outro,
Tenha fim. É de ferro teu destino
Como teu juiz. Não aguardes a investida
Do touro que é um homem e cuja estranha
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe. Nada esperes. Nem sequer
A fera, no negro entardecer.

Jorge Luis Borges (1899-1986)
Tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques

24 de janeiro de 2013

Estalo

Elena Tener
Estalou teu silêncio
e despertaste o louco
que dormia na minha cabeça.

Comecei a procurar-te
por esses caminhos apagados.

Dizem-me que te tornaste flor,
dizem-me que te tornaste mel.

Por culpa tua
sinto que sou abelha.

Humberto Ak'abal
(poeta da Guatemala)

Memória

Carl Larsson
Minha família anda longe
contravos de circunstancias:
uns converteram-se em flores,
outros em pedra, água, líquen,
alguns, de tanta distância,
nem têm vestígios que indiquem
uma certa orientação.

Minha família anda longe,
- Na Terra, na Lua, em Marte
-uns dançando pelos ares,
outros perdidos no chão.

Tão longe, a minha família!
Tão dividida em pedaços!
Um pedaço em cada parte...
Pelas esquinas do tempo,
brincam meus irmãos antigos:
uns anjos, outros palhaços...
Seus vultos de labaredas
rompem-se como retratos
feitos em papel de seda.
Vejo lábios, vejo braços,
- por um momento, persigo-os;
de repente os mais exatos,
perdem a sua exatidão.
Se falo, nada responde.
Depois, tudo vira vento,
e nem o meu pensamento
pode compreender por onde
passaram nem onde estão.

Minha família anda longe.
Mas eu sei reconhecê-la:
um cílio dentro do Oceano...
uma ruga num caminho
caída como pulseira,
um joelho em cima da espuma,
um movimento sozinho
aparecido na poeira...
Mas tudo vai sem nenhuma
noção de destino humano,
de humana recordação.

Minha família anda longe.
reflete-se em minha vida,
mas não acontece nada:
por mais que eu esteja lembrada,
ela se faz de esquecida:
não há comunicação!
Uns são nuvem, outros lesma...
Vejo as asas, sinto os passos
de meus anjos e palhaços,
numa ambígua trajetória
de que sou o espelho e a história.
Murmuro para mim mesma:
"É tudo imaginação!"

Cecília Meireles (1901-1964)

23 de janeiro de 2013

Canção de Minha Descoberta

Johann Georg Meyer Von Bremen
Eis-me resignado.
Fugi de tudo que fui
e pelo caminho de minha renúncia
venho buscar bandeiras novas.
Agora persigo a palavra nova
por eles que esperam com o coração amargo
e o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
e ficar em paz com a morte dos desgraçados
caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas,
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
e vou surgindo novo entre lenços brancos
agitados de dor pela mão dos homens.

José Carlos Capinam

Poema Intencional

Franz Xaver Winterhalter
Há em cada substância a sua negativa
e a possibilidade de processo.
Processo inexorável a ir ao fim
meta a ser de pão e flores:
A rosa será uma outra rosa
e nós já não seremos
vejo nos olhos tristes
um filho possível
vejo na árvore antiga do parque,
uma cadeira, uma muleta, mas sobretudo um aríete
descubro na boca angustiada o hino pronto e pesado:
é inevitável o acontecimento
mas procuro ser um elemento,
Carrego em mim a utilidade
sei que posso dar existência
e na minha total renúncia
utilizo-me para um bem maior:
tenho que colher a rosa
e transformá-la
tenho que possuir Maria
e dar-lhe um filho
tenho que transformar a árvore do parque
em cadeira, em muleta mas, sobretudo em aríete.

José Carlos Capinam

22 de janeiro de 2013

Alexis-Marie Lahaye
Estou perdido para o mundo,
Onde outrora consumi os meus dias,
Há tanto que não tem noticias minhas,
Bem pode acreditar que morri!

Também já não faz diferença,
Que me considere morto.
Não posso sequer dizer o contrário,
Pois, na verdade, morri para o mundo.

Morri para o bulício do mundo
E descanso numa região serena
Vivo sozinho no meu céu,
No meu amor, na minha canção!

Friedrich Rückert (1788-1866)

Trecho do livro Sonhos d'ouro

Eugenio Zampighi
“Ah! a esperança é uma das plantas
mais vivazes que eu conheço;
quando uma vez brotou no coração,
não há meio de extirpá-la: é como a urtiga.
Embora o ferro a corte, rebenta de novo.
Só morre quando lhe esmigalham as raízes”.

