5 de outubro de 2013

Dádivas de Luz

Maurice Utrillo
Antes que as palavras
pudessem servir de conforto
uma definitiva amargura
dissipá-las-ia

- Ninguém apreende
o que está além de si

nem como
na mão quente
que lhe sustém o pensamento

o gérmen seu irmão
mata instantaneamente
Sempre
além da fala
e da cópula
há a guerra
e a morte

O criminoso
sobrevive à vítima
para se tornar
um homem tranquilo

Nenhum homem é
em si próprio
o inocente
que supõe ser

Há sempre
a guerra

o insignificante
reduzindo a lixo o essencial
o incêndio submerso
em densas espirais

e o desenho diluindo-se
sem o divisarmos
com a plenitude final
já à vista

Não há seres
interiores ou exteriores

só o frenesim dos anseios
bruxuleando
ao longo dos corredores
pelas infindáveis trevas

Na luz
não há coração

só a degradação
e a dissipação
da sempre mesma luz

Sempre
a guerras prestes a eclodir
toda a luz
desaparece de repente

todo o pensamento
se esvazia

Não há
primeiros nem últimos

só o amargo fim.

Edwin Honig (1919-2011)
Tradução: António Ramos Rosa

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