29 de setembro de 2013

Tinta Invisível

Georges Seurat
Para que tenha batismo
o dia precisa de tinta
uma pincelada de verniz
que o identifique e digam:
esse é o domingo
com o sol bem dividido
entre o futebol e a missa
com roupa engomada
e sapatos de verniz
matiné com mocinhos
dando tiro e meninas
que aguardam o filme
de amor entre suspiros

Quem passa essa mão
de camadas na superfície
e faz com que seja único
o dia assim revestido?
Algum decreto não dito
que desce na planície
vindo de um secreto
e remoto concílio?
E firma o trânsito livre
entre o terno e o pijama
com tardes infinitas
da infância batendo pino
antes da vida adulta

Vida à margem do rio
na cidade perdida
projetos de ventania
comunhão de trilhas
passeios vadios
no rosto ainda enxuto
e o tempo escrito
na embalagem de vidro
que cobre a memória
e verte convicto
cada letra do espírito
Imóveis pintamos
o caos recém nascido.

Nei Duclós

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