3 de dezembro de 2013

Canção

Mulata - Di Cavalcanti
Mostraram-me um dia na roça dançando
Mestiça formosa de olhar azougado,
Co’um lenço de cores nos seios cruzado,
Nos lobos de orelha pingentes de prata.
Que viva mulata!
Por ela o feitor
Diziam que andava perdido de amor.

De entorno dez léguas da vasta fazenda
A vê-la corriam gentis amadores,
E aos ditos galantes de finos amores,
Abrindo seus lábios de viva escarlata,
Sorria a mulata,
Por quem o feitor
Nutria quimeras e sonhos de amor.

Um pobre mascate, que em noites de lua
Cantava modinhas, lunduns magoados,
Amando a faceira dos olhos rasgados,
Ousou confessar-lhe com voz timorata…
Amaste-o, mulata!
E o triste feitor
Chorava na sombra perdido de amor.

Um dia encontraram na escura senzala
O catre da bela mucamba vazio;
Embalde recortam pirogas o rio,
Embalde a procuram nas sombras da mata.

Fugira a mulata,
Por quem o feitor

Se foi definhando, perdido de amor.

Gonçalves Crespo (1846-1883)

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