José de Alencar (1829-1877)

21 de janeiro de 2013

Hoje é o Dia da Religião

21 de Janeiro - Dia Mundial da Religião

Hieronymus Bosch
Diante da diversidade de dogmas e culturas, torna-se muito difícil conceituar um assunto como religião. A palavra se originaria do latim religare, significando o laço que liga o homem à divindade.
Pode-se afirmar que o princípio das religiões se baseia na crença de uma força inteligente sobrenatural, considerada como criadora do universo, e na continuidade da vida após a morte através da existência de outros planos que não o físico.
É um conceito amplo, com o qual os pesquisadores trabalham. Sem dúvida, os crentes de cada religião teriam definições bem mais adequadas para suas crenças.
Pode-se dizer também que a religião é um conjunto de regras e doutrinas, pelas quais o crente se guia e molda suas atitudes. Ou ainda, que é um sistema específico de pensamento ou crença a envolver princípios filosóficos, éticos e metafísicos.
A religião acompanha e conforta a humanidade desde os primórdios. Acreditava-se que os animais, as plantas, os rios, o mar, o sol e a lua continham espíritos, sendo preciso estar em harmonia com eles. O antropólogo E. B. Tylor chamou esta “religião inicial” de animismo. Segundo Tylor, as religiões foram evoluindo junto com a humanidade, tanto cultural quanto tecnologicamente. Quando o homem abandonou sua postura nômade e passou a se fixar em determinadas áreas, surgiu o politeísmo (crença em vários deuses); e depois, com o surgimento da noção de grupos sociais, aparece o monoteísmo (crença em um único Deus).

As religiões surgiram para tentar responder a uma série de perguntas que sempre estiveram presentes ao longo de nossa história:

De onde vim?
Para onde vou depois que morrer?
Viverei mais de uma vez?
Como o mundo passou a existir?
Que forças governam nossa existência?
Saiba Mais lendo:
O Livro das Religiões,
Jostein Gaardner,
Cia das Letras.

Alegoria

Thomas Couture
Em vão busco acender um diálogo contigo:
a alma sem tom da tua boca de água e vento
despede cinza, névoa e tempo no que digo,
devolve ao chão o meu mais longo pensamento,
e entre cactos estira esse deserto contigo:
que vem de tua altura ao vale onde me ausento,
procurando o teu verbo. O silêncio, investigo-o,
e ouço o naufrágio, o vácuo e o deperecimento.

Sonho: desces a mim em um céu de algas e rosas,
falas às minhas mãos vozes vertiginosas,
e palavras de flor no teu cabelo enastro.

Desperto: pairas ainda em silêncio e infinita:
meu ser horizontal chora treva e medita
tua distância, teu fulgor, teu ritmo de astro.

Abgar Renault (1901-1995)

