12 de dezembro de 2013

Deus encanta-me

Visconti Hours - Belbello da Pavia
Deus encanta-me. É um velho magnífico que não se toma a sério. Gosta de jogar e joga, e às vezes perde a cabeça e parte-nos uma perna ou derrota-nos definitivamente. Mas isto acontece porque é um pouco cegueta e bastante aselha de mãos.
Enviou-nos alguns tipos excepcionais como Buda, ou Cristo, ou Maomé, ou a minha tia Cofi, para que nos digam que nos portemos bem. Mas isto a ele não o preocupa muito: conhece-nos. Sabe que o peixe grande come o pequeno, que a lagartixa grande come a pequena, que o homem come o homem. E por isso inventou a morte: para que a vida —nem tu nem eu— a vida, seja para sempre.
Agora os cientistas veêm com a sua teoria do Big Bang… Mas que importa se o universo se expande interminavelmente ou se contrai? Isto é assunto só para agências de viagens.
A mim Deus encanta-me. Pôs ordem nas galáxias e distribui bem o trânsito no caminho das formigas. E é tão brincalhão e travesso que no outro dia descobri que fez —perante um ataque dos antibióticos— bactérias mutantes!
Velho sábio ou menino explorador, quando deixa de brincar com os seus soldados de chumbo e de carne e osso, faz campos de flores ou pinta o céu de maneira incrível.
Move uma mão e faz o mar, e move a outra e faz o bosque. E quando passa por cima de nós, ficam as nuvens, pedaços do seu respirar.
Dizem que às vezes se enfurece e faz terramotos, e manda tempestades, caudais de fogo, ventos desatados, águas aleivosas, castigos e desastres. Mas isto é mentira. É a terra que muda —e se agita e cresce— quando Deus se afasta.
Deus está sempre de bom humor. Por isso é o preferido dos meus pais, o escolhido dos meus filhos, o mais próximo dos meus irmãos, a mulher mais amada, o cãozinho e a pulga, a pedra mais antiga, a pétala mais terna, o aroma mais doce, a noite insondável, o borboteo de luz, o manancial que sou.

Gosto, a mim Deus encanta-me. Que Deus bendiga Deus.
Jaime Sabines (1926-1999)

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