18 de outubro de 2013

Pensamentos que me visitam nas ruas movimentadas

William Hogarth
Rostos.
Bilhões de rostos na face da Terra.
Dizem que cada um é diferente
dos que existiram ou existirão.
Mas a Natureza – quem lá a entende –
talvez cansada do trabalho incessante,
repete suas antigas ideias
e nos coloca rostos
já usados um dia.

Talvez você cruze com Arquimedes de jeans,
a tsarina Catarina com roupas de liquidação,
algum faraó de pasta e de óculos.

A viúva de um sapateiro descalço
de uma Varsóvia ainda pequenina,
um mestre da gruta de Altamira
indo com os netos ao zoológico,
um vândalo cabeludo, ao museu,
deslumbra-se um pouco.

Uns que tombaram duzentos séculos atrás,
cinco séculos atrás
e meio século atrás.

Alguém transportado aqui numa carruagem
dourada,
alguém num vagão de extermínio.
Montezuma, Confúcio, Nabucodonosor,
suas babás, lavadeiras, e Semíramis,
que fala somente inglês.

Bilhões de rostos na face da Terra.
O teu, o meu, o rosto de quem –
você nunca vai saber.
Talvez a Natureza precise enganar,
e para dar conta de prazos e demandas,
comece a pescar aquilo que está submerso
no espelho da desmemória.

Wislawa Szymborska (1923-2012)
Tradução: Regina Przybycien

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