Os dois lados do ser humano: Dragão e São Jorge

Gustave Moreau - Saint Georges
Toda religião, também o cristianismo, possui muitas valências. Além de se centralizar em Deus, elabora narrativas sobre o drama paradoxal do ser humano, gerando sentido, uma interpretação da realidade, da história e do mundo.
Exemplar é a lenda de São Jorge e o combate feroz com o dragão narrada no artigo anterior. Primeiramente, o dragão é dragão, portanto, uma serpente. Mas é apresentada alada, com enorme boca que emite fogo e fumaça e um cheiro mortífero. É um dragão simbólico.
No Ocidente representa o mal e o mundo ameaçador das sombras. No Oriente é positivo, símbolo nacional da China, senhor das águas e da fertilidade (long). Entre os aztecas era a serpente alada (Quezalcoatl), símbolo positivo de sua cultura. Para nós ocidentais o dragão é sempre terrível e representa a ameaça à vida ou as dificuldades duras da sobrevivência. Os pobres dizem: “tenho que matar um dragão por dia tal é a luta pela sobrevivência
Mas o dragão, como o mostrou a tradição psicanalítica de C. G. Jung com Erich Neumann, James Hillmann. Etienne Perrot e outros representa um dos arquétipos (elementos estruturais do inconsciente coletivo ou imagens primordiais que ordenam a psique) mais ancestrais e transculturais da humanidade.
Junto com o dragão sempre vem o cavaleiro heroico que com ele se confronta numa luta feroz. Que significam essas duas figuras? À luz de categorias de C. G. Jung e discípulos, especialmente de Erich Neumann que estudou especificamente este arquétipo (A história da origem da consciência, Cultrix 1990) e da psicoterapia existencial-humanística de Kirk J. Schneider (O eu paradoxal, Vozes 1993) procuremos entender o que está em jogo nesse confronto.
O caminho da evolução leva a humanidade do inconsciente para o consciente, da fusão cósmica com o Todo (Uroboros) para a emergência da autonomia do ego. Essa passagem é dramática, nunca totalmente realizada; por isso, o ego deve continuamente retomá-la caso queira gozar de liberdade e vencer na vida.
Mas importa reconhecer que o dragão amedrontador e o cavaleiro heroico são duas dimensões do mesmo ser humano. O dragão em nós é o nosso universo ancestral, obscuro, nossas sombras de onde imergimos para a luz da razão e da independência do ego. Por isso que em algumas iconografias, especialmente uma da Catalunha (é seu patrono) o dragão aparece envolvendo todo o corpo do cavaleiro. Numa gravura de Rogério Fernandes (com.br) o dragão aparece envolvendo o corpo de São Jorge, que o segura pelo braço e tendo o rosto, nada ameaçador na altura do de São Jorge. É um dragão humanizado formando uma unidade com São Jorge. Noutras (no Google há 25 páginas de gravuras de São Jorge com o dragão) o dragão aparece como um animal domesticado sobre o qual São Jorge de pé o conduz não com a lança mas com um bastão.
A atividade do herói, no caso de São Jorge, na sua luta com o dragão mostra a força do ego, corajoso, iluminado e que se firma e conquista autonomia, mas sempre em tensão com a dimensão escura do dragão. Eles convivem mas o dragão não consegue dominar o ego.
Diz Neumann: ”A atividade da consciência é heroica quando o ego assume e realiza por si mesmo a luta arquetípica com o dragão do inconsciente, levando-a a uma síntese bem sucedida”(Op.cit. p.244), A pessoa que fez esta travessia não renega o dragão, mas o mantém domesticado e integrado como seu lado de sombra. Por esta razão, em muitas narrativas, São Jorge não mata o dragão. Apenas o domestica e o re-insere no seu lugar deixando de ser ameaçador. Ai surge a síntese feliz dos opostos; o eu paradoxal encontrou seu equilíbrio pois alcançou a harmonização do ego com o dragão, do consciente com o inconsciente, da luz com a sombra, da razão com a paixão, do racional com o simbólico, da ciência com a arte e com a religião.
A confrontação com as oposições e a busca da síntese constitui a característica de personalidades amadurecidas, que integraram a dimensão de sombra e de luz, o lado São Jorge com o lado Dragão. Assim o vemos em Buda, Francisco de Assis, Jesus, em Gandhi e em Luther King.
Os cariocas tem grande veneração por São Jorge mais do que por São Sebastião, patrono oficial da cidade. Mas este é um guerreiro, cheio de flechas, portanto “vencido”. O povo sente necessidades de um santo guerreiro corajoso que vence as adversidades. Ai São Jorge representa o santo ideal. Na novela “Salve Jorge” ele funciona como o herói que vai libertar as meninas traficadas para a Turquia; ele enfrentará, vitoriosamente, o dragão do tráfico internacional de mulheres.
Por certo, aqueles que veneram São Jorge com o dragão não sabem nada de seu significado arquetípico. Não importa. Pois seu inconsciente o sabe; ele ativa e realiza neles sua obra: a vontade de lutar, de se afirmar como egos autônomos que enfrentam e integram as dificuldades (os dragões) dentro de um projeto positivo de vida (São Jorge, herói vitorioso). E saem fortalecidos para a dura luta da vida.
Leonardo Boff

20 de janeiro de 2013

Alma Enamorada

Josephine Wall
A alma que está enamorada de Deus
não pretende vantagem ou prêmio algum
a não ser perder tudo e a si mesma
voluntariamente,
por Deus,
e nisto encontra todo o seu lucro.
O morrer é lucro.
Quando uma alma no caminho espiritual
chegou a ponto de perder-se
de todas as vias e modos naturais
de proceder em suas relações com Deus,
e não mais O busca por meio de considerações,
ou formas,
ou sentimentos,
ou quaisquer outros intermediários de criaturas ou sentidos,
mas ultrapassou tudo isto,
bem como toda a sua maneira pessoal,
tratando com Deus
e Dele gozando puramente em fé e amor,
então podemos dizer que,
na verdade,
esta alma ganhou a seu Deus;
porque está verdadeiramente perdida a tudo quanto não é Ele,
e a tudo quanto ela é em si mesma.

São João da Cruz (1542-1591)